Depois do álbum homónimo, lançado em 2012, e de “Passeio das Virtudes”, editado em 2016, os Salto estão de volta com “Férias em Família”. Composto entre a Maia e a capital, foi terminado no seu quartel-general em Marvila, para onde se mudaram de instrumentos e bagagens no início do ano.

“Férias em Família” encerra um capítulo da banda que se deu a conhecer com “Por Ti Demais”, tema que fez parte da compilação Novos Talentos FNAC 2010. “Fechado o primeiro filme da saga, seguem-se as sequelas”, dizem. Até lá querem chegar a mais público e potenciar a experiência do concerto.

Os Salto são Luís Montenegro, nos teclados e sintetizadores, Guilherme Tomé Ribeiro, na guitarra e voz, Tito Romão, na bateria, e Filipe Louro, no baixo. Os dois últimos juntaram-se, em 2015, aos primos fundadores que estiveram à conversa com o SAPO24.

O que difere "Férias Em Família" dos dois outros trabalhos?

Luís Montenegro (L): [Difere] na importância que demos às canções. Enquanto que os outros álbuns viviam muito da forma, do que é que englobava a canção, neste ela fica em primeiro lugar. As músicas, os arranjos e a produção estão a servir a canção. No fundo, focámo-nos mais nas canções e na maneira como queríamos que elas vivessem.

Foi propositado ou foi algo que decorreu do processo de composição e produção?

Guilherme Tomé Ribeiro (G): Partimos com a canção em primeiro lugar porque sentíamos que não tínhamos conseguido fazê-lo nos dois primeiros álbuns. E a verdade é que, antes, se calhar, até tínhamos essa vontade, mas deixámo-nos deslumbrar por um conjunto de coisas. No primeiro álbum, pela quantidade de arranjos; no segundo, por queremos soar a uma banda [passaram de dois a quatro elementos]. Neste fomos só mesmo à procura da canção e do arranjo servir a canção. 

L: Muita coisa descomplicou neste álbum. E, por isso, ganhou uma dimensão mais profunda.

G: Ganhámos mais espaço para as letras e para as trabalhar com outra profundidade. O que também está relacionado com o passar dos anos e com o facto de estarmos a escrever melhor — ou assim o achamos.

"Focámo-nos mais nas canções e na maneira como queríamos que elas vivessem."

L: Foi premeditado q.b.

Quando é que o "Férias em Família" começou a ganhar forma?

L: Em duas fases diferentes, e primeira foi logo quando acabámos o "Passeio das Virtudes". Começámos a fazer alguns destes temas ainda na sala de ensaios. Só que o Guilherme estava a viver em Lisboa e eu estava no Porto com o resto da banda, o que o obrigava a fazer maratonas de intercidades. A segunda fase coincidiu com um ponto de viragem na nossa forma de trabalhar e que resultou de, em abril deste ano, termos conseguido montar um estudo aqui em Marvila [Lisboa]. Assim que nos mudámos, em menos de três meses fechámos o álbum. Foi quase um retorno a um ambiente familiar, também pelo facto de eu e o Guilherme sermos primos, o que deu mote ao nome do álbum. Esse ambiente familiar dá uma sensação conforto que te permite trabalhar de outra forma.

Este álbum foi o primeiro que teve a produção inteiramente da vossa responsabilidade. Isso fez diferença?

G: Fez imensa diferença. Acho que é a primeira vez que conseguimos ter o som como queríamos. É muito difícil falar de som com alguém e de explicar a quem te grava o álbum como queres esse som. Essa pessoa vai sempre ouvir, gravar e produzir à sua maneira. E aqui não, fomos nós a fazer tudo. Só não fizemos um processo, que foi o da masterização.

L: Mas que até foi fixe não termos sido nós a fazer.

G: Porque de repente já estás tão comprometido com o processo que não tens capacidade de discernir.

L: É uma parte do processo que, de certa maneira, faz um nivelamento com o resto do material que já foi editado e que é importante ser feito por alguém menos comprometido. 

G: O processo de produção já o tínhamos feito para outras pessoas, mas nunca o tínhamos feito para nós.

Que importância tiveram os vossos projetos paralelos neste disco ou na forma como o produziram?

[n. r. Guilherme tocou com o Moullinex e responde pelos pseudónimos musicais UhAhUh e GPU Panic; Luís tocou com a Capicua e Rapaz Ego e também responde por Lewis M]

L: Deu uma certa tranquilidade. Há muitas coisas que acontecem noutros projetos que acabam por ser uma resolução. Se me apetece fazer uma coisa mais eletrónica, consigo resolver essa vontade e experimentalismo noutros projetos. Mas não só resolve essa vontade como faz-nos crescer noutras dimensões que enaltecem a personalidade artística. Chegamos a Salto muito mais maduros, mais focados e sem querer dizer tudo ao mesmo tempo.

G: Partilhar experiências com outras bandas, e fizemo-lo com o Luís [Moullinex] e com a Capicua, origina uma sinergia e uma partilha muito enriquecedora.

"Temos três discos, mas sentimos que ainda nos falta chegar a muita gente."

Têm dito que este álbum revela algum crescimento da vossa parte. Em que medida?

L: Ora bem, o Guilherme tinha 1,64 e agora tem 1,80... [risos] É uma maturidade que considero interessante surgir ao terceiro disco porque as grandes histórias têm três atos. No primeiro apresentas as personagens, no segundo há um dilema e no terceiro a conclusão. E este álbum é um bocado isso, conclui muito do que é o nosso estar na música enquanto músicos de profissão. Falamos muito disso no disco, sobre o que é ser músico hoje em dia e o que é que isso significa. Como diz a primeira música ["Cantar até Cair"], acaba por ser uma escolha que fazemos todos os dias; todos os dias queremos ser músicos. E isso implica um compromisso, um debate constante sobre a fragilidade de criar e um compromisso com a criação. Isso, no primeiro disco é fácil porque é tudo novo e é válido; no segundo disco, ainda há muita coisa por desbravar e ainda estás numa deambulação de experimentar coisas. No terceiro disco estamos muito mais em paz connosco próprios e acaba por ser uma ode ao porquê de fazermos música. 

créditos: Marta Olive

Se este disco é a conclusão, que espaço deixa para os próximos anos?

L: É engraçado, mas acho que é a conclusão do primeiro capítulo. Fecha um bocado a ideia daquilo que os Salto querem fazer. Os próximos discos vão ter uma intensidade e uma profundidade muito maior. Fechado o primeiro filme da saga, seguem-se as sequelas.

G: Deixa muito espaço para fazer muitas coisas. A verdade é que temos três discos, mas sentimos que ainda nos falta chegar a muita gente. Tocámos em poucos sítios comparando com a qualidade daqueles em que podemos ainda tocar, por exemplo. Há uma série de ambientes por explorar, nem que seja ao vivo. Já estamos aqui há alguns anos a dar concertos, mas mesmo passado este tempo e tendo tocado em muitos festivais, numa série de auditórios e cidades, sentimos sempre que falta chegar a alguém. 

"Os próximos discos vão ter uma intensidade e uma profundidade muito maior. Fechado o primeiro filme da saga, seguem-se as sequelas."

L: É muito pessoana esta abordagem. 

Sobre os concertos, disseram uma vez que eram uma banda de primeiras partes...

G: Lindo, ainda bem que te lembras disso. Houve um ano em que fizemos as primeiras partes de toda a gente.

L: Foi antes de sair o primeiro álbum. Fizemos a primeira parte do lançamento do "Gazela", dos Capitão Fausto; do lançamento do álbum dos Velhos, em Lisboa e no Porto; a primeira parte dos Iconoclast, que já não existem; a primeira parte dos GNR, no Coliseu do Porto, de Cansei de Ser Sexy, no Hardclub... E acho que ainda fizemos mais. Isto tudo em 2011. Pelo menos naquele ano éramos uma banda de primeiras partes.

G: Agora já não.

L: Mas acho que isso é uma cena fixe, que caiu em desuso por cá. Porque lá fora há imenso essa cena de uma banda a apadrinhar outras e de as levar em tour.

Hoje procuram da mesma forma os concertos como o faziam em 2011 ou há um cuidado diferente na escolha das datas e dos locais onde querem e vão tocar?

L: Nós antes queríamos tocar muito. Nesse ano de 'banda das primeiras partes' demos setenta e tal concertos. É muito..

G: No segundo disco, em 2016, também demos bastantes...

L: Agora gostávamos era de melhorar a qualidade do concerto. O curar um bocado o sítio onde as pessoas nos veem. E não é para ser ingrato com todos os sítios onde fomos...

Porque nem todos os espaços têm a mesma capacidade e qualidade para receber um certo tipo de sonoridade?

L: Isso. Nem todas as festas de verão são para todas as bandas. As pessoas fazem programação com muito boa vontade, mas ainda há uma dificuldade em encaixar as bandas nos sítios certos. Talvez porque é um mercado pequeno e porque as únicas oportunidades que vão surgindo são para tocar em sítios que não são os mais apropriados. Gostávamos de elevar a fasquia e tocar nos sítios que vão englobar melhor a nossa música e este disco. A marcação dos dois primeiros concertos teve muito a ver com isso. 

G: Tanto o Lux como a Casa da Música são sítios referência por isso.

"Quem nos for ver no Lux ou na Casa da Música, vai ver uns Salto como nunca viu."

E já que falamos deles, o que podemos esperar desses concertos?

L: Vai ser muito bom, estamos a prepará-los. Vamos revisitar os outros dois discos, não será apenas para tocar em exclusivo este. Estamos a preparar uma componente visual cenicamente mais cuidada. E se calhar vão ver os Salto a tocar outro tipo de instrumentos a que o público não está habituado.

G: Acho que quem nos for ver no Lux ou na Casa da Música, vai ver uns Salto como nunca viu. 

L: Muito mais dinâmicos. Os concertos do segundo álbum eram concertos em que as músicas estavam quase todas encadeadas, era muito intenso e tudo com muita energia. Foi um ótimo exercício para ganhar agilidade.

G: Foi assim um ginásio musical. Tivemos a levantar pesos e agora vamos pegar em vasos com toda a calma, regar as plantas, sempre com toda a calma...

L: Mas temos músculo. 

Surgem, em 2010, na compilação Novos Talentos FNAC. Que importância tem este tipo de curadoria musical?

L: Tivemos a sorte de ter saído numa altura em que as pessoas davam valor ao objeto, que compravam discos e que os ouviam. A maior parte das pessoas hoje não ouve CD's, liga no Spotify. Os Novos Talentos foram importantíssimos, houve muita gente que ficou a conhecer a "Por Ti Demais" por aí. Foi essencial para nos pôr no mapa e para chegar às pessoas.

G: Hoje, isso, cada vez é mais difícil. As sugestões do YouTube e o algoritmo do Spotify moldam um bocadinho e podem curar no sentido errado. Curam por aquilo que estão à espera que tu gostes e não pelo que tu ainda não sabes que gostas. Perde-se a componente humana.

Equacionavam a possibilidade de não estarem presentes neste tipo de plataformas?

G: É muito difícil. 

L: Às vezes gostava que fosse diferente, porque as pessoas são demasiado direcionadas. Mas, ao mesmo tempo, hoje se não estás lá não existes. É aquela conversa de sempre, mas é um bocado verdade. Não há outro formato alternativo. Noutros mercados, como nos EUA, ainda é possível quando estás num nicho, aqui não.

G: Os nossos temas no Spotify já tocaram quase 800 mil vezes. Pá, são 800 mil vezes.

L: E tínhamos tocado mais, porque o nosso primeiro álbum zerou quando já tinha quase meio milhão de plays.

G: Os números são um problema. Porque quem toca mais, vai chegar a mais gente e começa a aparecer em mais playlists. Nós não queremos estar numa competição de plays, mas não há escape. Se dermos um grande concerto, e tocarmos mesmo nas pessoas, que é o que queremos, não há volta a dar. Aí ninguém pode dizer que foi pelo algoritmo.

Quando é que deram o salto?

G: Quando, em 2007, abrimos o último concerto da tour dos Azeitonas, no Porto. Ainda nem tínhamos nome, mas o Marlon [Brandão] disse que não podia meter "Luís e Guilherme" nos bilhetes. E aí surge Salto.

"Se dermos um grande concerto, e tocarmos mesmo nas pessoas, não há volta a dar. Aí ninguém pode dizer que foi pelo algoritmo."

Não perguntava bem pelo nome...

G: Eu sei, nós é que demos a volta à pergunta. Este álbum é um grande salto. Talvez para as pessoas não seja, mas para nós é.

L: É, talvez, aquele em que nos excedemos mais. Saiu mesmo cá de dentro, como nenhum tinha saído até agora. O que é altamente, significa que conseguimos fazer coisas com mais intensidade...

G: ... sem nos zangarmos!

Mas zangaram-se nos outros?

L: Não, mas podíamos. De abril a julho fechámos o álbum a trabalhar todos os dias, das nove às oito da noite: gravar, gravar, letra, baterias, guitarras, regravar, gravar, guitarras, letra...

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