O céu cinzento mantém a chuva guardada nas arrecadações das nuvens. O alerta amarelo decretado para o distrito do Porto é ignorado pela meteorologia local e, à porta do Auditório Municipal de Vila Nova de Gaia, apenas o sol, abatido pelas nuvens, brilha nos vidros negros da fachada.

Lá dentro, um telefone toca. Há uma quase ironia no toque do telefone, apito repetitivo na receção daquele espaço. Tiago Correia, encenador e diretor artístico de A Turma, senta-se no átrio do auditório após o ensaio geral de “Estrada de Terra”, e conversa com o SAPO24 precisamente sobre esse trabalho, nascido em 2019, que sobe agora ao palco integrado no FITEI —  Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, que termina este domingo.

Autor do texto e, agora, da encenação, Tiago é responsável pela viagem de cerca de 70 minutos. Uma viagem aos interstícios do humano, um caminho entre a certeza aguerrida e a dúvida desmedida. “Estrada de Terra” é um confronto silencioso, uma confidência ruidosa. Um conflito e uma paz. É uma longa estrada de terra, que mancha os pés e cansa as pernas, marcadas de memórias, alteradas a cada regresso ao cérebro.

Toda esta descrição parece idílica e barroca. Bacoca talvez. Mas esta é a história de um aparente eremita, de alguém que foge dos problemas, mas leva-os atrás, como se numa bolsa onde guardasse os medos, que vivem pegados às lembranças. Luís é esse suposto eremita. Interpretado por Pedro Lamares, ator que, por exemplo, deu corpo ao Fernando Pessoa do ‘Livro do Desassossego’ (2010) de João Botelho, Luís é o homem ambíguo. Queremos acreditar-lhe nas palavras, mas os gestos desmentem-nas. A vida à roda desmente-o.

Esta peça, que conta ainda com Inês Curado e André Júlio Teixeira, é na verdade um exercício académico: Tiago Correia desenvolveu-a em 2019, numa pós-graduação, como trabalho final da formação na ESMAE — mas sempre com a certeza de que mais tarde a iria encenar. Aconteceu agora.

Este regresso à escola onde já tinha estudado submergiu o jovem encenador numa "espécie de nostalgia com o passado, com o início da vida artísticas, com essas relações que se criam nessa altura, os sonhos que projetados para o futuro, as utopias que queremos para o teatro, as coisas todas que queremos fazer — e que depois o meio profissional e a vida vão moldando, vão decidindo por ti muitas dessas coisas".

créditos: Pedro Sardinha / FITEI 2021

"Muitas das coisas que se projetar não se concretizam de uma determinada maneira", diz Tiago. Para além disso, "é aquela sensação de uma família com quem começas a vida adulta, com quem defines a tua pessoa, em conjunto com essas pessoas, com esses amigos, com essas pessoas que te são muito próximas e se calhar te vão reeducar, separar de uma educação da infância, dos pais, e formar-te como indivíduo".

"E, depois, o fim disso: as crises que existem nesses grupos e os separam, e os ecos que isso vai ter no futuro dessas pessoas", descreve Tiago ao SAPO24.

Estes são os três atos do princípio da vida adulta. Uma aproximação àquilo a que os alemães chamam na crítica literária 'Bildungsroman' — romance da construção, da formação do ser —, o período transitório entre a perda da inocência e a comiseração com a rudeza de ser adulto porém não ser velho.

"Estrada de Terra", contudo, não é um 'Bildungsroman'. É um olhar para trás, uma reconstrução do passado (com ou sem saudade, não cabe aqui decidir), um caminho entre os espigões da dor. Mas um caminho que não nos chega evidente e escancarado.

Acontece o contrário na verdade: a história desenrola-se como um torcido fio de Ariadne, desvelado a passos vagarosos, conforme as personagens a vão recordando. Melhor, como vão cada uma delas lembrando à sua maneira, acrescentando pormenores que refutam, contrariam ou reenquadram aquilo que acabámos de ouvir, de tomar como certo.

"Houve aqui um acontecimento traumático que os separou no passado", acontecimento cujas ondas se sentem uma década depois, que é quando encontramos esta história.

Recluso de si

O telefone toca. Arranca assim a cena, depois de uma entrada que transparece o cinema. Um homem em cuecas, que tenta acordar numa casa desleixada, arrumada na montanha, atende. Do outro lado vem-lhe o passado: um amigo perdido há dez anos reencontra-o no seu mosteiro de reclusão. Pede-lhe desculpa — e pede-lhe ajuda. Luís, o homem que atendeu o telefone, reveza-se nas tentativas nem de aceitar as desculpas, nem de lhe estender a mão.

Que quer estar sozinho, que precisa de estar sozinho, insiste Luís. Que tem de ser assim. Pôs-se ali no monte tal qual queria: sozinho, isolado, confinado ele e o nada. Porém, Luís não está sozinho. Luís não se pôs sozinho.

Uma mulher entra. Apanha da metade da conversa o todo do problema. E dança as contradições da chamada telefónica deste monólogo técnico que é uma conversa inteira. Luís insiste que está sozinho, que precisa de continuar sozinho. Olha a mulher, que o olha a ele, e repete. A linguagem é dura, desbocada, desenfreada. Explode e sofre; anseia e repele.

Esta é “a tragédia de uma geração que se debate pela busca da autenticidade numa sociedade decadente”, conta a sinopse do texto selecionado pelo comité português da rede europeia de tradução teatral EURODRAM, em 2020.

O abstrato concreto

"Estrada de Terra" é uma peça daquelas realistas. O cenário tem portas e tem janelas; tem interior e tem exterior. Há um fogão que realmente aquece uma cafeteira; um lava-louça que verdadeiramente lava. Os atores fumam e bebem cerveja — e o fumo sobe mesmo, tal como a cerveja se entorna para o chão. E as personagens também são concretas: fazem coisas humanas e mundanas: andam de cuecas pela casa, dizem asneiras, choram, irritam-se. São seres como nós, que perdem o telemóvel e reviram a casa à procura dele; que se fartam de arrumar a cozinha sem nunca conseguir completar a tarefa.

Mas é só isso que elas são: humanas. São personagens amplas o suficiente para que nelas caibam quaisquer nomes, quaisquer pessoas. Elas são quem o espectador quiser que elas sejam. E se isto é muito bonito nas abstrações do teatro experimental, que desafia à desconstrução — apontamento que não quer de todo desmerecer tal exercício —, aqui não há montagem de evidências simuladas: não, eles estão ali, de carne e osso, personagens-humanas a fazer atos-humanos.

Ter uma narrativa concreta o suficiente para manter a coerência do realismo, ao mesmo tempo que está aberta na medida certa para ser facilmente "completada" pelos pré-conceitos do espectador "é um objetivo" mais amplo de Tiago Correia. "É uma coisa característica de outras peças minhas, de outros trabalhos que tenho vindo a desenvolver, e que parte um pouco de procurar captar a essência do humano e tentar que as questões que são muito particulares e muito pessoais destas personagens sejam universais de algum modo", explica o autor ao SAPO24.

"Por acaso, nesta peça eles têm nome", refere Tiago, "mas às vezes nas minhas peças nem sequer têm nome. Aqui têm nome porque era impossível durante a chamada não nomear, era muito difícil esse jogo — e, depois, como a Leonor também está muito tempo em silêncio, também tinha de se falar dela e não podia ser a rapariga, a rapariga, a rapariga."

"Gosto de deixar esse espaço para que cada um se possa identificar e ir buscar as suas próprias referências — à sua própria vida, às suas próprias relações. No entanto, tentar que isto não fique tudo uma abstração e que o conflito e a ação sejam nítidos que aquilo que se passa seja concreto."

créditos: Pedro Sardinha / FITEI 2021

Para isso, o universo fora de campo — o mundo fora do palco, fora do momento da récita, fora do segmento textual interpretado — está também ele construído, partilhado apenas com os atores, que assim sabem concretizar as abstrações penadas.

"Trabalhamos esse concreto com os atores: para eles isto é uma coisa muito concreta e aquilo que vemos [na peça] é um fragmento desse trabalho", explica Tiago Correia. Os atores "têm todo contexto criado, toda a história de quem eles são, o que fazem, o que fizeram — e é como se nós cortássemos um pedaço: 'agora, vocês só vão ver isto.'"

Esse segmento — que é a peça — existe porque tudo o resto existe: "todo o passado está construído por eles, tal como a projeção de um futuro; tentamos trabalhar com vidas completas e, depois, cortar. Ao ver o que acontece [no palco], quase como se estivéssemos na rua a observar uma pessoa a existir, no comboio a perceber quem são estas pessoas — e é a vida, e é credível."

"Às vezes são até coisas absurdas, mas acontecem. E nós podemos imaginar: mas, então, de onde vêm? Para onde vão?", acrescenta. "Apesar de todo o trabalho ser muito completo e de o texto ter informações que permitem — e que obrigam, acho — a procurar esse lado concreto, depois a experiência com o espectador é sempre quase como a resolução de um enigma: 'Quem é que eles são? O que vai acontecer? Mas isto é verdade? Afinal, não é.'"

[Por uma mania do autor deste texto, o enigma acabou amplificado. São pormenores, mas, sem ler a sinopse, damos por nós a rodopiar em várias espirais narrativas, que se sucedem, entrelaçadas, abrindo sucessivas caixinhas, que completam — e complexificam — o leque de surpresas. Não é que a sinopse seja um molho dos chamados ‘spoilers’, detalhes que arruínam o enredo. A dramaturgia é que é tão rica que um simples pormenor como não saber as personagens em cena é acolhido pelo texto como uma parte importante e não como falha ininteligível]

O cinzento entre as cores

"Não acho que haja uma mensagem muito concreta. Não gosto de ser ou de passar esta ideia de que sou como um padre que tem um ensinamento a dar às pessoas. É mais a partilha de uma experiência — muito intensa —, que nos permite reviver uma quantidade de coisas, entrar numa viagem interior, pelas nossas próprias relações", explica, após o último ensaio completo antes da estreia.

"Precisamos das nossas próprias referências, da nossa própria vida: precisamos de ter vivido, de ter amado, de ter tido amigos e de ter perdido amigos — precisamos de ter sido humanos para compreender as várias mensagens que esta peça vai passando".

Em 'Estrada de Terra' "não há propriamente uma moral, há questões muito complexas, nomeadamente com a questão de uma agressão física e psicológica a uma mulher e de uma espécie quase de Síndrome de Estocolmo, como se as relações não pudessem ser catalogáveis, como se só cada um soubesse o que é a sua relação com outra pessoa. Andamos aqui cada vez mais numa espécie de formatação do indivíduo, do que é certo e do que é errado — obviamente lutas que muitas delas também eu defendo —, mas a verdade é que nós somos muito mais complexos do que isso: não é preto ou branco", sublinha Tiago Correia.

O que é isto, então? "Isto é uma espécie de ensaio sobre as relações humanas e sobre essas questões complexas, essas questões complicadas. E fala de muita coisa: fala de uma saturação, com este stress contemporâneo e esta mudança da virtualidade, do trabalho — que agora está ainda mais intensa, com o teletrabalho: as pessoas até vão para os Açores passar um mês porque podem trabalhar à distância. Fala muito desse stress, da necessidade de sair daqui, de estarmos confinados entre quatro paredes".

"Porque lá está: o texto foi escrito em 2019, mas a encenação foi feita este ano; portanto, a encenação já traz esta atualidade — apesar de nós não estarmos a marcar ali nada da atualidade, obviamente, porque nós somos quem somos agora e estamos onde estamos agora, a peça fala dessa necessidade de sairmos destas quatro paredes e irmos para o ar livre e tentar revitalizar-nos, procurar uma nova energia... mas os problemas vão lá ter. E a questão é essa: a vida continua, nós não podemos fugir de quem somos, não podemos fugir do mundo — a não ser que não queiramos relacionar-nos com as pessoas", afirma.

"E há ali um amor — antigo, talvez presente, não sabemos —, que a vem visitar. A seguir, como há todo um desequilíbrio emocional na vida destes dois, parece que os outros sentem; é um íman que atrai todas as coisas ali para aquele sítio."

créditos: Pedro Sardinha / FITEI 2021

Produto do experimentalismo académico, "Estrada de Terra" tem uma apurada narrativa, batendo tudo onde deveria bater. É um texto exigente para o espectador, convidado a um permanente jogo de completar o diálogo, de reconhecer os indícios de viva vivida, mas também construir ele mesmo este Marco, personagem que entra história dentro sem antes se apresentar em corpo ou em voz.

"Havia uma premissa formal: como desenvolver toda uma peça em chamada telefónica — em que há um diálogo, que na verdade é um monólogo, onde só ouvimos o lado de cá, percebendo também de que forma é possível jogar com a surpresa, com a contradição", explica o autor.

Isto obriga a um desafio para o autor. Tiago teve de "trabalhar a peça em dois níveis: num primeiro nível, aquilo que o Luís diz ao Marco — que é uma coisa —, e, noutro nível, aquilo que nós vemos de facto a acontecer à nossa frente e que não corresponde totalmente à verdade que ele conta ao Marco".

Se olharmos para Luís como um narrador teríamos de lhe apontar a duvidosa fiabilidade do relato. Ele pega na nossa mente e arrasta-a ao abismo, leva-nos pela terra e pelas folhas. Deixa-a suja de momentos, pedaços de vidas, fiapos de seres, de horas, de tempos outros. Mas depois a ilusão construída, o artefacto que emerge da história contada, decai, degrada-se quando outras palavras chegam para empurrar o que ele nos tinha dito porta fora.

E ficamos sentados a olhar para um homem sentado no chão. "Quid juris", pergunta o Direito quando na folha de exame vem um caso prático para desvendar. Aqui não há de ser suposto desvendar nada, pegar em leis, desabafos ou julgamentos e proferir uma sentença, passível de recurso.

Não há sequer inocência nos olhos que leem a peça: Tiago Correia decidiu pôr-nos a encontrar os nossos próprios demónios no palco, atirando-nos a nossa própria vida para cima. E isso, para além de ser tão genial quanto ardiloso, faz com que também cheguemos ao fim com os pés sujos de terra.


"Estrada de Terra" estreou esta sexta-feira, dia 14 de maio, pelas 19:30, no Auditório Municipal de Gaia, e tem nova récita neste sábado, dia 15 de maio, estando inserida no Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI).

A peça vai depois subir ao palco do Teatro Municipal da Guarda, e vai também estar no São Luiz — Teatro Municipal, co-produtor deste espetáculo, em Lisboa. O espetáculo fará uma digressão nacional em 2022, com passagem por vários teatros do país.

O texto e encenação da peça têm a assinatura de Tiago Correia, e a interpretação é de Pedro Lamares, Inês Curado, André Júlio Teixeira e Bianca. A cenografia ficou a cargo de Ana Gormicho e o desenho de figurinos é da responsabilidade de Sara Miro. O desenho de luz é de Pedro Nabais e, o desenho de vídeo, de Francisco Lobo. A música original é de André Júlio Teixeira e o desenho de som é de Vasco Rodrigues.

"Tudo feito de raiz. É um privilégio trabalhar assim com uma equipa tão coletiva. Apesar de eu ter escrito o texto e de ser a pessoa que dirige esta companhia de pessoas aqui a trabalhar neste espetáculo, isto é o resultado de um processo coletivo — e nada está predefinido por mim à partida; partimos para o processo para partir das propostas destas pessoas. É um trabalho por camadas — é isso o teatro e é isso que eu acho fascinante também neste exercício que agora queremos partilhar finalmente com as pessoas, depois de tantos adiamentos", conclui Tiago Correia.

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