“Se já anteriormente à lei se começavam a sentir alguns efeitos da não certificação dos tapetes, nomeadamente a concorrência desleal vinda do estrangeiro, a situação degradou-se”, afirma à agência Lusa o antigo presidente da Câmara, Jerónimo Lóios.

O agora presidente da Assembleia Municipal de Arraiolos, no distrito de Évora, recorda que o Parlamento aprovou, por unanimidade, a 31 de janeiro de 2002, a lei 7/2002 para a criação do Centro para a Promoção e Valorização do Tapete de Arraiolos, com competências de certificação.

Jerónimo Lóios conta que a comissão instaladora do centro, da qual faziam parte representantes de três ministérios, da Câmara Municipal e de associações de produtores, chegou a ser “empossada pelo [então] secretário de Estado Luís Paes Antunes”, num Governo do PSD.

Contudo, “até hoje, os vários governos ainda não aprovaram os estatutos e a respetiva proposta de funcionamento”, assinala, considerando que se trata da “omissão da aplicação de uma lei da República”, porque o Parlamento “legislou por unanimidade e criou os mecanismos todos, mas os governos não lhes dão sequência”.

As preocupações são partilhadas pela atual presidente do município, Sílvia Pinto, que diz à Lusa estar a “trabalhar para que a lei se torne uma realidade”, prometendo “fazer pressão junto do Parlamento e do Governo para que o Tapete de Arraiolos seja valorizado”.

“Era importante que quem compra um Tapete de Arraiolos saiba que está a comprar um verdadeiro, além de que isso traria uma maior dinâmica às casas de tapetes de Arraiolos e poderia criar mais alguns postos de trabalho”, defende.

O antigo presidente da Câmara também alerta para a situação financeira em que se encontram as empresas de tapetes de Arraiolos, devido ao que considera ser uma “concorrência desleal”, frisando que, em 2002, “eram mais de 20” e que “agora estão reduzidas a menos de metade”.

“O centro não impediria que o Tapete de Arraiolos fosse manufaturado noutras zonas, mas criaria uma distinção entre aqueles que são feitos em Arraiolos e aqueles que não são”, insiste Jerónimo Lóios.

Com uma loja aberta no centro da vila alentejana há cerca de 30 anos, Sertório Carrasqueira confessa à Lusa estar “desgostoso” por ver “falta de vontade” no avanço da certificação do tapete.

“Certificam tudo e mais alguma coisa e eu não percebo porque não certificam os tapetes. É um bordado que se pode copiar e fazer, mas o que queremos é salvaguardar a origem deles”, desabafa.

A situação, segundo o empresário, tem "prejudicado muito o negócio” em Arraiolos, porque “há tapetes fabricados noutros lados que fazem concorrência” aos genuínos.

As empresas de Arraiolos “vendem menos e não conseguem subir o preço do tapete para pagar mais também às bordadeiras”, explica.

Sertório Carrasqueira aponta que a diferença entre os tapetes feitos em Arraiolos e os outros está na qualidade da lã e na técnica utilizada.

“Aparentemente parece a mesma coisa, mas, depois, não é e uma das coisas que salta mais à vista é a lã, que não é lã, é uma mistura de lã com fibra”, afirma.

O Tapete de Arraiolos está a ser vendido a cerca de 250 euros por metro quadrado e a manufatura de cada metro quadrado demora entre duas a três semanas.

O município está também a trabalhar na candidatura dos Tapetes de Arraiolos a Património Cultural Imaterial da Humanidade, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), cuja apresentação está prevista para 2017.

Do Tapete de Arraiolos, bordado a lã sobre tela, conhecem-se referências desde os finais do século XVI (1598), com origem na vila alentejana, povoada no princípio do mesmo século por mouros e judeus, expulsos da mouraria de Lisboa por D. Manuel I.

Segundo investigações históricas, as famílias ali fixadas encontraram abundantes rebanhos de boa lã e diversidade de plantas indispensáveis ao tingimento e fabrico das telas onde são manufaturados os tapetes, empregando a técnica do ponto cruzado oblíquo, denominada “Bordado de Arraiolos”.

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