Ao segundo dia do Vodafone Mexefest, a chuva ameaçou mas não impediu milhares de festivaleiros de calcorrear a Avenida da Liberdade de cima a baixo, em modo iô-iô, fazendo fila para entrar em cada uma das salas que acolhem os concertos daquele que é, provavelmente, o evento musical mais cansativo do cenário português. Não só em termos físicos, como psicológicos; como decidir o que ir ver quando pouco se conhece? Foi uma dúvida que assolou muitos dos presentes, notada pelo nervosismo nos seus rostos e pelo desdobrar do folheto com os horários e salas constante.

Numa edição onde o hip-hop voltou a sair das ruas para subir aos palcos, confirmando aquela que tem sido uma tendência recente em festivais, Allen Pires Sanhá – ou Allen Halloween – foi o principal destaque deste segundo dia neste mesmo campo, enchendo o Capitólio com alguns dos temas que, não tendo sido êxitos comerciais (nem o próprio faz questão que o sejam), estão na ponta da língua de todos os que até ali se deslocaram.

Isso mesmo foi confirmado por “Drunfos”, logo a abrir, batida e versos narcóticos e a subtiliza de um grito de guerra: “as costas já não me doem muito...”, canta, e com ele cantam dezenas atrás de dezenas. Num concerto que há muito era requisitado num contexto de grande festival, Halloween mostrou estar em forma, acompanhado pela sua crew e vagueando pelo mundo ainda desconhecido de “Unplugueto”, o álbum que irá editar em breve e onde apresentará versões acústicas de alguns dos seus temas mais conhecidos. E não só. Zeca Afonso também por ali passará, via “Cobradores De Impostos”, um dos temas que aqui cantou. No final, uma versão endiabrada de “Killa Me” só confirmou o que tantos sabem: “a bruxa é mais forte do que tu”.

A chuva não deu um ar de sua graça, mas obrigou à passagem de todos os concertos que se iriam realizar no terraço e nos bastidores do Capitólio para a sala interior. Foi aí que, horas antes, os Conjunto Corona trouxeram boa disposição e hidromel, servido em shots pelas filas da frente. E, também, rimas de e sobre o Porto, com a ginga de rua que só os bairros nortenhos conhecem, os mesmo que são homenageados em “Mafiando Bairro Adentro”, tema que é uma paródia ao rap "gangster" e à suposta aspereza das ruas. Para além, e como em todos os seus espetáculos, dos omnipresentes gritos de “Gondomar! Gondomar! Gondomar”, relembrando o célebre vídeo de Valentim Loureiro. Até porque havia gondomarenses presentes, um deles lançando um cachecol do clube de futebol local para palco. Em palco, músicos são três – e um convidado, Fred&Barra – mas todos os olhares se concentram na figura do Homem do Robe, que de cigarro aceso em cigarro aceso vai cambaleando pelo palco e pelo meio do público.

Na casa onde se reuniram os conjurados que conduziram à Restauração da Independência de Portugal, em 1640, e onde Almeida Garrett habitou, dois outros nomes da cena das rimas e batidas subiram a palco. O fundador dos Nigga Poison, Karlon, trouxe ao Palácio da Independência o seu rap crioulo, onde o funaná se mistura com hip-hop e muitos outros ritmos que não deixaram os presentes indiferentes. A revisitar “Passaporti”, álbum editado no final de 2016, a Avenida esteve mais próxima de Cabo Verde.

De Cabo Verde a Angola, encontrou-se Eva RapDiva, rapper angolana que assume ser “outra espécie de rapper”, e prova de que o rap feminino nunca esteve tão “duro”. Após entrar pela sala e pelo meio do público, contou, num registo autobiográfico, que, ao dar os primeiros passos na música, lhe disseram “deves estar a alucinar”, pelo que cada espetáculo é, também, como que uma bofetada de luva branca. A rapper deu um concerto sobre mulheres e para mulheres, mas os homens deveriam, também, ouvir a diva (e as dicas). “Temos falta de mulheres no hip-hop, por isso, às vezes, temos de bater nas mesmas teclas”, lamentou. No entanto, a sala começou envergonhada; como que uma prenda de natal pedida ao público, Eva RapDiva requisitou, a cada música, que este se chegasse dois passos para a frente. Quase que não viria a ser preciso, dada a imensa multidão que aguardava a sua vez de entrar no palácio e que, mais tarde, viria a encher a sala para ver a estreia da rapper, que confessou ter começado a rimar nas ruas do Bairro Alto. Justificou o título: é A Diva.

Entre os concertos do Palácio da Independência, o Coliseu acolhia aqueles que, provavelmente, poderiam ser encarados como cabeças de cartaz do Vodafone Mexefest, os Cigarettes After Sex. A banda de El Paso, no Texas, regressou a Portugal para dar, por cá, o seu primeiro concerto em sala fechada - ainda que no mesmo registo de festival, depois de duas passagens a norte (Vodafone Paredes de Coura e NOS Primavera Sound). Roubando a imagem ao nome da banda, o concerto dos norte-americanos não chegou sequer a ser um ato consumado que justificasse a necessidade do consumo de nicotina. Culpa do som, baixo e ruidoso; culpa do público, mais interessado em agarrar o seu smartphone do que em se deixar levar pelo registo intimista e lânguido de canções como “Young And Dumb” ou “Each Time You Fall In Love”.

Contraste total, portanto, com o concerto dos Liars, que encerrou com chave de ouro a programação do palco montado na Estação do Rossio e o festival em si, mesmo com Moullinex ainda a dar um ar de sua graça no Coliseu. A banda norte-americana, que agora conta apenas com um membro da formação original nas suas fileiras (Angus Andrew, que pareceu dar a entender que os casamentos de Santo António chegaram mais cedo, apresentando-se com um bonito vestido de noiva), fez centenas de pessoas pular e dançar ao ritmo frenético de uma electrónica punk e bojuda, com “Mess On A Mission” (de “Mess”, 2014) a rebentar pelas colunas – e pelos ouvidos. O zumbido subsequente não foi um mal menor.

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