Infelizmente, o terrorismo deixou de ser para os europeus uma coisa distante. A 22 de março, pelas 8h00, duas explosões no aeroporto de Zaventem, em Bruxelas, lançaram o caos. Uma hora mais tarde, explosões no metro de Maalbeek deixaram a cidade e a Europa em pânico: um ataque concertado? há outras localizações? o que ainda pode acontecer? Nesse dia, 32 pessoas perderam a vida e centenas ficaram feridas.

Meses mais tarde, a 14 julho, França saiu à rua, como acontece todos os anos, para celebrar a nação. Nessa noite, em Nice, um homem decidiu investir com um camião sobre a multidão que assistia ao tradicional fogo-de-artifício lançado no Dia da Bastilha. O ataque custou a vida a 86 pessoas e feriu mais de 400. Foi a primeira vez que na Europa se assistiu a este tipo de ataque. Apenas duas semanas depois, também em França, dois homens entraram numa igreja de Saint-Étienne-du-Rouvray durante uma celebração, mataram um padre, Jacques Hamel, de 84 anos e fizeram vários reféns. Meses mais tarde, em dezembro, um camião abalroou em Berlim o mercado de Natal de Breitscheidplatz, fazendo 12 vítimas mortais.

O grupo terrorista autoproclamado Estado Islâmico reivindicou todos estes atentados, assim como as múltiplas explosões e tiroteios no bairro de Jalan Thamrin, em Jacarta, capital da Indonésia. Neste bairro estão localizados vários hotéis e restaurantes frequentados por estrangeiros, e escritórios da ONU. Dois civis perderam a vida - um indonésio e um canadiano – e outras 20 pessoas ficaram feridas. O ano tinha acabado de começar, estávamos a 14 de janeiro.

Também em janeiro, explosões num dos principais hotéis de Ouagadougou, o “Splendid”, na capital do Burkina Faso, mataram pelo menos 29 pessoas de 18 nacionalidades. O "Splendid" era geralmente utilizado por funcionários da ONU e por cidadãos ocidentais, sensivelmente os mesmos frequentadores do café-restaurante "Cappuccino Splendid", localizado frente ao hotel e que também foi atingido. A embaixada francesa caracterizou de imediato o ataque como um “atentado terrorista”.

O Paquistão foi um dos lugares mais afetados este ano pelo terrorismo. No primeiro mês do ano, um ataque à Universidade de Bacha Khan, em Charsadda, fez pelo menos 21 mortos. Dois meses depois, em março, pelo menos 72 pessoas morreram e 359 ficaram feridas no atentado suicida no no parque Gulshan Iqbal, próximo de um parque infantil, cheio de famílias que ali se encontravam a festejar a Páscoa. Em agosto, 70 pessoas morreram num ataque bombista suicida contra um hospital de Quetta. O ataque foi reivindicado pelo Estado Islâmico e por um grupo ligado à  Al-Qaida. No mês seguinte, setembro, um bombista suicida fez-se explodir em frente a uma mesquita durante a oração de sexta-feira, matando mais de 30 pessoas e ferindo outras dezenas. Em novembro, mais de 50 pessoas perderam a vida num atentado contra um templo sufista, no sul do Paquistão.

Também a Turquia foi este ano alvo de múltiplos ataques, alguns deles atribuídos ao Estado Islâmico, outros às milícias curdas. Seis ataques (três em Istambul e outros 3 em Ancara), que custaram a vida a mais de 150 pessoas. O mais recente envolveu o assassinato do embaixador russo em Ancara, Andrei Karlov, assassinado à queima-roupa enquanto discursava na inauguração de uma exposição na capital turca. Um polícia fora de serviço, de 22 anos, abriu fogo enquanto gritava palavras de ordem. “Não esqueçam Alepo”, “Não esqueçam a Síria”, disse.

Há também que referir ainda este ano o ataque homofóbico à discoteca Pulse de Orlando, Florida (EUA), em junho. Um homem entrou no local e começou a disparar contra os presentes, matando 49 pessoas. Às autoridades o autor do ataque disse ser um “soldado islâmico”.

O ano termina ainda com um atentado junto à catedral cristã copta do Cairo, a 11 de dezembro, que fez 25 mortos. O ataque foi reivindicado pelo grupo extremista autoproclamado Estado Islâmico.

Estas ofensivas ‘jihadistas’ acontecem num ano em que o autoproclamado Estado Islâmico tem perdido território e combatentes desde o auge da sua expansão em 2014, sendo atualmente combatido pelas forças de Bashar al-Assad, dos aliados russos, iranianos e libaneses do regime, além de tropas do Iraque, da Turquia, da coligação internacional (EUA, Reino Unido, mas também do Golfo Pérsico) e milícias curdas e árabes sírias e iraquianas.

Pelo menos 50.000 combatentes do Estado Islâmico foram mortos desde a entrada no conflito da coligação internacional anti-‘jihadista’, há dois anos, segundo uma “estimativa conservadora” de fonte militar norte-americana, citada pela Lusa.

A par do combate a posições dos ‘jihadistas’ no Iraque e na Síria, a coligação tem recorrido a ataques seletivos, com base em informações dos serviços secretos sobre o paradeiro dos mais destacados dirigentes do grupo. Foi o caso recente de um bombardeamento aéreo em Raqa, bastião do grupo na Síria, em que foi morto um destacado dirigente do grupo, o franco-tunisino Boubaker El-Hakim, um ‘jihadista’ veterano considerado chave na organização de atentados no estrangeiro, entre os quais os ataques de Paris de janeiro e de novembro de 2015 e o assassínio de dois opositores tunisinos em 2013.

Os ‘jihadistas’ mantêm no entanto uma capacidade importante de recrutamento, apesar de as incursões militares turcas lançadas este ano terem dificultado a entrada de combatentes estrangeiros pela fronteira turco-síria. Mais de metade dos combatentes estrangeiros do Estado Islâmico provém do Norte de África e Médio Oriente, mas 4.000 a 5.000 europeus juntaram-se ao grupo no Iraque e na Síria desde 2014. O seu regresso representa um risco para os países de origem, como voltaram a demonstrar este ano os ataques de Bruxelas. “Os números mais recentes sugerem que do total de combatentes estrangeiros europeus, 15-20% foram mortos, 30-35% já regressaram e 50% continuam na Síria ou no Iraque”, segundo um relatório de dezembro do coordenador da União Europeia para a luta antiterrorista, Gilles de Kerchove. Os que permanecem no terreno serão 2.000 a 2.500, precisou.

Se no final de 2015 a situação do grupo já se caracterizava pela perda de território e recursos do Estado Islâmico, em 2016 ela acentuou-se, com o assalto das forças iraquianas, curdas e internacionais contra Mossul, o bastião no Iraque, e a ofensiva síria e russa contra Raqa, a “capital” do califado na Síria.

Os progressos que registam, como o regresso à cidade Património Mundial da Humanidade de Palmira este mês, de onde tinham sido expulsos dez meses antes, não têm chegado para compensar revezes como a segunda expulsão de Sirte, na Líbia, também nos últimos dias.

O grupo, que em 2014 proclamou o “califado” num território equivalente ao da Jordânia, perdeu 14% do seu território em 2015 e 16% em 2016, segundo uma estimativa, e 40% nos dois anos, segundo outra. No ponto alto da implantação do grupo, viviam em território controlado pelo Estado Islâmico cerca de 10 milhões de pessoas. Atualmente, segundo uma estimativa IHS Conflict Monitor, esse número baixou para cerca de seis milhões. No entanto, as opções de expansão não faltam aos ‘jihadistas’, sobretudo em Estados “falhados” com populações muçulmanas descontentes, como o Iémen, a Somália ou o Afeganistão.

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