"O 25 de Abril é aqui que começa", vinca o realizador João Botelho, estudante na altura da crise e conhecido por ter sido o autor do desenho "Hermano, o firme", em que se vê o ministro da Educação, José Hermano Saraiva, a cair de uma coluna.

O cineasta recorda a crise anterior - a de 1962 -, que "foi muito cedo", para sublinhar que a de 1969 surgiu "no tempo certo e, mesmo assim, demorou cinco anos até chegar o 25 de Abril".

"Esta crise deu fruto", vinca, considerando que, naquele ano, surgiu "um germinar de ideias de fim de um regime, caduco, a acabar", ganhando forma a partir dos protestos que se desencadearam após o pedido de palavra do presidente da Associação Académica de Coimbra, Alberto Martins, em 17 de abril, perante uma comitiva do Estado Novo, encabeçada pelo na altura presidente Américo Thomaz, na inauguração do edifícios das Matemáticas, na Alta de Coimbra.

João Botelho estava lá e recorda-se de um "episódio muito engraçado", que nem os 50 anos de distância apagam.

"Quando aquilo acaba, depois do Alberto Martins pedir para falar e o Américo [Thomaz] não ter deixado, eu dei um encontrão ao Américo Thomaz - mesmo forte e violento -, porque estava na coxia e tive sorte. Não é nada de revolucionário, mas é dizer: ‘Vão à merda!'. E consegui fazer isso e, portanto, é o momento alto da minha vida", conta o cineasta.

João Botelho salienta que muitos dos estudantes que foram presos e posteriormente integrados na tropa acabariam por estar "no movimento de alferes e capitães que deu origem ao 25 de Abril”.

“Foram eles que fizeram trabalho político com outros soldados que lá estavam", recorda.

O realizador, vinca, teve "sorte" e acabou por não ser incorporado no exército, tendo depois andado na clandestinidade.

Durante a crise, para além dos desenhos e de pichagens, participou nos grupos que colocavam pregos na estrada para furar os pneus dos carros da GNR e chegou a passar uma "semanita" na prisão, onde experienciou "o café numa lata de zinco, o pão duro e os lençóis rotos" do cárcere.

Naquela época, recorda-se ainda de ser uma espécie de ícone nas assembleias gerais, "como o rapaz que tinha o braço partido pela extrema-direita", depois de se ter envolvido, numa pequena manifestação, com estudantes que lhe partiram o braço com uma pistola.

"Passei a ser exibido como mártir da pequena revolução", recorda-se.

Olhando para trás, João Botelho realça, acima de tudo, a aprendizagem coletiva que se sentia, naqueles tempos, por Coimbra.

Um disco de Miles Davis que um arranjava era ouvido por todos, organizavam-se sessões de leitura de romances em voz alta e, pelo Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC), aprendeu a desenhar e a pintar.

Da passagem pelo Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra (CITAC), do qual chegou a fazer parte da direção, recorda-se de ver um encenador catalão convidado a ser posto na fronteira pela PIDE antes de a peça estrear, outro teve o mesmo caminho.

"A coisa mais engraçada foi a mudança radical da minha vida e da compreensão do mundo. Não foi só uma revolução de costumes, foi uma transformação radical, a aprendizagem de que a luta de classes é a coisa mais importante, que faz mover o mundo", salienta o realizador, que antes da passagem por Coimbra tinha encontrado o "fascismo puro e duro" em Vila Real, na escola primária, em que via todos os seus colegas a andar "descalços, com panos à volta".

"Que me perdoem os meus três filhos, que foi uma alegria tê-los, mas tive dois momentos grandes na minha vida: um, o 25 de Abril, e outro, tão decisivo e importante, foi a crise de 69 em Coimbra", sublinha João Botelho.

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