Diário de um pai em casa. Dia 26


A quarentena vivida em cada uma das casas tem sido local fértil para um desabrochar de opiniões, convicções e recomendações. Surgem de todos os lados e feitios. Das macro às micro.

Todos sabem interpretar números, ler curvas, diagnosticar sintomas, antecipar curas e prever o fim disto tudo e o regresso de tudo e algo mais.

Somos matemáticos, médicos, economistas e políticos. Pelo meio, ainda temos tempo para ser críticos de filmes e séries da Netflix, HBO, de falar sobre os livros recuperados das estantes, da música que estamos a ouvir e dos concertos e bandas que vão estar ao vivo na internet. E ainda fazemos vídeos no ginásio instalado nas nossas quatro paredes e demonstramos tiques de chef e de sommelier.

Falamos de tudo o que sabemos, julgamos saber e não sabemos de todo, mas falamos na mesma. Saúde, máscaras, viseiras, libertação de presos, escolas virtuais e regresso às aulas, planaltos, curvas, picos, retorno das competições desportivas, lay-off, previsões económicas e uma panóplia sem fim de temas e assuntos sérios e mundanos onde cabem os abdominais, camas de legumes, carnes maturadas, espumas de qualquer coisa e os vinhos que merecem casar com a descrição e a noite esperada.

Nesta dissertação diária nos confinamentos de cada um, sigo, com especial atenção as recomendações sobre séries, filmes e livros. A espaços, de concertos que seguem a máxima: o verdadeiro artista, é que aquele que toca em casa.

O primeiro sentimento que me assalta, no entanto, é de curiosidade. Como ter tanto tempo livre e disponível para acompanhar tudo. Como conseguem despachar uma temporada quase de um dia para o outro.

Da minha parte, nestes dias lentos que, por vezes, não rendem, não tenho tido essa oportunidade. Até hoje.

A lua cheia fez-me espetador pela noite dentro. Vi “Ultras”, filme italiano dirigido por Francesco Lettieri, na Netflix, que se estreou já em tempo de isolamento. Revisita o submundo violento e fanático da claque do Nápoles (Apaches) num trama de relações humanas e de poder.

Estreei-me ainda em Westworld (HBO), cuja estreia remonta a janeiro de 2016. Se no primeiro caso, já por diversas vezes tinha tropeçado quando vejo televisão noite fora, a curiosidade da 2ª parte do serão nasceu de um comentário de uma pessoa que só fala do que vê e lê. E que, por norma, são sugestões acertadas.

O dia não terminará sem mais uma série que se estreia. “A Espia”, na RTP. Hoje à noite, a que se seguirá a leitura de um livro que tem estado a pedir para ser lido. “O combate”, Norman Mailer, versão portuguesa traduzida do “The fight” (1975), no original. Uma obra que, dizem quem já leu, é muito mais que um simples combate de boxe (mundial de Pesos-Pesados), disputado em Kinshasa, Zaire, entre Muhammad Ali e George Foreman.

Quanto à música, revisitei Lou Reed. E tropecei num clássico que deu origem ao título desta crónica. “A Day in the Life” , do álbum "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", dos Beatles, que, diga-se de passagem, é um reportório que entra cá em casa, uma vez na vida. Quando estou fechado em casa.

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