Os subscritores da moção pediam à única deputada do partido para renunciar ao mandato e, caso tal não acontecesse, que lhe fosse retirada a confiança política.

Bruno Machado, um dos cinco subscritores da moção "Recuperar o Livre, resgatar a política", anunciou que a iniciativa em causa vai ser retirada, por "não fazer sentido" votá-la, após o congresso ter decidido adiar a decisão sobre a retirada da confiança política à deputada e tê-la remetido para os novos órgãos do partido que serão eleitos no domingo.

A decisão era entre a situação ser resolvida hoje ou o processo ser remetido para os novos órgãos que serão eleitos por este congresso.

Depois de uma votação para decidir se poderiam votar membros e apoiantes, 50 membros do congresso votaram a favor da primeira opção, e 52 optaram pela segunda.

“A hipótese A [retirar confiança política hoje] com 50 votos, e a hipótese B [adiar a decisão] ficou com 52 votos”, anunciou Ana Natário, presidente da mesa do congresso.

A deputada Joacine Katar Moreira, o fundador do Livre Rui Tavares e o membro do Conselho de Jurisdição, Ricardo Sá Fernandes, votaram a favor da proposta vencedora.

O anúncio relativo ao adiamento da votação da moção foi feito durante a apresentação das declarações dos candidatos para a Assembleia do partido, que assumiram posicionamentos diferentes, com apoiantes de Joacine Katar Morerira e defensores da retirada de confiança política à deputada.

A tarde foi preenchida com estas apresentações, que duraram aproximadamente uma hora e meia.

Teresa Pinto foi uma das candidatas que revelou ter apoiado Joacine Katar Moreira nas primárias e nas eleições legislativas de 2019 mas acrescentou que votou a favor da retirada de confiança política na deputada.

Rodrigo Brito, também candidato à Assembleia, assumiu a quebra de confiança política e disse ser “ingénuo” pensar que as relações entre a deputada e o partido possam ser recuperadas, acreditando que Joacine Katar Moreira já os “abandonou”.

Houve ainda quem sugerisse a resolução desta crise política como primeiro passo a tomar pela nova Assembleia e foi novamente levantada a questão da organização horizontal do Livre.

Outros dos candidatos ao órgão máximo entre congressos, João Caseiro, pediu uma melhoria da “comunicação externa do partido”, para permitir ao Livre chegar mais e melhor aos portugueses.

“Temos de usar com regularidade as redes sociais do partido”, defendeu, propondo que seja criada uma “estratégia de comunicação desenhada ao pormenor”.

Por seu turno, Patrícia Robalo notou que tem sido “feito o máximo para o Livre não ficar aprisionado no presente problema político”, mas defendeu que “o órgão máximo entre congressos tem de fazer mais e melhor”.

Com esta polémica em torno da deputada única, a Assembleia do Livre “mostrou vulnerabilidades mas também o seu poder político”, sendo agora necessário fazer um melhor planeamento e ter uma “noção clara sobre tempos políticos”, afirmou.

Durante o tempo dedicado à apresentação dos candidatos, e com Joacine Katar Moreira na primeira fila da plateia, a presidente da mesa do congresso subiu ao púlpito na condição de candidata para advogar que este problema “tem que ser resolvido, tem que ser concluído”.

“No meu mandato eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para que houvesse consenso e aproximação, eu tenho a minha consciência tranquila nesse aspeto”, vincou.

O que estava em causa neste congresso?

A resolução de retirada de confiança política a Joacine Katar Moreira e a forma de organização interna do Livre estão no centro do IX Congresso do partido que se realiza hoje e domingo em Lisboa.

Este IX Congresso do Livre, que decorre no Centro Cívico Edmundo Pedro, é o primeiro desde a eleição da deputada única, Joacine Katar Moreira, e do clima de tensão instalado entre a estrutura partidária e a representação parlamentar.

Na passada quinta-feira, a assembleia do partido Livre, órgão máximo entre congressos, decidiu propor ao congresso a retirada de confiança política na sua deputada, justificando, numa resolução, que “não se vislumbra da parte da deputada, Joacine Katar Moreira, qualquer vontade em entender a gravidade da sua postura, nem intenção de a alterar”.

Segundo o Grupo de Contacto (GC), Joacine Katar Moreira, desrespeitou os pontos específicos da 40º resolução, na qual se apelava a um trabalho “de confiança” entre o GC e deputada, após a incidente devido à abstenção num voto sobre a Palestina proposto pelo PCP.

A deputada descurou, “reiteradamente, a comunicação e envolvimento dos órgãos do partido”, nomeadamente nas negociações com o Governo relativamente ao OE2020, recusando-se a revelar o sentido de voto do Livre até ao momento da votação, “contra o conselho do GC”, aponta a resolução.

Antes da divulgação desta resolução, foi conhecida uma moção específica intitulada de “Recuperar o Livre, resgatar a política”, que pede à sua única deputada para renunciar ao mandato e, caso tal não aconteça, que lhe seja retirada confiança política.

Joacine deixou claro, porém, que não iria renunciar ao mandato na sua intervenção durante o congresso este sábado.

O Livre conseguiu eleger, pela primeira vez, uma deputada à Assembleia da República nas últimas eleições legislativas de 6 de outubro de 2019.

Joacine Katar Moreira, que faz parte do Grupo de Contacto ainda em funções, não integra a lista única de candidatos à direção do Livre nem apresentou nenhuma candidatura individual à assembleia. Rui Tavares, membro fundador do partido, apresentou uma recandidatura à Assembleia, órgão do qual faz parte.

No final do mês de novembro, na sequência da abstenção de Joacine Katar Moreira num voto no parlamento sobre a Palestina, gerou-se um conflito e troca de acusações entre o Grupo de Contacto, a deputada e o seu gabinete, que chegou mesmo a obrigar a Comissão de Ética e Arbitragem a elaborar um parecer sobre esta polémica.

Na sequência desse parecer, o partido decidiu não aplicar qualquer sanção disciplinar à sua deputada única devido a esta polémica, mas lamentou as declarações públicas de Joacine Katar Moreira.

O Congresso discutirá e votará um total de 18 moções específicas, incluindo o texto intitulado "Pensar o partido" e a sua organização interna, que sugere uma avaliação das dinâmicas dos seus órgãos, incluindo a do Grupo de Contacto.

Este texto, que questiona “algum experimentalismo” do Livre, foi subscrito por Miguel Won, candidato à Assembleia.

A 18ª moção é assinada por Rui Tavares, fundador do partido, denominada de "Novo Pacto Verde: um desafio do LIVRE para Portugal, a Europa e o planeta", relembrando um dos principais pilares fundadores do partido, o "Green New Deal" (Novo Pacto Verde).

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