Apesar do seu papel nos ataques terroristas às Torres Gémeas, em Nova Iorque, a 11 de setembro de 2001, engendrados pela Al-Qaeda, al-Zazwhiri nunca adquiriu a aura macabra de Osama Bin Laden, o seu sucessor.

Discreto, o teórico de barba branca e óculos grandes, facilmente reconhecível devido a uma protuberância visível na sua testa, sobreviveu a mais de 40 anos de jihad, algo raro, antes de morrer aos 71 anos num ataque de drone levado a cabo pelos EUA este sábado, em Cabul, no Afeganistão.

Paradoxalmente, os Estados Unidos ofereceram 25 milhões de dólares pela sua captura, um recorde, e ao mesmo tempo que pareciam quase desinteressados por realmente detê-lo ou neutralizá-lo. Assim foi até esta segunda-feira, quando o próprio presidente Joe Biden anunciou a morte do egípcio durante uma "operação antiterrorista".

Al-Zawahiri nasceu em 19 de junho de 1951 em Maadi, perto do Cairo, numa família burguesa (o seu pai era médico e o seu avô um grande teólogo da mesquita al-Azhar, na capital egípcia), e era cirurgião. O seu percurso ideológico foi definido desde cedo, tornando-se membro da Irmandade Muçulmana quando tinha apenas 15 anos.

Com o tempo seguiram-se as ações violentas. al-Zawahiri foi preso durante três anos pelo seu envolvimento no assassinato do presidente egípcio Anwar al-Sadat em 1981. Depois, viajou para a Arábia Saudita, os Estados Unidos e, finalmente, o Paquistão em meados da década de 1980, onde foi médico para os jihadistas que lutavam contra os soviéticos. Foi lá que conheceu Bin Laden.

Durante muito tempo, al-Zawahiri foi líder da Jihad Islâmica Egípcia (EJI), juntando-se apenas à Al-Qaeda no final dos anos 1990. Foi desde então que Washington passou a tê-lo debaixo de olho, incluindo-o na sua "lista negra" por ter apoiado os ataques contra as embaixadas americanas no Quénia e na Tanzânia em agosto de 1998. O jihadista também foi condenado à morte à revelia em seu país por vários ataques, em particular um em Luxor em 1997, no qual 62 pessoas morreram, das quais 58 eram turistas estrangeiros.

Dado como morto em várias ocasiões, como em 2002 e 2007, reapareceu sempre, tornando-se o braço direito de Bin Laden e também o seu médico, sucedendo-o após a sua morte, numa operação norte-americana no Paquistão, em 2011.

Se Bin Laden forneceu carisma e dinheiro à Al-Qaeda, Al-Zawahri trouxe capacidade tática e habilidades organizacionais necessárias para criar militantes numa rede de células em países de todo o mundo. O egípcio "não está interessado em lutar nas montanhas. Ele pensa mais internacionalmente", declarou Hamid Mir, biógrafo de Bin Laden, citado pelo centro de análise do Counter-Extremism Project (CEP).

Sob o comando de al-Zawahiri, de facto, "a Al-Qaeda descentralizou-se cada vez mais, e a autoridade recaiu principalmente sobre os chefes das suas filiais", acrescentou o CEP, que, no entanto, lhe atribui um papel de destaque na reorganização de muitos grupos jihadistas.

Embora tenha sido um dos arquitetos dos ataques de 11 de setembro de 2001, "o maior sucesso de al-Zawahiri foi manter a Al-Qaeda viva", segundo Barak Mendelsohn, professor da Universidade Haverford, na Pensilvânia. Para isso, al-Zawahiri precisou de multiplicar as "filiais", da Península Arábica ao Magrebe, da Somália ao Afeganistão, Síria e Iraque. E aceitar que elas se fossem emancipando aos poucos.

Ausente dos holofotes mundiais, a sua influência fez-se sentir com o regresso dos Talibãs ao poder. "O aparente aumento da fluidez e capacidade de comunicação de al-Zawahiri coincidiu com a retoma do Afeganistão pelos Talibãs", segundo um relatório da ONU publicado em meados de julho.

Desde 2011, al-Zawahiri vinha vivendo escondido entre o Paquistão e o Afeganistão, limitando as suas aparições a vídeos de sermões monótonos. Com a sua morte, deixa uma organização no extremo oposto da guerra jihadista internacional contra os Estados Unidos que Bin Laden sonhava.

Quem tomará as rédeas da organização? O nome mais cotado é o de Saif al-Adel, ex-tenente-coronel das Forças Especiais Egípcias e membro da velha guarda da Al-Qaeda. De resto, organização já tinha perdido o seu 'número dois', Abdullah Ahmed Abdullah, morto em agosto de 2020 em Teerão por agentes israelitas, numa operação secreta apoiada por Washington, segundo revelou na altura o jornal New York Times.

De qualquer forma, o grupo terrorista terá de seguir a medir forças com o seu grande rival, o grupo Estado Islâmico, com o qual colide ideológica e militarmente.

De acordo com a última avaliação da ONU, o contexto internacional é "favorável para a Al-Qaeda, que quer ser reconhecida novamente como a ponta de lança da jihad global (...) e, em última análise, pode representar uma ameaça maior".

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