Anabela Mota Ribeiro créditos: Estelle Valente

Em 2020, 44% da população tinha 55 anos ou mais, e a maioria, 56%, pertence à geração da "madrugada". Esse número aumentará com os anos, evidentemente. Esta conversa com Anabela Mota Ribeiro acontece já depois do arranque da segunda série do programa “Os Filhos da Madrugada”, transmitido na RTP2. A primeira deu origem a um livro com o mesmo nome, publicado em novembro de 2021, e que foi também mote para esta breve troca de ideias com a jornalista.

Estive recentemente no lançamento do livro do General Franco Charais, “Memórias de um militar”, na Associação 25 de Abril. Estava lá o Vasco Lourenço, evidentemente, e muitos participantes da Revolução, militares dessa época. No debate que se seguiu, queixaram-se de duas coisas: que a Revolução não evoluiu como eles gostariam, ou seja, que o regime não é tão bom como eles gostariam que fosse, sem especificar; e que as pessoas se esqueceram do antigamente e não dão a devida importância ao que eles fizeram, mudar o país completamente. E eu até falei do teu livro e disse que as tuas entrevistas mostram que os “jovens” têm a noção de que antigamente era diferente. É essa a sensação que tu tens, depois de os entrevistar?

Na primeira série de "Os Filhos da Madrugada" foram 25 entrevistas, nesta segunda temporada foram 33 – começámos a 24 de março de 2022, coincidindo com o arranque das celebrações dos 50 anos do 25 de Abril. Portanto, foi também uma forma de assinalar 48 anos mais um dia [momento a partir do qual Portugal vive há mais dias em liberdade do que aqueles que viveu em ditadura].

À semelhança da primeira série, o programa procura fazer uma auscultação do país em democracia na sua pluralidade, não só ideológica. E aquilo que eu compreendi é que as leituras políticas, histórias, e a relação com a Revolução é forçosamente diferente, por muitas razões — seja porque há pessoas que nasceram na década de 70 e outras que nasceram nos anos 90; seja porque o contacto o passado histórico recente é diferente, ou a família é mais ou menos politizada. 

Mas eu diria que, predominantemente, as pessoas têm ainda uma dívida de gratidão para com aqueles que lutaram pela democracia, mesmo as de direita. Como o João Pereira Coutinho, que começou por dizer que se não fosse o 25 de Abril “eu não poderia ter a vida que tenho, ser a pessoa que sou”. Isto de dizer, pensar e escrever em liberdade, sem dúvida se deve ao 25 de Abril. 

E, por outro lado, as pessoas foram dizendo que a democracia é uma construção e que, sendo imperfeita, exige o comprometimento de todos, mesmo tendo muitos crescido com a noção de que é um dado adquirido – sendo que isso foi posto em causa nos anos mais recentes com a emergência dos partidos de extrema-direita. Todos são convocados para participar nisto que é a construção do país. Mais distantes, menos distantes, mas existe este denominador comum.

Mas não vejo, por exemplo, o Chega pôr em questão a Revolução, a dizer que dantes era melhor. O que querem é o sistema reformado com mais semelhanças com o Estado Novo, mas não uma nova ditadura. E o CDS é um partido católico, saudosista dos valores tradicionais, mas não creio que seja anti-democrático.

Normalmente, onde a questão se levanta, é quando os conservadores dizem que o 25 de Novembro (de 1975) foi uma data mais importante do que o 25 de Abril. O que é a meu ver uma impossibilidade, porque se não houvesse o primeiro não teria acontecido o segundo. Portanto, a data que marca a diferença entre o “antes” e o “depois” é o 25 de Abril. Todos os acontecimentos posteriores, inclusive o 25 de Novembro, são reajustes.

Mas para as pessoas com quem tu falas, e inclusive para ti, que nasceste em 1971, o 25 de Abril não é História, o passado, como a Revolução de 1910? É uma coisa que se aprende nos livros, não é uma vivência.

Acho que não, discordo. E discordo porque falar da “Revolução” não é falar da revolução de 1910, no sentido em que a nossa vida é devedora, em múltiplos aspetos, daquilo que resultou da revolução de 25 de Abril de 1974. Não é um acontecimento longínquo, é mesmo muito concreto. Quando as pessoas têm acesso a uma democratização do ensino e de outros pilares do estado social, quando as mulheres adquirem um estatuto, depois de 48 anos em que não eram cidadãs de pleno direito, isso é uma coisa concreta nas suas vidas.

E as pessoas têm consciência disso?

Eu acho que as pessoas têm bem consciência disso, sim.

E depois, há várias maneiras de encarar a Revolução. O convidado que vai para o ar no dia 25 de Abril, o último convidado, é o Tiago Bartolomeu Costa, programador cultural, filho de um militar que esteve na coluna do Salgueiro Maia. E, como ele diz no programa, não consegue dissociar esse papel que o pai teve na Grande História com a revolução que foi operada pela mãe dele e pelas mulheres portuguesas, e que isso é resultado do 25 de Abril.

Acho que não podemos limitar tudo ao grande acontecimento. É claro que foi esse acontecimento que permitiu todas as outras revoluções, e há muitas revoluções que são muito concretas, ainda hoje, na vida das pessoas que nascem agora. E depois não podemos esquecer que as pessoas como eu, nascida em 71 e que já só tenho memória de mim em democracia. Mesmo as pessoas que nasceram na década de 90, foram educadas por pais e mães que viveram no fascismo e isso faz com que o 25 de Abril não seja essa revolução longínqua da implantação da República, em 1910. Não, não. Estas pessoas a [que nos educaram] estão muito presentes nas nossas vidas e sabem dizer-nos o que foi a vida deles e o que é a nossa.

Eu tinha essa impressão, de que os jovens não tinham plena consciência, porque, evidentemente, vivi, e muito, antes do 25 de Abril. Aturei, para não usar outra palavra, o que era o país. Costumo até dizer que vivi na Idade Média — e, sobre certos aspetos, o país era medieval, até porque o Salazar era um “pré-Revolução Francesa”, a favor dos valores mais tradicionais do ancien regime. Era muito desagradável e, portanto, para as pessoas que no 25 de Abril já eram adultos há algum tempo, a mudança foi telúrica.

Não imaginas o que era o país. Não era apenas uma questão política, no sentido de se poder ou não votar, era sobretudo uma questão moral e social. Era uma sociedade de castas marcadas; o acesso à cultura e à educação e às oportunidades era determinado pela classe social a que se pertencia. E depois, no aspeto moral, a moral católica tradicional era oficial, imposta de todas as maneiras. O país vivia numa redoma, fora do mundo, era difícil de ir ao estrangeiro porque havia restrições de passaporte, e havia restrições na informação que vinha de fora do país. Finalmente, havia a agravante da guerra das colónias, que era uma sombra negra sobre as nossas cabeças. Os homens tinham de fazer o serviço militar e as mulheres tinham de aguentar a sua ausência. Havia um risco de vida, real, ou pelo menos uma experiência violenta que afetava o percurso de vida.

Evidentemente que quem era muito jovem no 25 de Abril não experimentou essa vivência. Mas, quando li o teu livro desfiz a impressão de que a juventude não tem consciência do benefício que tem. 

O não termos experimentado não quer dizer que não saibamos. Isso foi-nos passado através dos nossos pais e avós. No programa, é frequente os entrevistados levarem fotografias dos seus familiares mais diretos, quase sempre os pais, que estiveram na guerra colonial. Todas essas experiências que acabaste de descrever são coisas que as pessoas trazem para os programas, porque é bastante comum esta transmissão entre gerações. Neste momento, as pessoas pós-25 de Abril, por mais que a atenção seja para a frente, têm contacto com o que está para trás.

Os Filhos da Madrugada

Então podemos dizer que as pessoas que hoje têm saudades do “antigamente” são uma minoria.

Não sei se posso dizer isto. A votação das últimas eleições faz-nos olhar com apreensão para a democracia e permite-nos compreender que existe também uma franja de pessoas descontentes com os valores da democracia.

Mas isso faz parte da democracia, incluir os anti-democratas.

Pois faz. Mesmo as pessoas que falam no programa dos aspetos mais positivos, daquilo que beneficiaram diretamente por causa do 25 de Abril, apontam falhas, coisas que correram menos bem, coisas que gostariam que fossem melhoradas.

Em termos históricos, quer dizer, pelo menos a partir de 1820, da Revolução Liberal, que temos problemas endémicos, que não desapareceram, e que não desaparecem com uma nova revolução. Segundo aquela frase consagrada, não nos governamos e não nos deixamos governar. Isso sempre foi assim. Somos desorganizados...

Desculpa interromper. Se vires o programa com o Samuel Úria, faço uma referência à conferência do Antero de Quental que fala “das causas da decadência dos povos peninsulares” (1871). Justamente esse problema que não é de agora.

Há muitos problemas que temos agora que sempre existiram, e que também existiram no Estado Novo, só que eles abafavam. Aliás, “abafar” é um termo típico dessa época. Tudo o que indicasse que a sociedade não estava a correr bem era abafado. Escândalos económicos, opiniões da oposição, etc.

Paradoxalmente, o sucesso da revolução, parece-me, levou à despolitização das pessoas. Já não há aquela necessidade de ser do contra. Antigamente as pessoas queriam mudar as coisas porque se sentiam oprimidas. Agora que não se sentem, desinteressam-se...

Eu tenho muita dificuldade em fazer essas considerações, porque acho que depende de muitos fatores e depende muito da amostra com que se lida. As pessoas antes eram mais politizadas e tinham mais vontade de participar; mas eu pergunto: quantas pessoas eram? Eram as que tinham acesso à palavra, que frequentavam o Ensino Superior e, portanto, eram muito poucas.

Quando vemos ao contrário, quem eram as pessoas que tinham atividade política no Estado Novo? Havia os comunistas, que corriam riscos enormes, havia os estudantes universitários, que abalaram o regime, como aconteceu em 1962 – uma franja muito, muito reduzida da população. Tenho muita dificuldade em dizer se era assim ou não era. Estatisticamente, existe logo um desacerto à partida que não permite que possamos fazer uma ilação como essa.

Repara numa coisa, só o facto de hoje as pessoas terem acesso à Internet e às redes sociais, faz com que milhões tenham uma voz e uma plataforma para emitir. Mesmo que sejam aparentemente mais apolíticas, ou apartidárias, têm uma voz e uma compreensão que, em termos numéricos, é forçosamente superior àquilo que existia antes. E do antigamente nem estou a falar nos dissidentes ou dos refratários, estou a falar de pessoas comuns.

Bem, eu não estou a discordar de ti, antes pelo contrário: confesso-me muito satisfeito com as conclusões dos teus programas. Surpreendentes, até. 

Mas não sei se se podem tirar conclusões dos meus programas, porque a minha amostra é reduzida. Mas é muito variada. Isso é a questão das amostras, se são representativas. Mas esta parece ser: tem intelectuais, políticos, pessoas que não têm atividades especiais. Estou a lembrar-me da enfermeira, que tem uma atividade técnica.

“Os Filhos da Madrugada” consolam as pessoas como eu que achavam que os novos não apreciam o que têm. 

Acho que apreciam, sim.

Pelos vistos estava enganado, e ainda bem.

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