Numa conversa com o SAPO24, Ângelo Fernandes “traduz" alguns dos termos que vão estar em discussão no encontro [cujo programa pode consultar aqui], deixa pistas sobre como vão ser abordados os assuntos e fala do trabalho desenvolvido pela Quebrar o Silêncio, lembrando que um em cada seis homens são vítimas de violência sexual.

O título do encontro é "O homem promotor da igualdade". Porquê este foco no elemento masculino, se falamos de igualdade e de homens e mulheres, lado a lado?

Queremos mudar um pouco a narrativa que muitas vezes reforça uma certa inação ou falta de participação do homem nas questões da igualdade de género, dos direitos das mulheres, dos direitos humanos. Muitas vezes passa a ideia de que os direitos das mulheres só dizem respeito às mulheres e não aos homens. Isso é errado. Tudo o que seja relacionado com a igualdade de género deve incluir todas as partes. E o homem é uma delas. Portanto, queremos refletir sobre de que modo o homem pode e deve participar, sobre quais são os desafios, sobre as masculinidades cuidadoras, tóxicas, agressivas, não violentas. Com este encontro pretendemos ter este “chapéu” maior, mas depois também queremos abordar questões mais específicas.

O encontro prevê a existência de painéis e workshops. Como vão ser dinamizadas as várias sessões?

Temos seis painéis e convidámos pessoas que trouxessem diferentes reflexões e pontos de vista, para apresentarem os seus conhecimentos acerca, por exemplo, da interseccionalidade, da parentalidade, da violência sexual e das diferentes dimensões de ser homem. No final de cada painel, esperamos que o público possa participar e colocar questões. É interessante ter um lado mais orgânico e trazer também contributos que possam de certo modo desafiar as próprias pessoas que estão a comunicar no evento. Os workshops são uma tentativa de chamar um público mais diversificado e mais abrangente - pais, mães, educadores, educadoras. Normalmente, quem pode participar mais durante a semana são os profissionais da área. E assim o sábado é um dia mais aberto ao público em geral.

No programa, há alguns termos ou expressões com que podemos não estar tão familiarizados. Por exemplo, o que é a interseccionalidade, que dá nome o primeiro painel?

A interseccionalidade, quando falamos de direitos humanos e de igualdade de género, é uma forma de discriminação e de violência que cruza diferentes características: uma mulher pode ser discriminada por ser mulher, mas também pode ser duplamente discriminada por ser mulher negra. Muitas vezes, acontece separarmos as formas de violência, como se fossem questões distintas, e não percebemos que há pessoas que têm um conjunto de características, temporárias ou delas próprias, que as tornam mais vulneráveis a diferentes formas de violência. A interseccionalidade é um dos eixos centrais deste ano.

No encontro teremos representadas as mulheres lésbicas negras; a AMUCIP (Associação para o Desenvolvimento das Mulheres Ciganas), que traz a voz das mulheres ciganas; e a Daniela Bento, que vem falar das mulheres trans, do movimento da igualdade de género e dos feminismos. São três vozes que se complementam e que trazem contributos completamente diferentes.

Um outro termo em destaque é “cisnormatividade”.

A cisnormatividade surge no painel da heteronormatividade, em que vamos refletir sobre como é que as normas se impõem às pessoas. A heteronormatividade parte do princípio de que todas as pessoas são heterossexuais, quando sabemos que isso não é a realidade. E a cisnormatividade parte do princípio de que todas as pessoas se identificam com o corpo com que nasceram, ou seja, que a sua identidade de género está a par com o corpo com que nasceram. Queremos trazer ao debate e à reflexão as características de cada uma destas expressões.

Muitas vezes, as pessoas podem não conhecer os termos. A nossa tentativa é trazer pessoas que trabalham nestas áreas e que têm um contributo para dar. Por exemplo, a ILGA Portugal (Associação de Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero), a Sandra Saleiro, a Ação Pela Identidade - API e até o projeto Fado Bicha vêm trazer contributos para percebermos de que modo estamos a usar os termos e se os compreendemos como eles têm de ser compreendidos.

E o que são as “masculinidades” de que falava há pouco?

As masculinidades têm muito para desenvolver. O que é ser homem? O que define a masculinidade? O que define também ser mulher e a feminilidade? Existem comportamentos e valores que são tóxicos, que promovem a violência, o bullying, o assédio. São as tais masculinidades tóxicas.

Pode dar exemplos?

A objetificação da mulher, o piropo - que muitas vezes as pessoas pensam que pode ser um elogio, quando no fundo não é -, o assédio no trabalho, o assédio moral, sexual. Todas as questões que colocam o homem como agressor, não só contra as mulheres e raparigas, mas também contra outros homens e rapazes, são comportamentos e valores ditos tóxicos. Por outro lado, também podemos falar das masculinidades cuidadoras ou transformativas, que visam mais o bem-estar das pessoas com quem os homens se relacionam. É muito importante, por exemplo, perceber como é que um homem pode e deve ter um papel cuidador, presente na vida das crianças.

Ainda sobre o painel "Parentalidadade e masculinidades cuidadoras": o tema vai ser abordado em termos práticos?

Vamos três dimensões completamente distintas. Por um lado, a juíza Clara Sotto Mayor trabalha muito na questão da guarda alternada nos casos de divórcio, para perceber onde é que está a igualdade de género nestas situações. Por outro lado, a Manuela Ferreira, que vem da AMPLOS (Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual e Identidade de Género), traz um outro desafio que são os pais homens com filhos ou filhas LGBTI. Muitas vezes há a ideia de que o pai tem mais dificuldade em aceitar que o filho ou a filha seja homossexual, bissexual ou intersexo. Como é que o pai pode dizer "Eu aceito naturalmente quem tu és" e dar apoio à criança? Por outro lado ainda, a Karin Wall vem mostrar quais são os obstáculos às masculinidades cuidadoras. Por mais que na lei estejam previstos os direitos do pai, nem sempre a questão é facilitada pelos pares ou a nível social.

Há ainda um painel sobre as várias dimensões de ser homem. Que dimensões vão ser abordadas?

Um homem, tal como a mulher, não é “preto ou branco”, não é simples; as pessoas são complexas. Muitas vezes caímos nos estereótipos de género de que o homem é uma "parede", sem emoções, que não fala dos seus sentimentos, uma pessoa agressiva, mais prática em termos de tarefas manuais. E queremos desconstruir um pouco estas questões. Um homem que não saiba mudar o óleo ou o pneu do carro é menos homem por isso? Um homem que seja educador de infância será que é menos homem do que os outros? Os homens têm uma diversidade de características que têm de ser reconhecidas.

O que destaca neste encontro?

Não querendo destacar ninguém, porque todas as pessoas trazem contributos interessantes, talvez saliente os convidados e as convidadas internacionais, porque com os portugueses conseguimos ter um contacto mais facilitado. Temos o Gary Barker, que é dos Estados Unidos, o Duncan, que vem do Reino Unido pela segunda vez ao encontro, o Hjálmar, que vem da Islândia, e a Asdis, que vem da Bélgica. São contributos que não é fácil reunir numa única ocasião.

Depois, o painel que fala da violência sexual é muito importante para nós, Quebrar o Silêncio. É mais um momento em que podemos comunicar sobre a realidade da violência sexual contra homens e rapazes e informar que os homens também são vítimas de violência sexual, mesmo que em menor número. Nenhuma vítima, nenhum sobrevivente pode ficar de fora.

Quantas pessoas estão à espera de receber no encontro?

O ano passado tivemos cerca de 400 pessoas no total, nos dois dias, e uma lotação de 90%. Este ano, a sala tem uma lotação de 300 lugares, 600 se contabilizarmos os dois dias em auditório. Queremos ser otimistas e esperar atingir este ano também os 90% de participação.

Vai ser o segundo ano em que este encontro é realizado. Que balanço fazem da primeira edição?

No ano passado houve dois momentos-chave. Primeiro, um terço dos participantes eram homens. Isso foi para nós muito positivo, porque normalmente nestes eventos há uma participação muito reduzida por parte dos homens. E, depois de o evento acabar, recebemos emails de pessoas que participaram. Houve uma enfermeira que nos escreveu a dizer que já trabalhava há 30 anos em enfermagem e que nunca tinha refletido sobre a possibilidade de os homens também serem vítimas de violência sexual e que agora estava consciente disso e que tinha percebido que tinha de fazer algum trabalho de casa para se atualizar. Achei isso fantástico. Recebemos também feedback de pessoas que acharam toda a discussão muito importante e que manifestaram o desejo de que repetíssemos este ano o encontro. Nós já tínhamos essa intenção. É um evento que queremos ir reproduzindo enquanto fizer sentido.

O Ângelo, para além de estar num dos painéis, é fundador da Quebrar o Silêncio, instituição que organiza o encontro. Que trabalho desenvolve a Quebrar o Silêncio?

A Quebrar o Silêncio é a primeira instituição portuguesa de apoio especializado a homens sobreviventes de violência sexual. Um homem que seja abusado na infância demora cerca de 26 anos após o abuso até procurar apoio. São 26 anos de silêncio, a viver com as consequências desse abuso, a tentar sobreviver, a arranjar estratégias para lidar com o impacto do abuso. Na Quebrar o Silêncio, damos apoio através de acompanhamento psicológico, de grupos de ajuda mútua e de uma linha de apoio. Há homens que não vivem em Lisboa ou em Portugal e a quem fazemos atendimento por videochamada. Também fazemos sessões de sensibilização nas escolas. Por norma, trabalhamos no secundário e no ensino superior, para informar os estudantes sobre a violência sexual em geral, mas mais especificamente contra homens e rapazes. Trabalhamos muito com os alunos e as alunas do ensino universitário que estejam a estudar psicologia, medicina, educação, para já irem com algumas ferramentas antes de ingressarem na sua profissão.

E qual é a ligação entre a Quebrar o Silêncio e o encontro de novembro?

Tudo isto faz parte de um grande problema estrutural que são os estereótipos de género. Um dos obstáculos à procura de apoio são os fortes sentimentos de vergonha e de autoculpabilização, mas também o papel tradicional do que é ser homem - "homem que é homem não chora", "homem que é homem não pode procurar apoio, resolve os seus próprios problemas", "o homem não pode ser vítima de violência sexual”. O contributo que nós podemos dar, não só para os homens sobreviventes, mas para todas as mulheres vítimas de violência sexual, é começarmos a desconstruir algumas bases que estão enraizadas, nomeadamente a participação do homem [na igualdade de género] e as várias dimensões do que é ser homem. O encontro é uma das nossas estratégias e dos nossos contributos para este tema maior.

Há quanto tempo existe a Quebrar o Silêncio?

“Abrimos portas” em janeiro de 2017. E, no primeiro mês, tivemos 19 pedidos de apoio. Desde então, o número de pedidos tem vindo a aumentar. Muitos homens dizem-nos que não havia para eles um espaço que fosse seguro para falarem das suas experiências, para procurarem apoio, onde se sentissem à vontade para falarem de tudo o que lhes aconteceu. Muitos homens que chegam até nós falam pela primeira vez da sua experiência. Temos homens que nos procuram com 18 anos e outros com 60 ou 70. Ou seja, alguns homens estiveram em silêncio 30, 40, 50, 60 anos e finalmente agora podem falar.

Qual é o perfil dos homens que são vítimas de violência sexual e que procuram apoio?

Não existe um perfil. A violência sexual acontece em qualquer contexto socioeconómico, independentemente da orientação sexual, da cultura e da escolaridade. Tanto temos homens com doutoramento, como homens com o 9.º ano, o 12.º ano ou a licenciatura; temos homens desempregados e empregados; casados, divorciados, solteiros; com filhos e sem filhos... Muitas vezes, as pessoas pensam que a violência sexual só poderá acontecer em famílias desestruturadas, empobrecidas, e que o abusador é um homem estranho, que aparece num beco escuro. Mas a verdade é que acontece em todos os contextos, e, na maioria dos casos, o abusador conhece a vítima, faz parte da família ou pelo menos tem alguma relação com ela.

Há menores a procurar o apoio da organização?

Quando nos chegam casos desses, encaminhamos para associações nossas parceiras. Neste momento não trabalhamos com menores. Damos apoio sempre a maiores de idade.

Porquê?

Por uma questão de recursos humanos. Somos apenas duas pessoas a trabalhar. Não temos forma ainda de chegar às famílias e aos menores da forma que gostaríamos.

Quais são as instituições para onde reencaminham esses casos?

Trabalhamos muito com a AMCV (Associação de Mulheres Contra a Violência). São nossas parceiras desde o início. Depois, existe uma série de outras instituições: a APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima), o IAC (Instituto de Apoio à Criança), a ILGAEste trabalho em rede permite que nenhuma pessoa que nos procure - seja vítima de violência sexual ou não - fique sem o apoio que merece.

Quais têm sido os maiores desafios no trabalho desenvolvido pela Quebrar o Silêncio?

O maior obstáculo ou adversidade é a falta de reconhecimento de que os homens podem também ser vítimas. Existe um desconhecimento grande sobre a violência sexual. Muitas pessoas não sabem que uma em três mulheres é vítima de violência sexual antes dos 18 anos, e que um em cada seis homens também o é. As pessoas perguntam: "Os homens também podem ser vítimas? Como?”. E pensa-se automaticamente que são as mulheres que abusam dos homens, quando na maioria dos casos são homens que abusam de homens.

E quais são os principais exemplos de resultados positivos da organização?

São todos os homens que já nos procuraram, que sentiram força e coragem para o fazer, e todos os homens que já ultrapassaram o apoio, que já não precisam de nós, que já estabilizaram a sua vida e que conseguem agora viver sem que o abuso seja um “fantasma”. Já tivemos vários casos de homens que passaram por nós e que nos deram o seu testemunho. Sempre que um homem partilha connosco o seu testemunho, isso é muito importante para nós, porque sabemos que aquele homem há dois anos não tinha nenhuma estrutura de apoio que identificasse como segura e que, hoje em dia, a sua vida já está estabilizada.

Em termos práticos, qual é o impacto na vida de um homem o facto de partilhar o que lhe aconteceu, de receber apoio e de integrar o abuso como um "não-fantasma”?

Um dos últimos testemunhos que temos é de um sobrevivente que antes pensava em suicidar-se, não gostava de si próprio, se desvalorizava e julgava ser a pior pessoa à face da Terra. Hoje, é um homem que alimenta relações saudáveis, cuida de si próprio e da sua imagem e melhorou bastante a sua autoestima. Sente que o abuso já não o afeta negativamente.

A violência sexual está presente na vida da pessoa, mesmo que a pessoa não transpareça. Muitas vezes os homens dizem que não merecem nada de bom, que têm uma dificuldade enorme em concentrar-se no trabalho e nos estudos. As relações sociais ou de intimidade também são prejudicadas. Com o apoio, há uma altura em que os homens se sentem equilibrados e que isso lhes traz estabilidade para a vida.

O encontro “O homem promotor da igualdade - Homens e mulheres lado a lado pela igualdade de género” é de entrada livre. As inscrições podem ser feitas através do site https://www.promotoresdaigualdade.pt/, onde se encontra toda a informação sobre o evento.

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