Marcelo evoca o capitão "protagonista cimeiro" em momento histórico

O Presidente da República destacou hoje “a importância capital” de Otelo Saraiva de Carvalho no 25 de abril, evocando-o como o capitão “protagonista cimeiro num momento decisivo da história contemporânea portuguesa”.

Otelo Saraiva de Carvalho, militar e estratega do 25 de Abril de 1974, morreu hoje de madrugada aos 84 anos, no hospital militar.

“O Presidente da República, consciente das profundas clivagens que a sua personalidade suscitou e suscita na sociedade portuguesa, evoca-o, neste momento como o Capitão que foi protagonista cimeiro num momento decisivo da história contemporânea portuguesa”, refere Marcelo Rebelo de Sousa, numa nota publicada na página da Presidência da República.

O chefe de Estado considera que “ainda é cedo para a história o apreciar com a devida distância”, no entanto salienta que “parece inquestionável a importância capital que teve no 25 de Abril, o símbolo que constituiu de uma linha político-militar durante a revolução, que fica na memória de muitos portugueses associado a lances controversos no início” da democracia, “e que suscitou paixões, tal como rejeições”.

Marcelo Rebelo de Sousa relembra o que disse no último 25 de Abril “acerca da aceitação que os portugueses devem procurar construir, todos os dias, relativamente a sua história pátria”.

Na nota, o Presidente da República apresenta à família de Otelo Saraiva de Carvalho e à Associação 25 de Abril os seus sentimentos, realçando o “papel central de comando no 25 de abril”.

“Um dos mais ativos capitães de abril, exerceu funções muito relevantes durante a revolução e candidatou-se à Presidência da República em 1976. Afastado do poder na sequência do 25 de novembro de 1975, viria a ser considerado, pela Justiça, envolvido nas FP25, condenado e amnistiado", escreve ainda Marcelo Rebelo de Sousa.

Coronel “serviu Portugal sem se servir”

Em comunicado, a Associação presidida pelo tenente-coronel Vasco Lourenço – que assume ver “partir um grande amigo” – homenageia o “homem de enorme coragem e generosidade, sempre ao serviço dos seus ideais, com um coração onde cabiam, acima de tudo, os mais genuínos sentimentos da amizade”.

Convicta de que Otelo deixa “um legado que a memória dos portugueses não esquecerá”, a Associação - fundada em 1982 por oficiais dos quadros permanentes das forças armadas, mas hoje aberta a outros militares profissionais e civis – considera que o “país fica mais pobre” com a partida do Capitão de Abril.

A Associação recorda o papel de Otelo naquele "dia inicial, inteiro e limpo", o 25 de Abril de 1974, ao liderar o Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas, “ação fundamental na vitória sobre uma ditadura de 48 anos que conduzira os portugueses ao obscurantismo, à guerra colonial e à pobreza”.

Sem dúvidas, a Associação, numa mensagem assinada por Vasco Lourenço, escreve: “Otelo ficará na História de Portugal como um dos principais Capitães de Abril.”

"Pessoalmente, vejo partir um grande Amigo, a quem envio um enorme abração de Abril! Até sempre, caro Otelo", conclui Vasco Lourenço.

Ferro homenageia “o maior símbolo individual do Movimento das Forças Armadas”

O presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, homenageou hoje Otelo Saraiva de Carvalho, “o maior símbolo individual do Movimento das Forças Armadas”, que concretizou o sonho de todos os que “ansiavam por viver em liberdade”.

“Apesar dos excessos que se possam apontar, nomeadamente no período pós 25 de Abril, Otelo Saraiva de Carvalho foi, e será sempre considerado, o maior símbolo individual do Movimento das Forças Armadas”, pode ler-se numa mensagem de pesar do presidente da Assembleia da República a que a agência Lusa teve acesso.

Segundo Ferro Rodrigues, “por todos os democratas, que ansiavam por viver em liberdade e em democracia, Otelo Saraiva de Carvalho concretizou esse sonho”.

“No momento do seu desaparecimento, e pelo seu decisivo contributo, é justo render-lhe a mais sentida homenagem”, enalteceu.

O capitão de Abril que hoje morreu, segundo a mesma nota, foi “um dos estrategas da revolução” que devolveu a democracia a Portugal.

“Otelo Saraiva de Carvalho teve um papel fundamental no 25 de Abril, sendo de sua responsabilidade a elaboração do plano de operações militares que derrubou o anterior regime”, refere ainda Ferro Rodrigues.

Governo aponta Otelo como um dos símbolos do 25 de Abril e "um daqueles a que todos devemos a libertação e o que hoje somos"

Numa nota enviada à imprensa, o gabinete do primeiro-ministro dia que "o Governo lamenta o falecimento do coronel Otelo Saraiva de Carvalho e endereça as mais sentidas condolências à sua família, assim como à Associação 25 de Abril."

"Otelo Saraiva de Carvalho foi o coordenador operacional da ação militar do Movimento das Forças Armadas, que, no dia 25 de abril de 1974, derrubou o regime do Estado Novo, pondo fim à mais longa ditadura do século XX na Europa e abrindo caminho à democracia", diz ainda o governo.

"A capacidade estratégica e operacional de Otelo Saraiva de Carvalho e a sua dedicação e generosidade foram decisivas para o sucesso, sem derramamento de sangue, da Revolução dos Cravos. Tornou-se, por isso, e a justo título, um dos seus símbolos. Neste dia de tristeza honramos a memória de Otelo, como um daqueles a que todos devemos a libertação consumada no 25 de Abril e, portanto, o que hoje somos."

Rui Rio reconhece “papel corajoso e decisivo” no 25 de Abril

O presidente do PSD, Rui Rio, reconheceu hoje “o papel corajoso e decisivo” de Otelo Saraiva de Carvalho no 25 de Abril, considerando que será a história, com isenção, que avaliará o que “fez de bom e de mau”.

“O dia da morte de Otelo Saraiva de Carvalho é momento para reconhecer o seu papel corajoso e decisivo no 25 de Abril e na conquista da liberdade”, refere o presidente do PSD, Rui Rio, numa publicação na rede social Twitter.

Para Rio, é à história que vai competir, “com isenção”, fazer “a avaliação global de tudo que ele fez de bom e de mau”.

“Hoje não é o dia para isso”, concluiu.

Manuel Alegre: “O país deve-lhe a liberdade”

Em declarações à agência Lusa, Manuel Alegre manifestou um “sentimento de luto” pela morte de Otelo Saraiva de Carvalho, um sentimento que considera estender-se a “todos os portugueses que se reconhecem no 25 de Abril e na liberdade”.

“Eu não penso que em relação ao papel que Otelo desempenhou na libertação do país seja preciso distanciamento histórico. Não é preciso distanciamento nenhum. Quem se identifica com o 25 de Abril, quem gosta da liberdade sabe que o Otelo rima com esse dia, com o dia 25 de Abril e rima com liberdade”, defendeu.

Para o histórico do PS e ex-candidato presidencial, o capitão de Abril, que hoje morreu aos 84 anos, já “faz parte da história de Portugal”.

“O país deve-lhe a liberdade. Esse é o bem mais precioso. O país deve-lhe, a ele e a todos os que participaram no 25 de Abril, mas a ele como coordenador operacional do movimento do 25 de Abril, e como símbolo que ele foi nesse dia do próprio 25 de Abril, deve-lhe a liberdade e deve-lhe aquilo que se seguiu que foi a democracia e a paz”, elogiou.

Manuel Alegre recordou que “Otelo foi o estratega, o coordenador operacional do 25 de Abril e ficará sempre ligado a esse momento, ao dia da liberdade”.

“Quer se queira quer não, o Otelo já está na história porque aquilo que fica dos atos que se praticam são os atos que transformam a história ou que fazem história e ele fez história nesse dia. Não sozinho, evidentemente, com todos os seus camaradas, mas ele é um símbolo, é uma figura carismática e o símbolo do 25 de Abril”, afirmou.

Na perspetiva de Manuel Alegre, não se pode comparar “a dimensão histórica de um dia que mudou o país” com atos, que não sendo “para branquear nem para apagar”, “são atos menores e que vão ficar no rodapé dos livros de história, se é que ficam”.

“O que fica é esse ato que realmente mudou a vida do nosso país, libertou o nosso país e mudou as nossas vidas”, apontou.

BE agradece contributo imprescindível de um “construtor do 25 de Abril”

O BE agradeceu hoje o “contributo imprescindível” de Otelo Saraiva de Carvalho na revolução que trouxe a liberdade a Portugal, considerando que foi um “construtor do 25 de Abril”.

“Otelo Saraiva de Carvalho foi um construtor do 25 de Abril, estratega da Revolução que trouxe ao país a Liberdade, pôs fim à guerra e à colonização e abriu a esperança de uma democracia política e social”, pode ler-se numa nota do BE enviada à agência Lusa.

No momento da morte do capitão de Abril, “o Bloco de Esquerda agradece esse contributo imprescindível e endereça à família as mais sentidas condolências”.

Já na rede social Twiter, a coordenadora bloquista, Catarina Martins, considerou que o Otelo Saraiva de Carvalho é “uma figura maior do que a sua própria história”.

“Estratega do 25 de abril, será sempre lembrado como um dos libertadores de Portugal”, elogiou.

PCP regista o papel de Otelo papel no 25 de Abril

“Sobre o falecimento de Otelo Saraiva de Carvalho deve registar-se no essencial o seu papel no levantamento militar do 25 de Abril. O momento do seu falecimento não é a ocasião para registar atitudes e posicionamentos que marcam o seu percurso político”, refere uma nota do gabinete de imprensa do PCP.

O Partido Comunista Português endereça ainda condolências à família e à Associação 25 de Abril.

CDS fala em dia “agridoce” entre memória de Abril e “atrocidades” das FP25

O vice-presidente do CDS-PP Miguel Barbosa reagiu hoje à morte de Otelo Saraiva de Carvalho, considerando tratar-se de um dia “agridoce”, ao lembrar a sua ação na conquista da liberdade e, em simultâneo, “as atrocidades” das FP-25.

No dia em que “o CDS regista com tristeza” a morte de Otelo Saraiva de Carvalho, o vice-presidente Miguel Barbosa assegurou à agência Lusa que o partido “não se deixa embriagar pela história”, naquele que considera ser “um dia agridoce para os portugueses”.

Por um lado, Miguel Barbosa lembra Otelo como “um dos principais obreiros do golpe de estado que ficou conhecido como a Revolução dos Cravos, o 25 de Abril de 1974", reconhecendo-lhe “um primeiro ato importantíssimo para devolver Portugal à liberdade e à estabilidade de uma democracia liberal, que apenas se veio a confirmar com o 25 de novembro”.

Mas, por outro, sublinha "aquilo que O CDS não esquece”, apontando o capitão de Abril como “um homem que, entre estas duas datas, teve atitudes e comportamentos em que contradiz tudo aquilo que parecia defender”.

Na lista do que o CDS não esquece inclui “o Comando Operacional do Continente (COPCON), os mandados de captura em branco e as vítimas mortais do terrorismo das FP25”, para sublinhar: “Não esquecemos que Otelo Saraiva de Carvalho era o rosto de toda essa atrocidade”.

O partido que em 1976 “votou contra a Constituição e, nos anos 90“, contra "a amnistia e o indulto que o Presidente da República entendeu dar a Otelo e a outros operacionais das FP25”, assegura não esquecer “toda uma história de atrocidades contra a liberdade contra a democracia”, com que “procuraram no fundo impedir que Portugal trilhasse o caminho até à liberdade em democracia liberal”.

Portugal “perdeu hoje uma das pessoas e uma das personagens mais polémicas da história recente do nosso país”, afirmou Miguel Barbosa, considerando importante lembrar, por um lado, “aquilo que [Otelo] acrescentou e onde fez a diferença para promover a transição da ditadura para a democracia”, mas não menos importante, “não esquecer os obstáculos que criou a que essa democracia se cristalizasse e fizesse o seu caminho”.

Reafirmando as memórias das “vítimas que morreram pelos ataques das FP25, crianças inclusive”, o vice-presidente do CDS disse esperar que “não se reabram feridas antigas" e que “os familiares dos que perderam os seus pais, filhos, irmãos, para as mãos do terrorismo de Abril, possam hoje também encontrar alguma paz”.

Capitão de Abrill e Zeca Afonso partilharam “grandes afinidades”

“Ambos partilharam valores onde primavam a liberdade e a solidariedade universais, como emanação da vontade e luta popular”, escreve a associação, na sua página na internet, em homenagem ao coronel que “colaborou com a AJA sempre que era solicitado, em conferências, debates e, especialmente, em escolas”, para “explicar como um grupo de homens arriscou tudo num só dia e derrotou o regime fascista”.

Em entrevista à Lusa, em fevereiro de 2017, Otelo reconheceu que a “música de intervenção” de Zeca Afonso estimulou “enormemente” a sua consciencialização política.

“Entrámos num turbilhão de amizade, de companheirismo muito grande”, lembrou Otelo, na mesma entrevista à Lusa, falando de Zeca como o “irmão que gostaria de ter tido".

Otelo só conheceu e deu um “abraço emocionado” a José Afonso depois do 25 de Abril de 1974.

Sobre a escolha de “Grândola” para senha da Revolução dos Cravos, disse: “Podia ser o ‘Venham mais cinco’ ou ‘Traz outro amigo também’. Acabou por ser a ‘Grândola’, porque as outras estavam no índex da censura”.

Otelo estava preso em Caxias, em 1986, quando Zeca Afonso, já muito doente, foi “despedir-se” de si, meses antes de morrer.

Como o compositor de “Venham Mais Cinco” não podia subir ao parlatório, o diretor da prisão autorizou que fosse o militar a vir, a sentar-se num carro – ele e Zeca nos bancos da frente, as duas companheiras atrás.

José Afonso, o cantor, tinha dúvidas se teria valido a pena “a luta” desde os tempos da ditadura, e achava que o seu trabalho musical iria ser esquecido.

“Aí, quase me exaltei: ‘Ó Zeca, pá, nunca digas uma asneira dessas. Tu foste um gajo notável e o que fizeste vai perdurar, pá, até ao fim do mundo'”, recordou, à Lusa.

“Sem Otelo nada teria sido igual, nada teria sido possível”, assinala a Associação José Afonso, descrevendo-o como “grande estratega, corajoso, solidário e sonhador”.

A AJA recorda ainda que Zeca Afonso apoiou a candidatura de Otelo à Presidência da República, em 1976 e 1980, e que, por sua vez, Otelo foi o sócio fundador nº2 da Associação.

“Morreu hoje, Otelo, também dia 25, como foi 25 o dia que o projetou no futuro e na história, como obreiro de um dos dias mais felizes das nossas vidas. Obrigada, Otelo!”, agradece a Associação José Afonso, partilhando uma fotografia que junta o músico e o coronel.

Morte “acaba com uma época e uma utopia”, diz Isabel do Carmo

A ativista política e médica Isabel do Carmo lamentou hoje a morte de Otelo Saraiva de Carvalho, considerando que, com o desaparecimento do militar e estrategado 25 de Abril de 1974, “acaba também uma época e uma utopia”

“Esta manhã [ao saber da notícia da morte] senti uma coisa, senti que acabou, que, com [a morte de] este homem, acaba também uma época, uma utopia. Senti isso, emocionalmente. Senti a perda, o desaparecimento. Já não vai ser possível falar com ele”, afirmou Isabel do Carmo a agência Lusa.

Para a antiga dirigente do extinto do Partido Revolucionário do Proletariado (PRP), movimento que exerceu actividade clandestina através das suas Brigadas Revolucionárias (no PRP-BR), Otelo é, juntamente com Vasco Lourenço, “o dirigente do 25 de abril [de 1974], do Movimento dos Capitães e do derrube da ditadura”.

“Esse é o Otelo, que depois foi general. Na altura do 25 de Abril [de 1974] era capitão, que dirigiu o movimento militar – não foi um golpe militar - com Vasco Lourenço [que, na altura, estava preso nos Açores]”, sustentou.

“Tivemos mais de 40 anos de ditadura, tivemos uma resistência continuada contra a ditadura e contra o fascismo, repetida, desgastante, com muita repressão, mas foi preciso um movimento que fizesse mesmo uma rotura e que derrubasse a ditadura pela força. Tinha de ser pela força”, acrescentou.

Isabel do Carmo, médica de Endocrinologia, Diabetes e Nutrição e professora na Faculdade de Medicina de Lisboa, onde se licenciou e doutorou, lembrou a liderança de Otelo no Comando Operacional do Continente (COPCON) durante o Processo Revolucionário em Curso (PREC).

“É, depois, aquele que afastou as chefias mais tradicionais e foi o chefe do COPCON e o COPCON, como movimento, foi quem apoiou os que estavam em baixo: os trabalhadores, as pessoas que estavam sem casa, as pessoas que estavam a ser exploradas nos campos. Esse é o Otelo. E é essa figura que preservo e que acho que o país deve preservar”, argumentou.

Para a História, prosseguiu, Otelo ficará como “o homem, entre outros”, do ‘25 de abril’.

“Ficará para a História como o chefe, entre outros, que criaram um movimento que veio de baixo, não veio de cima, que derrubou a ditadura, que derrubou o fascismo em Portugal. Para mim, é esse que fica para a História. É o homem do 25 de Abril de 1974, entre outros.

Jornalista Paulo Moura destaca generosidade total e capacidade de realização

O jornalista Paulo Moura, biógrafo de Otelo Saraiva de Carvalho, destacou a generosidade total e a capacidade de realização do militar, que hoje morreu, considerando que não foi apenas quem delineou o golpe, mas o seu protagonista.

“Ele representa muitas das características que os portugueses nem sempre têm, que é a generosidade total e a capacidade de realização, de fazer”, disse à agência Lusa Paulo Moura, autor do livro “Otelo”, referindo que o militar “teve a capacidade, sozinho – mais ninguém se chegara à frente -” de planear, executar e fazer a revolução, “isto com total espírito de missão, sem ambição de poder”.

Realçando o lado humano, “mais do que o estratega militar ou o político”, o jornalista salientou que Otelo Saraiva de Carvalho era uma “pessoa extremamente generosa, abnegada, sem nenhum apego ao poder, sem nenhum egoísmo, totalmente dedicada às causas que abraçou, fossem corretas ou não, hoje em dia”.

Paulo Moura adiantou que o militar “não teve uma ideologia muito vincada” e “nunca pertenceu a nenhum partido”, apesar de “muitos partidos o terem aliciado para se filiar”, mantendo-se sempre independente.

“Outra característica da sua personalidade foi a coragem. Fala-se do estratega, porque planeou a revolução e executou o plano com êxito, mas mais importante é o facto de ele ter tomado a decisão de fazer a revolução. Ele é, de facto, o líder da revolução”, frisou, para acrescentar: “Ele é o protagonista”.

Paulo Moura declarou que, “quando tinha falhado o 'Golpe das Caldas' [16 de março de 1974] e, portanto, os militares que estavam a preparar a revolução tinham sido presos ou afastados e o movimento desmembrado”, foi aí que Otelo Saraiva de Carvalho se “assumiu como líder”.

“Houve um momento em que foi uma ação muito solitária. Fechou-se em casa três dias, creio eu, a fazer o plano. Contactou, pessoalmente, um a um os líderes militares e convenceu-os a participar no golpe, muitas vezes através da sua capacidade de sedução pessoal”, afirmou.

Para o jornalista, “Otelo é um sedutor”.

“Ele sempre quis ser ator, mas foi pressionado pela família para seguir a carreira militar, por ser um emprego seguro. Tem esse lado de palco, de cativar as pessoas”, lembrou o jornalista, observando que Otelo Saraiva de Carvalho “chegou a convencer pessoas que eram do regime a fazer parte da revolução”.

A biografia “Otelo” teve como principal fonte o testemunho do militar, sendo "muito baseada em entrevistas de muitas horas, muitos encontros” com o militar, disse ainda Paulo Moura.

Revolução podia ter sido"mais violenta" sem Otelo, lembra Sousa e Castro

O militar de Abril Sousa e Castro disse que se não fossem as qualidades pessoais e militares de Otelo Saraiva de Carvalho, que faleceu hoje, aos 84 anos, a revolução poderia ter sido "mais violenta".

"Uma revolução paradigmática, que alcança os seus objetivos, derruba uma ditadura, e não produz vítimas ao Otelo se deve", afirmou Sousa e Castro em declarações à Lusa, lamentando a perda de "um amigo".

Para o major reformado, "se fosse outro o comandante militar, provavelmente a conduta de operações e das próprias tropas em movimento poderia ter sido mais violenta", no 25 de Abril de 1974, salientou.

Porque Otelo tinha "características militares muito vincadas, era um homem disciplinado, mas sem ser agressivo, (...) de uma forma que quase se poderia dizer simpática", descreveu.

Além disso, "era uma pessoa muito corajosa, sem aquelas ousadias que não levam a lado nenhum. Era serenamente corajoso", sublinhou, admitindo, que algumas vezes esteve stev do lado oposto da barricada ao do seu amigo, já depois da revolução dos cravos.

Mas na sua opinião foram "essas características militares e de sociabilidade que o tornaram uma pessoa mais importante na conspiração".

"Tanto assim que, sendo ele major, foi comandar as operações para um posto de comando onde estavam tenentes-coronéis e majores mais antigos", ou seja, acima dele na hierarquia militar.

A acrescentar a essas qualidades, Sousa e Castro realçou ainda as características pessoais de Otelo, que "ajudaram a tudo”: "A capacidade dele de fazer amigos, de juntar pessoas, de persuadir."

"Ele incutia a coragem nos outros, (...) mas de uma forma positiva, porque o discurso, ou as palavras que tinha para os capitães, que estavam mais empenhados em revoltarem soldados e saírem pelas estradas fora para derrubarem a ditadura (...) ele incutia uma coragem serena e recomendava-lhes sempre muita precaução para não ferirem ninguém", frisou o Major.

"E não esquecer que nós todos tínhamos experiência de combate", sublinhou.

Lembrando que, por vezes, em certas reuniões os ânimos se exaltavam e havia os que tinham mais vontade de desatar aos tiros, referiu que Otelo transmitia a essas pessoas “a ideia de firmeza mas moderação e de responder ao fogo só no caso de as pessoas afetas à ditadura atacassem".

Ministro da Defesa destaca “liderança militar” e “capacidade estratégica”

“Expresso o meu pesar pela morte de Otelo Saraiva de Carvalho, que contribuiu de forma decisiva para a concretização da revolução de 25 de abril de 1974, através da sua liderança militar e capacidade estratégica, permitindo pôr fim à ditadura e abrir caminho à democracia em Portugal. Hoje evoco o seu papel na conquista da Liberdade”, lê-se numa “nota de pesar” do Ministério da Defesa, assinada por João Gomes Cravinho.

"A ele devemos o que somos hoje", diz Augusto Santos Silva

Em declarações após participar, “como socialista e leitor do Porto”, no lançamento da candidatura de Tiago Barbosa Ribeiro à liderança da Câmara do Porto, o governante disse que “O Governo lamenta o falecimento do coronel Otelo Saraiva de Carvalho”.

“Como sabemos, ele foi o comandante operacional da ação militar do 25 de Abril de 1974. É, portanto, um dos capitães de Abril, embora nessa altura já fosse major, e é uma das muitas pessoas a que nós todos devemos a liberdade”, acrescentou.

Neste “dia de tristeza”, continuou, deve lembrar-se a “sua memória e a sua contribuição para que a mais longa ditadura da Europa, o Estado Novo, tivesse caído e a democracia se instaurasse em Portugal”.

“Todos devemos recordar que foi ele, com a sua capacidade estratégica e operacional, que comandou a ação militar em 25 de Abril de 1974, que pôs fim à ditadura sem qualquer derramamento de sangue”, recordou o ministro.

Lembrando que Otelo “costumava dizer que o 25 de Abril tinha sido o dia mais feliz da sua vida”, Augusto Santos Silva enfatizou ser também por essa data que “mais merece ser lembrado”.

“Como militar de Abril, depois da avaliação completa, isenta, distanciada no tempo, de tudo o que nós vamos fazendo, a História fá-lo-á no devido momento. A ele devemos o que somos hoje, uma democracia pluralista, europeia, civilista e um país que vive em paz e para o qual a ditadura é apenas uma memória de um tempo a que ninguém quer voltar”, assinalou.

Carlos Matos Gomes destaca instinto do capitão de Abril em trazer o povo para a revolução

O ex-militar Carlos Matos Gomes destacou o instinto de Otelo Saraiva de Carvalho de trazer o povo para a revolução do 25 de abril, que sem ele teria sido apenas um golpe de estado militar.

“O grande relevo [de Otelo Saraiva de Carvalho] é o de ter tido o instinto de trazer o povo para a revolução, porque senão o 25 Abril teria sido um mero golpe de Estado militar”, disse à agência Lusa Carlos Matos Gomes.

Amigo de Otelo desde 1972, quando ambos cumpriram serviço militar na Guiné, o ex-militar e historiador da Guerra Colonial lembrou que foi o capitão de abril que hoje morreu que, logo no dia 26 de abril de 1974, foi “a favor de o povo vir para a rua, de o povo tomar voz e participar no processo político”.

“Ele nunca impede, nem nunca impõe a Salgueiro Maia, nem a nenhum dos oficiais envolvidos, que afaste o povo dos locais das operações, com os riscos todos” que tal poderia implicar, acrescentou.

No entender do ex-militar, que com Otelo participou desde o início nas reuniões do Movimento dos Capitães, foi Otelo quem motivou “os portugueses a tomar o destino nas suas mãos”, no âmbito de um processo político que, “em Portugal é revelador deste impulso essencial que é trazer o povo para dentro das mudanças sociais e políticas”.

Uma postura que Otelo assumiu sempre, “mesmo como as suas contradições”, afirmou, destacando-o como “uma figura única na nossa história” e um “líder popular que tem uma ideia e tenta concretizá-la, com erros, porventura com excessos”, mas, sem deixar de ser “uma figura ímpar no processo político português e nos processos políticos que ocorrem e que ocorreram na Europa”, concluiu.

Raimundo Narciso evoca Otelo como a principal figura da revolução

O antifascista e antigo membro do comité central do PCP Raimundo Narciso evocou hoje Otelo Saraiva de Carvalho como a "principal figura da revolução do 25 de Abril pelo seu papel na coordenação do movimento das Forças Armadas".

Em declarações à agência Lusa, Raimundo Narciso, que já foi membro da direção da Associação do 25 de Abril, lembrou ainda o papel desempenhado por Otelo Saraiva durante o "período revolucionário", logo a seguir ao 25 de abril, admitindo que, mais tarde, o ora falecido se tenha tornado posteriormente numa "figura controversa".

"É contudo do ponto de vista político uma figura controversa, mas teve o apoio da esquerda e dos populares e nunca deixou de ser uma figura carismática", observou.

Segundo Raimundo Narciso, a participação de Otelo no caso das FP-25 de Abril acabou por prejudicar a sua imagem, mas isso "não pode fazer esquecer o seu papel na organização".

"Otelo nunca deixou de ser uma figura simbólica do 25 de abril e que tem a simpatia do povo português", conclui Raimundo Narciso.

Antigo membro do PCP e um dos maiores ativistas da ARA (Acção Revolucionária Armada), criada pelo PCP na clandestindade para lutar contra as guerras coloniais que envolviam Portugal e impulsionar o derrube do regime e da ditadura implantada em 1926, Narciso Raimundo foi expulso do PCP em novembro de 1991, por contestar a posição da direção do PCP, de apoio ao "fracassado golpe de Moscovo para afastar Gorbatchev", Raimundo Narciso foi um dos fundadores da Plataforma de Esquerda (1992/95).

Em 1995, em representação da Plataforma de Esquerda, no âmbito de um acordo com Jorge Sampaio e depois com António Guterres, integrou, como independente, a lista de deputados do PS, por Lisboa. Em 1998 filiou-se no PS.

"Símbolo de uma revolução" que libertou o país da ditadura, lembra Manuel Begonha

O comandante Manuel Begonha considera que Otelo Saraiva de Carvalho foi um dos grandes heróis do 25 de Abril e símbolo de uma revolução que libertou o país da ditadura.

“Apesar de termos tido algumas divergências, não quero deixar de manifestar a minha consideração e estima por um homem que foi, sem dúvida, um dos grandes heróis do 25 de Abril e símbolo de uma revolução que nos libertou de uma ditadura”, afirmou Manuel Begonha à agência Lusa.

Para o comandante, “Otelo Saraiva de Carvalho foi um homem cativante, de diálogo fácil e de uma forte empatia, cuja presença não podia passar despercebida”, referindo ainda que “alguns erros cometidos não apagam o essencial de uma figura notável do panorama político português”.

“É, pois, com profundo pesar que registo a sua morte, apresentando à família e aos amigos os meus sentidos pêsames”, acrescentou.

Manuel Begonha, de 77 anos, participou ativamente em todo o processo do 25 de Abril, sobretudo como membro do Conselho de classes da Armada e da Assembleia do Movimento das Forças Armadas. Foi delegado do Conselho da Revolução em várias comissões governamentais e membro da 5.ª Divisão do Estado-Maior-General das Forças Armadas, onde coordenou as Campanhas de Dinamização Cultural.

Atualmente, é presidente da mesa da assembleia geral da Associação Conquistas da Revolução.

MPLA lamenta morte de “cidadão do mundo” engajado na luta pela justiça social

“Foi com profundo sentimento de pesar que o Secretariado do Bureau Político do MPLA tomou conhecimento da morte do revolucionário português Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho, um dos principais estrategas do 25 de Abril de 1974, ocorrida este domingo, 25 de julho de 2021, em Lisboa, vitima de doença aos 84 anos de idade”, salienta uma nota do secretariado do Bureau Político (BP) do partido, que governa Angola desde a independência do país, em 1975.

O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), partido de matriz marxista-leninista que se apresenta atualmente como assente na ideologia social-democrata, endereçou “sentidas condolências” à família e ao povo português, e salientou que a morte de Otelo representa a perda de um cidadão do mundo “dedicado e engajado na luta pela justiça social e por uma maior igualdade social entre os homens”.

“Pelo infortúnio, o Secretariado do Bureau Político do Comité Central do MPLA inclina-se perante a memória do malogrado, endereçando à família enlutada e ao povo português, sentidas condolências”, concluiu a nota do BP do MPLA.

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