“As religiões são caminhos diferentes para um mesmo ponto. Que interessa usarmos itinerários diferentes, desde que cheguemos ao mesmo objetivo”. A citação é de Gandhi, mas podia ter sido dita por qualquer um dos oradores presentes no grande auditório do ISCTE. Quanto à conversa que se deu, esta só foi possível porque Francisco, em 2006, antes de chegar ao Vaticano, decidiu criar o Instituto do Diálogo Inter-Religioso (IDI) da Argentina, com a missão de promover a compreensão dos homens de fé, o diálogo e a coexistência pacífica entre homens e mulheres de diferentes tradições religiosas.

Neste encontro em Lisboa marcaram presença o padre Guillermo Marcó, da Igreja Católica; o rabino Daniel Goldman e Omar Abboud, da comunidade islâmica — os três diretores do IDI. Entre eles, uma certeza: são amigos e ouvem-se uns aos outros — e todos os que com eles quiserem falar — no que toca a religião. O SAPO 24 aceitou o convite e juntou-se à conversa.

Mas falar de Diálogo Inter-religioso não é tarefa simples. “As principais dificuldades estão no interior de cada uma das tradições religiosas. Às vezes avançamos e retrocedemos, avançamos e retrocedemos. Mas não temos de ter medo disso. A vida toda é feita de avanços e retrocessos. Nesse sentido, queremos deixar algo melhor para os nossos filhos do que aquilo que os nossos pais deixaram neste mundo para nós”, começa por explicar Daniel Goldman.

"O problema, muitas vezes, não é a religiosidade, mas sim a instituição religiosa"

Neste sentido, o Pe. Guillermo Marcó revela algumas das estratégias do Instituto para garantir se dão mais passos em frente que recuos. “Temos vários programas que estão abertos a todas as tradições [religiosas] — são cursos de valores religiosos, onde os professores são de todas as tradições que existem na Argentina. O objetivo é dar aos que creem aquilo em que pensar. Não é um espaço para discutir, é um espaço apenas para escutar. Temos também um programa que vai às escolas e fala do diálogo como valor de integração. Aqui também há espaço para falar de bullying na escola, por exemplo. O mais importante é que miúdos com tradições religiosas diferentes se conheçam e que estabeleçam diálogo”, explica.

Mas é preciso saber como abordar os temas, porque as palavras também ferem e confundem. “A linguagem é um valor e tem valores que são compatíveis, similares, diferentes ou incompatíveis. A questão está em pensar de que maneira estamos dispostos a juntar aqueles valores que são compatíveis uns com os outros. Num segundo plano, temos de pensar que as religiões são como as línguas: não existe uma língua verdadeira e uma língua falsa. A língua pratica-se. O problema, muitas vezes, não é a religiosidade, mas sim a instituição religiosa. É ela que estabelece quem fica deste lado ou quem fica do outro”, diz Daniel Goldman.

Todavia, há solução. “Temos de estabelecer pontes. O trabalho que há para fazer é este. Houve um filósofo chamado Martin Buber que dizia que não existe o 'eu'; existe o 'eu em relação a'. A questão é como se faz para passar do 'eu, ele' para uma relação 'eu, tu'. Esse é o desafio”, acrescenta.

Ao SAPO 24, também Abboud acrescenta à receita para o sucesso quando se lida com pessoas que professam diferentes credos. “Temos de respeitar o outro. Cada vez caminhamos mais num mundo onde parece que estamos sozinhos, e o diálogo inter-religioso ensina-nos que temos os outros e que temos de saber ouvi-los”, começa por dizer.

"Nós não somos donos da verdade, não somos educadores de certezas"

“Além disso, temos de perceber que vivemos todos debaixo do mesmo céu. É certo que temos independência de atitudes, diferentes estratos sociais, diferentes perspetivas, mas temos um ponto comum: somos Homens e temos uma Casa Comum que é a Terra. (...) Às vezes existem mal-entendidos, incompreensão, mas temos de acabar com isso. O diálogo inter-religioso é uma das hipóteses para diluir essa incompreensão”, remata.

"A tolerância é sinónimo de poder"

Quando se fala da relação entre diferentes religiões vem facilmente à conversa a palavra “tolerância”. Mas erradamente. “Nós não gostamos de usar a palavra tolerância. A tolerância é sinónimo de poder. Quem tolera? O poderoso. Então, quando existe o poderoso frente ao indivíduo que não tem poder, a relação nunca é uma relação saudável, nunca é uma relação equivalente. Da tolerância passamos, sim, à coexistência, que significa reconhecer que existe outro na minha existência. E isto permite chegar ao último aspeto que é a convivência. Eu não posso viver se não existe o outro”, clarifica Daniel Goldman.

Além disso, há uma outra regra chave a ter em consideração e essa é-nos contada pelo Pe. Marcó. “O fundamentalismo não é a verdade. Nós não somos donos da verdade, não somos educadores de certezas. Queremos ensinar bem para se viver e para crer, mas a verdade não somos nós que a temos. É preciso ensinar, dar espaço. Quando as pessoas se agarram a estas atitudes [fundamentalistas], é quando se produzem tragédias. Ninguém é dono da razão. É preciso aprender um pouco sobre os outros”, aponta.

"O mundo é composto por mil e quinhentos milhões de muçulmanos. Se houvesse assim uma percentagem tão grande de terroristas seria um mundo em chamas"

Omar Abboud acrescenta que “a ideia de associar fundamentalismo e terrorismo ao islão vem também das séries, dos filmes de Hollywood e dos livros que apresentam o islão como incompatível com o valor da liberdade e da democracia”. E a própria História dos países de maioria islâmica também acaba por agudizar o conflito. Contudo, há também “parcialidade quando se trata o tema”, diz.

“Rapidamente um muçulmano é associado a uma ideia de violência, porque também é isso que se ensina no mundo. O diálogo inter-religioso trata de mostrar que essa não é a realidade. O mundo é composto por mil e quinhentos milhões de muçulmanos. Se houvesse assim uma percentagem tão grande de terroristas seria um mundo em chamas”, conclui.

Para Daniel Goldman, o fundamental é renunciar ao medo. “Houve um rabino que se chamava Reb Nachman de Bratslav e ele dizia que este mundo é uma ponte muito estreita, mas a questão é não ter medo. Não ter medo do outro, não ter medo de si mesmo. Muitas vezes vamos sentir que o outro discrimina, mas eu tenho de pensar também quantas vezes eu discrimino o outro. Ninguém é um anjo, mas também ninguém é o diabo”, atira com um sorriso.

Da Argentina para Portugal, a vontade de alargar o diálogo

Oscar Moscariello, Embaixador da República Argentina em Portugal, moderou a conversa e frisou também ele a importância do diálogo. “Todos [os aqui presentes] compreendem como as barreiras da diferença podem ser derrubadas com o diálogo”, referiu. “É a única atitude [possível]: é um diálogo de consciência face às diferenças. Quando em algum lugar do mundo se entra no caminho da confrontação e da violência, ficam ressentimentos que tomam outro caminho”.

"É importante ver o que se faz na Argentina e em Portugal para que isso possa ser replicado noutros sítios pelo mundo."

A solução está, portanto, em “caminhar-se por um diálogo construtivo, para superar as diferenças históricas”. “A sociedade precisa de transitar para o caminho da reflexão”, considera.

No que diz respeito ao diálogo inter-religioso, Portugal e Argentina são semelhantes. E, porque aquilo que fazem é bom, devem ser imitados. “É importante ver o que se faz na Argentina e em Portugal para que isso possa ser replicado noutros sítios pelo mundo. A possibilidade de dialogar aparece como uma janela de soluções para os problemas que é preciso resolver. É preciso trabalho, diálogo, entendimento entre os homens de fé”, ressalta Moscariello.

"Se o mundo é plano, devemos transformá-lo num universo de proximidade. Cabe-nos a nós garantir que o universo não tenha 'un solo verso’"

Daniel Goldman traz à plateia imagens fortes por meio de palavras, reforçando as de Moscariello. “Thomas Friedman escreveu há uns anos um livro que se chama 'O mundo é plano'. O mundo tende à homogeneidade. O mundo é uniforme, superficial. O Instituto de Diálogo Inter-Religioso quer quebrar esta metáfora, este mundo plano. Queremos construir outra topografia. Se o mundo é plano, devemos transformá-lo num universo de proximidade. Cabe-nos a nós garantir que o universo não tenha 'un solo verso’ [um só lado]”. Todavia, Goldman reconhece que o mundo “está a ficar cada vez mais pequeno”. E fica assim quando “os interesses particulares se sobrepõem aos da comunidade”. É então preciso agir.

No caso das religiões essa é também uma certeza. “O diálogo é uma atividade redentora. A redenção é uma força centrípeta, ou seja, que se produz das margens ao centro, como se diz na Física. A atividade redentora indica-nos que o diálogo permite dar a profundidade e partilhar a vivência que deriva da convivência. Quando falamos em diálogo estamos a falar da possibilidade de estabelecer um vínculo”, afirma.

"Nós não estamos a pensar quais vão ser as muralhas, mas sim quais vão ser as pontes"

E esse vínculo pode começar assim, no convívio entre amigos de diferentes credos, numa conversa que se iniciou em 2006, promovida pelo então Cardeal Jorge Bergoglio, hoje Papa Francisco. “Nós não representamos as comunidades. O padre Marcó não representa os católicos nem Omar Abboud representa os muçulmanos. Nós somos três amigos que decidimos começar a pensar de uma maneira diferente e ser um pouco mais sensatos. Vemos sempre qual é o mundo que queremos deixar. Foi a partir dessa premissa que começámos a construir este Instituto do Diálogo”, explica Goldman.

Contudo, há uma aproximação das comunidades e essa relação nem sempre é fácil. “Há tensões, tem as suas brigas. Mas nós não estamos a pensar quais vão ser as muralhas, mas sim quais vão ser as pontes. Quando uma instituição fica mais aberta é muito saudável para com o mundo, para com a sociedade. Isso foi aquilo que nos inspirou”.

Abboud detalha: “Entre 2000 e 2001 houve na Argentina uma crise a nível social e económico e o certo é que os grupos religiosos começaram a relacionar-se para dar respostas solidárias à população. Aí, e pela mão do Cardeal Bergoglio, surge a ideia de começar a criar uma resposta permanente. Estava criado o Instituto.”

Francisco, a “grande autoridade espiritual do mundo moderno”

Para Daniel Goldman, a maior lição que se pode aprender com o Papa Francisco, independentemente da religião que se professa, vem mesmo desta relação com o outro numa casa comum. “Há muitas coisas que se aprendem com o Papa Francisco. Mas diria que a maior é como transformamos o mundo num espaço onde as pessoas são responsáveis pela sua casa comum. O mundo é a casa comum que temos de preservar, para que seja um mundo melhor. Essa é a lição que eu aprendi com o Papa”.

"Quando me encontro com ele [com o Papa] vejo que é uma pessoa que não mudou. E deve ser difícil não mudar quando se está no lugar dele"

Já para o padre argentino, o Papa ensina — qual parábola presente no Evangelho — que os pequenos também contam. “Francisco é uma pessoa que essencialmente sabe escutar e tem uma grande sabedoria. Tem uma capacidade enorme de trabalhar e isso permite-lhe ocupar-se de coisas grandes mas também das mais pequenas. O Papa, quando era bispo de Buenos Aires, não deixava de prestar atenção ao seio político, a uma situação social complexa, mas também o encontravam a falar com uma senhora que tivesse um problema. Não era nenhuma pessoa importante, era mais uma pessoa. E era importante ouvir os pequenos. Isto é das lições mais completas. Quando foi eleito Papa, seguiu estes pressupostos. Pode ter muitas coisas para fazer, mas não é capaz de contestar a carta de uma pessoa que lhe escreve com uma qualquer dor. Graças a Deus nunca perdeu estas coisas. Quando me encontro com ele vejo que é uma pessoa que não mudou. E deve ser difícil não mudar quando se está no lugar dele [enquanto Papa].

Omar Abboud refere ainda que “Francisco tem imensa coerência em termos de pensamento” e é isso que sempre passou — e continua a passar — para todos. “Há muitas coisas que nos ensinou e que ainda nos surpreendem. A luta contra a pobreza, contra o maltrato de pessoas, contra qualquer forma de terrorismo ou de fundamentalismo são frequentes em todos os anos de Bergoglio. Em Buenos Aires, nos livros que publicava, nas notícias, hoje como Papa. O papel dele é denunciar todas essas coisas. O centro é sempre a luta contra a injustiça. Ele é um pastor, há sempre essa perspetiva como católico. Mas eu, como muçulmano, digo que Francisco é a grande autoridade espiritual do mundo moderno”, remata.

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