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Até sempre, Bibota

Até sempre, Bibota
MANUEL FERNANDO ARAÚJO/LUSA

Nem a chuva torrencial fez esmorecer as centenas que este domingo se quiseram despedir de Fernando Gomes, o histórico avançado português que faleceu este sábado, aos 66 anos, vítima de doença prolongada.

No adeus, recordou-se "um dos grandes", "um autêntico senhor", "uma pessoa capaz de criar unanimidade", sempre respeitador dos rivais, cordial e humilde, uma representação de que o futebol também pode ser sinónimo de "desenvolvimento, cultura, harmonia e exemplaridade para a sociedade".

"Um exemplo".

O velório teve lugar na Igreja de Santo António das Antas, onde decorreu também uma missa em memória do atleta que se notorizou ao serviço do FC Porto. O cortejo fúnebre saiu da capela debaixo de uma chuva de aplausos e desceu a Alameda das Antas rumo ao Estádio do Dragão, cercado por adeptos, que entoaram o nome do ‘bibota’ e o hino do FC Porto. A cerimónia reservada à família teve lugar sanatório da Lapa, contando com a presença de Jorge Nuno Pinto da Costa.

Fernando Gomes distinguiu-se como avançado prolífico na década de 1980 e testemunhou momentos capitais da emancipação do clube da sua cidade-natal, recebendo o popular epíteto de ‘bibota’ após 452 jogos, 355 golos e 14 títulos coletivos.

Tornou-se o 'artilheiro’ dos campeonatos europeus (1982/83 e 1984/85) na segunda passagem pelo FC Porto (1982-1989), através do qual se formou e revelou (1974-1980), juntando cinco conquistas da então designada I Divisão e seis distinções de melhor marcador, três Taças de Portugal e outras três Supertaças Cândido de Oliveira.

Finalizador por excelência, o capitão e dono da camisola nove contribuiu além-fronteiras para os inéditos êxitos dos ‘azuis e brancos’ na Taça dos Campeões Europeus, na Taça Intercontinental e na Supertaça Europeia, obtidos entre maio de 1987 e janeiro de 1988.

Com 47 internacionalizações e 13 golos pela seleção portuguesa, que representou nas fases finais do Euro1984 e do Mundial1986, perante a concorrência de pontas-de-lança como Rui Jordão, Manuel Fernandes ou Nené, evoluiu ainda nos espanhóis do Sporting de Gijón (1980-1982) para se despedir dos relvados ao serviço do Sporting (1989-1991).

Nascido em 22 de novembro de 1956, em Campanhã, Fernando Mendes Soares Gomes começou por sobressair no andebol dos Salesianos, mas acabaria por chamar à atenção do treinador e coordenador da formação do FC Porto, António Feliciano, num torneio de futebol de salão do Académico, passando a alinhar pelas equipas de base dos ‘dragões’.

A estreia como sénior deu-se aos 17 anos, em setembro de 1974, pela mão do treinador brasileiro Aymoré Moreira, sendo eternizada logo com um ‘bis’ no triunfo caseiro sobre a CUF (2-1), para vaticinar um percurso de elite pautado pela forte intimidade com o golo.

Assumindo rapidamente a titularidade, esperou três épocas para conquistar os primeiros troféus no FC Porto, ao unir o prémio de melhor marcador da edição 1976/77 da I Liga à Taça de Portugal, cuja final ante o Sporting de Braga foi decidida com um golo seu (1-0).

Fernando Gomes revalidou a Bola de Prata nas duas temporadas seguintes (1977/78 e 1978/79), quando o FC Porto se sagrou bicampeão nacional para culminar um ‘jejum’ de 19 anos na I Divisão, antes de viver uma época ‘em branco’ e o ‘verão quente’ de 1980.

Jorge Nuno Pinto da Costa, então chefe de departamento, e o plantel saíram em defesa do treinador José Maria Pedroto, que havia sido despedido pelo presidente Américo de Sá, mas, se a maioria dos dissidentes regressariam às Antas, o dianteiro mudou de país.

Numa altura em que poucos futebolistas lusos emigravam, Fernando Gomes colmatou a partida de Quini, figura lendária do Sporting de Gijón, para o FC Barcelona, embora uma lesão no tendão de Aquiles o tenha limitado a 33 jogos e 16 tentos durante duas épocas.

Pinto da Costa iniciara, entretanto, o mandato presidencial no FC Porto e comprometera-se com o regresso do goleador às Antas, de novo sob orientação de José Maria Pedroto, que o levou à quarta Bola de Prata e à primeira Bota de Ouro - 36 golos em 29 jornadas.

O papel de ‘artilheiro’ máximo da I Divisão manteve-se em 1983/84, quando os ‘dragões’ celebraram a Taça de Portugal e a Supertaça Cândido de Oliveira, vacilando na decisão da Taça das Taças frente aos italianos da Juventus (1-2), na estreia em finais europeias.

Fernando Gomes recebeu a carismática alcunha de ‘bibota’ em 1984/85, ao marcar 39 golos nas 30 jornadas para o primeiro campeonato em seis anos do FC Porto, que seria revalidado na época seguinte, entre mais um par de êxitos na Supertaça (1984 e 1986).

Essa melhor fase contemplou cinco golos no percurso até à final da Taça dos Campeões Europeus em 1986/87, experienciando, porém, de fora das quatro linhas o êxito sobre os alemães do Bayern Munique (2-1), em Viena, culpa de uma fratura da tíbia e do perónio.

Recuperou a tempo de capitanear o FC Porto na Taça Intercontinental, abrindo a vitória ante os uruguaios do Penãrol (2-1, após prolongamento), na neve de Tóquio, intercalada pelos dois triunfos (1-0) aos neerlandeses do Ajax para a Supertaça europeia de 1987.

Por essa altura, já o treinador croata Tomislav Ivić, sucessor do campeão europeu Artur Jorge para 1987/88, assumira que a ‘era’ Fernando Gomes estava perto do fim, gerando contestação nos adeptos, diluída após a segunda ‘dobradinha’ de sempre dos ‘dragões’.

A serenidade seria provisoriamente reposta com Quinito, mas o insucesso desportivo fez regressar Artur Jorge e do adjunto Octávio Machado, com quem o atleta se desentendeu, sendo suspenso e alvo de um processo disciplinar até à despedida das Antas, em 1989.

Fernando Gomes rumou ao Sporting para as últimas duas épocas da carreira e manteve intacta a excelência no remate com o pé e de cabeça, além da mobilidade na área e da técnica para combinar com os companheiros de equipa, ao totalizar 79 jogos e 38 golos.

Reconhecido pelo seu profissionalismo, cultura dominante em entrevistas e espirituosas tiradas, o segundo de três lusos a vencer a Bota de Ouro - entre as duas de Eusébio e as quatro de Cristiano Ronaldo - foi figura consensual na modalidade e esteve sempre por perto do FC Porto, cuja ligação reatou formalmente em 2010 através de cargos diretivos.

Com Lusa

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