A 10 de novembro de 2015, o secretário-geral do PS, António Costa, recebeu numa sala do edifício novo da Assembleia da República, sucessivamente, com intervalos de alguns minutos entre as diferentes delegações partidárias, os líderes do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, do PCP, Jerónimo de Sousa, e de "Os Verdes", Heloísa Apolónia.

Cada partido assinou o seu acordo de Governo com o PS. Tudo longe da presença dos jornalistas e sem que nunca Bloco de Esquerda, PCP e "Os Verdes" se cruzassem na mesma sala.

Este novo esquema surpreendeu a generalidade dos observadores políticos pela sua originalidade na história democrática portuguesa no que respeita a acordos de Governo, e poucos, por certo, previram que esse mesmo método de reuniões separadas e exclusivamente bilaterais entre Governo/PS, com Bloco de Esquerda, PCP e "Os Verdes" se mantivesse até hoje.

Imediatamente após a posse do XXI Governo Constitucional, minoritário socialista e liderado por António Costa, o PS chegou a ponderar a possibilidade de as terças-feiras de cada semana serem destinadas à realização de reuniões conjuntas com as direções parlamentares do Bloco de Esquerda, PCP e "Os Verdes".

O objetivo dos socialistas era nessas terças-feiras preparar e concertar em detalhe as posições a adotar pela maioria de esquerda nas reuniões do dia seguinte, da conferência de líderes parlamentares, onde já se sentam os presidentes das bancadas da oposição, PSD e CDS-PP.

Mas essa solução mereceu desde logo a rejeição do PCP.

Sob a coordenação do secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Pedro Nuno Santos, Governo e PS passaram a procurar definir agenda, concertar posições, antecipar riscos e diluir divergências com Bloco de Esquerda, PCP e "Os Verdes" sempre por via de reuniões bilaterais.

Com o Bloco de Esquerda, Governo e PS formaram cinco grupos de trabalho temáticos, entre os quais o do combate à precariedade, pensões e combate à pobreza, sustentabilidade da dívida externa e tributação do património imobiliário. Mas com o PCP não, sendo neste caso as conversações mantidas entre os responsáveis comunistas por cada área setorial com os membros do Governo que tutelam essa mesma área (ou com os seus homólogos socialistas no quadro parlamentar).

Ao fim de um ano de vigência, este método registou alguns acidentes de percurso, apesar de ter começado bem quando o PS aceitou repartir com o Bloco de Esquerda e o PCP os três lugares de indicação que dispunha para o Conselho de Estado.

Em julho passado, no processo de escolha de três dos cinco juízes para o Tribunal Constitucional, o critério de repartição dos socialistas mudou e o consenso acabou.

Após um entendimento com o PSD para assegurar os dois terços necessários de aprovação em plenário, o PS avocou para si a escolha de dois dos nomes, deixando o terceiro para o Bloco de Esquerda.

Imediatamente, a direção do PCP reagiu e emitiu uma nota com um protesto veemente, acusando PSD, PS e Bloco de Esquerda de terem usado "critérios discriminatórios" para excluírem os comunistas do processo de escolha de juízes para o Tribunal Constitucional.

Nas últimas semanas, o PCP manifestou também o seu descontentamento por o Bloco de Esquerda se ter adiantado nos anúncios públicos sobre acordos de princípio com o Governo em matérias como o adicional de Imposto Municipal sobre Imóveis ou sobre combate a falsos recibos verdes e estágios.

Numa reação a declarações da dirigente do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua sobre a criação do adicional de IMI para património de elevado valor (no Orçamento para 2017 está fixado a partir dos 600 mil euros), o líder parlamentar do PCP, João Oliveira, escreveu no jornal oficial do seu partido, "Avante!": "Andam uns a juntar com o bico e outros a espalhar com as patas?".

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