Três meses depois, 20 concorrentes, uma expulsão, uma desistência, dois 'grupos', quatro casais, vários líderes, um sem número de polémicas, e de vezes que a Sónia disse querer sair, e uma final líder de audiências. Em síntese, foi assim a última edição do Big Brother, que ontem terminou e que deu à TVI,  do princípio ao fim da emissão, a liderança com uma audiência média de um milhão e 400 mil espetadores, para um share de 32,8%.

Resumir um reality show, e este em concreto, não é tarefa fácil. De acordo com o comunicado enviado esta segunda-feira pela estação, "foram 13 semanas de BB, que apaixonaram os portugueses, com uma audiência média superior a 1 milhão de espetadores e uma quota de 26%".

O BB2020 foi ganho pela Soraia, uma jovem na casa dos vinte anos, que não vê maldade no mundo. Em segundo e terceiro lugar ficaram Diogo e Noélia, um nómada digital e uma trabalhadora compulsiva, respetivamente. Iury (a miss com nojo a baratas — "elas são canibais"), Ana Catharina (a vegana feminista — "abro as pernas para quem eu quiser”) e Sandrina (a turbinada e mais jovem da casa — "badminta")  foram as restantes seis finalistas.

Era para começar em março, mas a pandemia atrasou os planos. Primeiro veio o Zoom, onde os concorrentes viveram duas semanas em quartos de hotel separados dos colegas; depois, 'a Casa'. Aquela onde 'só quem está lá dentro é que sabe' — um dos muitos jargões que o formato trouxe. Duas décadas separam esta edição da primeira: a do Marco, da Marta, do Telmo. E do Zé Maria, claro.

Mas o mundo mudou e o Big Brother acompanhou a mudança. Da Venda do Pinheiro para a Ericeira, não foi apenas a localização que sofreu alterações. A voz do Big Brother passou a ser o 21º concorrente e um líder, escolhido à semana, passou a ter um papel de relevo na organização das tarefas. Veganismo, direitos LGBT e dos animais, empoderamento feminino, desperdício alimentar. Nesta edição discutiu-se de tudo um pouco, sem preconceitos. E o valor de um orçamento semanal foi inclusive doado ao Banco Alimentar Contra a Fome.

E mais? Para ajudar a explicar este "Big Brother do Século XXI" pedimos a ajuda de Eduardo Cintra Torres, professor na Universidade Católica de Lisboa e autor de mais de 19 títulos, entre os quais "Televisão do Século XXI" e "A Tragédia Televisiva", e de Pedro Paulos, criador de conteúdos e podcaster.

Big Brother urbano, intelectual e mais consciente

Vinte anos depois, os portugueses continuam a "gostar de acompanhar a novela da vida real".

O impacto do programa continua a ser grande (na sociedade e audiências), mas não é o mesmo da edição de estreia, analisa Eduardo Cintra Torres. Para o professor, não é complicado explicar o porquê: "O país evoluiu, há mais canais e mais oferta".

Para Cintra Torres, "o Big Brother há vinte anos era rural e agora já tem mais a dimensão urbana". Causa ou razão disso, nesta edição, "houve um pequeno upgrade em relação ao perfil dos concorrentes", com "mais urbanidade" e "mais vida". "Mostravam ter uma consciência maior das questões sociais e da realidade, com uma boa argumentação. Isso não era frequente nas primeiras edições", explica.

Sobre uma atualização das questões abordadas, o professor diz que tal já não é novidade nem um exclusivo desta edição. "A televisão acompanha a vida real" e "noutros países esses temas já vinham sendo abordados", explica. A homossexualidade ou o feminismo "já não são coisas que dividem a sociedade; é sempre bom falar delas, desde que bem e com alguma racionalidade". Porque, resume, "este tipo de programas abrange um público amplo".

A Casa das 'pessoas como nós'

"Acho normal que uma pessoa com curiosidade no que passa à sua volta tenha interesse no Big Brother".

Pedro Paulos enquadra-se no perfil que descreve. Viu, assume e não tem problemas em falar sobre o tema, aqui ou no Twitter (e foi por essa via que chegámos até ele). Para o podcaster ("Brandos Costumes" ou "Obridado, Internet"), esta foi uma edição diferente. "Com esta edição provou-se que pessoas como nós podem estar num reality show", atirou.

Assumindo como redutora expressão "pessoas como nós", o criador de conteúdos demora-se um pouco mais sobre o que queria dizer. "Pessoas como nós, estão num programa de televisão, a fazer o que fazemos no dia-a-dia e aquilo é televisão", clarifica.

"Nesta edição, houve uma quebra no paradigma dos reality shows. Há uma disrupção das fórmulas que tinham sido criadas nos últimos dez-quinze anos", continua. Mas, comparando com a estreia do formato em Portugal, "não sinto que tenha sido um fenómeno ao nível da primeira edição, onde era uma coisa nova".

E por falar na rede social do passarinho azul, onde, quase diariamente, os temas da 'Casa' eram tendência (trending topic), para Pedro Paulos, "o Big Brother foi um grande motor para trazer as pessoas para o Twitter". "Era o canal de comunicação direto das pessoas que eram fãs dos finalistas", assume por experiência.

Sobre a próxima edição, com data prevista para setembro, o criador de conteúdos teme que haja a tentativa de replicar esta "fórmula". "A parte interessante estará na forma como os participantes se vão adaptar ao vivido nesta edição", antecipa.

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