O cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique, presidente da Conferência Episcopal Alemã (DBK) e membro do pequeno grupo de cardeais conselheiros do Papa para a reforma católica, escreveu entretanto ao seu colega Marc Ouellet, o canadiano que preside à Congregação dos Bispos. Na carta enviada e que foi noticiada domingo pelo diário Frankfurter Allgemeine Zeitung, Marx defende firmemente o “procedimento sinodal” e diz que teria sido mais útil se o Vaticano tivesse procurado conversar com os bispos alemães “antes de enviar documentos”, de acordo com o semanário católico britânico The Tablet. Ainda por cima, acrescenta o cardeal, as posições do Vaticano relacionam-se com um esboço de regulamento que já foi revisto e está ultrapassado.

O cardeal Marx está, desde esta quarta-feira, em Roma para argumentar diretamente junto dos responsáveis do Vaticano – e, possivelmente, reunir com o Papa – defendendo o processo que os bispos alemães iniciaram em conjunto com o Comité Central dos Católicos Alemães (leigos). O “caminho sinodal” tem sido incentivado pelo próprio Papa mas, em relação a este caso concreto, Francisco alertou, numa carta aos católicos alemães em junho, para a necessidade de manter sempre viva e efetiva a comunhão com todo o corpo da Igreja”.

O cardeal Marx diz ainda que os bispos devem poder debater todas as questões, na carta referida pelo Zeitung, que constitui uma resposta às objeções levantadas pelo cardeal Ouellet, enviada dia 4 deste mês para a Alemanha, e que se apoiava numa avaliação do Conselho Pontifício para os Textos Legislativos. De acordo com o ACI Digital, um portal de notícias católico, está em causa o “caminho sinodal” de dois anos que os bispos e os crentes alemães estão a preparar. Ele viola as normas canónicas, diz aquele organismo do Vaticano.

“Caminho sinodal” não é arbitrário

Está em causa um “caminho sinodal”, explica Joaquim Nunes, assistente pastoral da Igreja Católica em Offenbach e colaborador do 7MARGENS. A expressão é, aliás, o título da página sobre a iniciativa no portal digital do episcopado alemão. “A linguagem não é arbitrária. O cardeal Ouellet acusa a Igreja alemã de estar a preparar um sínodo sem a permissão de Roma. Mas não. Não é ‘sínodo’, mas sim uma reflexão por caminhos sinodais. Nada será decidido, mas tudo será discutido”, diz Joaquim Nunes, que há quatro décadas trabalha em estruturas católicas alemãs.

O caminho sinodal decidido pelos bispos “é um processo de reflexão, do qual os leigos (representados pelo ZdK) também são convidados a fazer parte”, diz Joaquim Nunes. Citado pelo El País, Matthias Katsch, do conselho de vítimas de abusos, confirma que a escolha do título foi a maneira de evitar a figura do, que tem regras muito estritas. “Assim, haverá mais liberdade para discutir e para incluir representantes da sociedade civil”, um passo que o próprio Papa pedira, argumenta. “Os bispos deram-se conta de que há una crise profunda na Igreja, mas em Roma não entendem a urgência.”

A lista dos quatro grandes temas foi escolhida “não a partir do Código de Direito Canónico ou das encíclicas papais mas da situação que a Igreja atravessa, analisada por diversos estudos científicos de observadores exteriores e independentes”. Um deles, diz Joaquim Nunes, foi encomendado no ano passado pela Conferência Episcopal, após a divulgação dos resultados de uma investigação, encomendada pelos bispos, sobre os abusos sexuais entre o clero e as instituições católicas no país.

Esses temas abrangem o poder, participação e separação de poderes (que inclui também a corresponsabilidade); a moral sexual (incluindo planeamento familiar e homossexualidade); a vida dos padres (onde cabem questões como celibato, solidão, clericalismo ou abusos de poder, mesmo do poder espiritual); e as mulheres nos serviços e ministérios da Igreja. Mesmo que formulados de forma aberta, os temas não podem deixar de fazer tocar as campainhas de alarme junto dos setores que se opõem a qualquer reforma.

O Vaticano também terá reagido ao facto de se prever que a assembleia possa aprovar resoluções em nome de todos os católicos alemães e à própria composição do Sínodo: além dos 69 bispos, nele tomarão parte 70 membros do ZdK (que representa pelo menos 140 organizações e grupos católicos) e os restantes serão padres, diáconos, agentes pastorais, trabalhadores e membros de outros grupos leigos, ainda de acordo com o ACIDigital.

A mesma fonte nota que, com um total de cerca de 200 participantes, os bispos estarão em minoria, uma vez que cada membro da assembleia terá direito a um voto. Mas para aprovar decisões, será necessária uma maioria duplamente qualificada de dois terços: a maioria qualificada de votos totais deve sê-lo também no caso dos bispos – ou seja, terá de haver pelo menos 47 votos de bispos para aprovar qualquer decisão.

“Libertar os obstáculos à evangelização”

O estatuto do Sínodo também prevê outra salvaguarda: “As resoluções que tenham a ver com assuntos reservados ao controlo da Igreja universal serão transmitidas à Sé Apostólica”. Na próxima semana, os bispos, que estarão reunidos em assembleia plenária em Fulda (centro do país) deverá aprovar os estatutos do Sínodo, diz o El País, e o mesmo deverá ser feito pelo ZdK em novembro.

Nenhuma das cautelas estatutárias parece ter sido suficiente para sossegar alguns espíritos no Vaticano. Dali veio o aviso de que vários daqueles temas são competência da Igreja universal – que é como quem diz, da Santa Sé. Mas já na sequência dos sínodos sobre a família, a questão dos divorciados recasados foi objeto do mesmo argumento: uma maioria dos bispos decidiu aplicar à Alemanha o princípio definido pelo Papa na Amoris laetitia, a exortação sobre a família, que prevê decisões dos bispos locais e processos de acompanhamento personalizados dos casais que voltaram a casar. A minoria dos bispos, liderada pelo cardeal Rainer Maria Woelki, arcebispo de Colónia, contestou a decisão da maioria, argumentando que a Conferência Episcopal não poderia mudar uma questão que era competência da Igreja universal.

Trata-se, enfim, de uma tensão crítica numa Igreja em profunda crise, depois da divulgação do relatório sobre os abusos, em 2018, e que registava 3.677 casos de menores abusados desde 1946. Mas já de há anos o catolicismo vinha perdendo fiéis (mais de 216 mil só em 2018), quer por causa das questões da moral individual, quer porque os católicos alemães vivem um intenso diálogo com o protestantismo luterano, que tem uma presença forte no país. Há muitos casamentos entre católicos e protestantes, há inúmeras iniciativas conjuntas e isso abre aos católicos possibilidades de participação na Igreja que, depois, desembocam na frustração pela capacidade de terem lugar nos processos de decisão.

Em 2018, um outro documento dos bispos que pretendia precisamente resolver as dificuldades que se levantam nos casamentos mistos (em que um dos membros do casal é católico e o outro protestante), abrindo a possibilidade de os protestantes casados com católicos que participassem na missa poderiam comungar. A Congregação para a Doutrina da Fé desautorizou o documento.

Na carta, ainda segundo The Tablet, o cardeal Marx faz votos para que os resultados da opinião dos católicos alemães sejam úteis para a Igreja universal. “Nós, bispos, estamos a fazer o que nos comprometemos a fazer como pastores, a fim de libertar a evangelização e a proclamação da mensagem de Cristo dos obstáculos que estão no caminho”, acrescenta.

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