A cerimónia onde se formalizou o fim desta "guerra" pela Ilha de Hans ocorreu em Ottawa, com a presença dos ministros dos Negócios Estrangeiros do Canadá e da Dinamarca.

Dividir a ilha e resolver o conflito que já se arrastava há 49 anos é considerado um modelo para a resolução pacífica das disputas territoriais — numa crítica implícita à guerra desencadeada pela invasão russa da Ucrânia desde o final de fevereiro.

"O Ártico é um farol para a cooperação internacional, onde prevalece o estado de direito", disse a ministra canadiana dos Negócios Estrangeiros, Melanie Joly. "Como a segurança global está ameaçada, é mais importante do que nunca que democracias como Canadá e Dinamarca trabalhem juntas, com os povos indígenas, para resolver as nossas diferenças de acordo com o direito internacional", ressalvou.

A disputa pela Ilha de Hans — de apenas 1,3 quilómetros quadrados e localizada entre Ellesmere e a Groenlândia -— começou em 1973, ano em que foi traçada uma fronteira marítima entre o Canadá e a Groenlândia, território autónomo que integra o reino da Dinamarca.

Dinamarqueses e canadianos sobrevoam a ilha de helicóptero há décadas para reivindicá-la, provocando protestos diplomáticos, campanhas online e até um pedido canadiano para boicotar os doces dinamarqueses.

Durante essas visitas ministeriais, cada lado colocava uma bandeira e deixava uma garrafa de uísque ou licor tradicional para o outro lado desfrutar.

"Muitos chamaram-na de guerra do uísque. Acho que foi a mais amigável de todas as guerras", disse Joly sobre a disputa que motivou as atenções de nada menos que 26 ministros dos Negócios Estrangeiros ao longo dos anos, em conferência de imprensa com o seu homólogo dinamarquês, Jeppe Kofod.

Este último lembrou que a resolução do conflito surge, no entanto, num momento em que “a ordem internacional baseada em regras está sob pressão” e os valores democráticos “estão sob ataque”.

"Vemos graves violações das normas internacionais a desenvolver-se noutras partes do mundo", acrescentou, referindo-se à guerra na Ucrânia. "Pelo contrário, aqui mostramos como disputas antigas podem ser resolvidas pacificamente seguindo as regras", disse o ministro dinamarquês, que espera que esta experiência "inspire outros países a seguir o mesmo caminho".

Os dois líderes trocaram garrafas e riram das sugestões de que o Canadá poderia juntar-se à União Europeia, pois agora compartilha uma fronteira terrestre com a Europa.

O local é inabitável, mas o aquecimento global está a atrair mais tráfego de navios para o Ártico, abrindo-o para a pesca e exploração de recursos, embora talvez não na área específica da Ilha de Hans.

O especialista em assuntos do Ártico Michael Byers observou que "a ilha é tão incrivelmente remota que é economicamente inviável contemplar qualquer atividade séria lá".

No entanto, adiar a resolução dessa disputa territorial foi um bom teatro político para ambos os países. "Foi uma disputa de soberania totalmente livre de riscos entre dois aliados da NATO por uma ilha pequena e insignificante", disse Byers à AFP.

A Dinamarca temia que perder a batalha pela ilha prejudicaria as relações com a Groenlândia. Por sua parte, o Canadá queria evitar que a perda do território enfraquecesse a sua posição numa disputa maior com os Estados Unidos pelo mar de Beaufort, no extremo noroeste do Canadá, que se acredita ser rico em hidrocarbonetos.

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