“Temos de reforçar o conceito da identidade europeia. Reforçar o conceito das diferenças como uma força e não como um problema. Só com essa abertura podemos lutar contra o problema do medo. Quando paramos de contar a nossa história, a nossa identidade enfraquece, temos medo do estrangeiro”, observou o comissário europeu responsável pela Investigação, Ciência e Inovação, na conferência "A Europa e o Presente", organizada pelo jornal Público e que decorre no Porto.

Na conferência, Carlos Moedas defendeu ainda que o medo explorado pelos políticos vem de “três deficits europeus”, nenhum relacionado com as finanças públicas.

O primeiro, disse, é o deficit da identidade.

“Os populistas, hoje, o que querem é olhar para a União Europeia (UE) como um projeto frio e tecnocrático e, de certa forma, apagar a nossa história de prosperidade, apagar os símbolos, não respeitar o hino ou a solidariedade que é a base dessa nossa história”, salientou.

Outro dos problemas que contribuem para o medo é, referiu Carlos Moedas, o “afastamento cada vez maior das pessoas ao projeto europeu”.

Para integrar os cidadãos, é preciso colocá-los no processo de decisão, sustentou, defendendo a necessidade de “criar instituições para o co-desenho das políticas com as pessoas”.

De acordo com o comissário, é também necessário “assumir que eventualmente a Comissão Europeia pode ter menos poderes”, mas fazer com que os que tem sejam “claros para as pessoas”.

“Temos de redesenhar as instituições não por serviços, mas à volta das necessidades das pessoas”, afirmou.

Para além do deficit económico, Carlos Moedas apontou também a questão da “governança europeia”.

“Este pêndulo entre os países e o meio comunitário [a Comissão e o Parlamento europeus) deslocou-se totalmente para o lado dos países nos últimos anos”, constatou.

Para o comissário, “o meio comunitário é mais justo, nomeadamente para países como Portugal”.

Com a criação “intergovernamental do mecanismo europeu de estabilidade”, os países disseram que a UE “não deu conta do recado”, alertou Carlos Moedas.

O comissário referiu ainda que deixar a decisão sobre os refugiados a cargo dos países, levou-os a dizer “não”.

“A China e a Rússia percebem isso. Ao perceberem o movimento do pêndulo, não perdem a oportunidade”, observou, lembrando a “nova iniciativa chinesa que envolve 11 países membros da UE".

“Então, na UE, temos 11 dos nossos estados a tratar diretamente com a China? Onde está a Europa?”, questionou.

Para o comissário, esta questão tem de ser abordada “nestas eleições europeias”, que se irão realizar no final de maio.

“Este caminho, em que os estados membros tem cada vez mais poder e as instituições têm menos, não é bom para a Europa, nem para o mundo”, avisou.

De acordo com o comissário, o “reavivar do método intergovernamental cria problemas de governança”, deixando a Europa “com o pior dos dois mundos”.

“Quando algo falha, a culpa de quem é? De Bruxelas. Isto é um jogo que fragiliza todos”, frisou.

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