“Um tipo pequenino, vivo. Um típico mafioso italiano!”, foi a forma como, em 2008, Mário Soares, líder histórico do PS, ex-primeiro-ministro e Presidente da República, descreveu o diplomata que contrariou o então secretário de Estado, Henry Kissinger, que considerou Portugal “perdido para os comunistas” e queria isolar o novo regime português saído do 25 de Abril de 1974.

Com o apoio de Donald Rumsfeld, à altura chefe de gabinete do presidente Gerald Ford, Carlucci enfrenta o secretário de Estado, afirmando que cada vez que Kissinger falava “empurrava Portugal para os braços dos comunistas”.

Mais tarde o número dois da CIA, após o regresso a Washington, em 1978, Frank Carlucci, representante do “imperialismo” americano, foi uma figura controversa e odiada pela esquerda radical e por comunistas.

No “Verão Quente”, quando PS, grupo dos “moderados” – e vários relatórios da CIA – colocavam o país à beira de uma guerra civil, o homem que depois foi secretário da Defesa fez uma controversa volta a Portugal, em especial pelo Norte, encontrando-se com membros da Igreja.

Nos cabeçalhos dos jornais, aparecem títulos a associar Carlucci e os Estados Unidos a tentativas de golpes de Estado, daí ser apresentado como “embaixador da CIA”.

Passados mais de 30 anos, no livro “Carlucci vs Kissinger – Os EUA e a Revolução Portuguesa”, de Tiago Moreira de Sá e Bernardino Gomes, dizia o próprio embaixador: “Tudo o que a CIA fez foi sob o meu comando. Qualquer ação que possa ter desenvolvido destinava-se a executar a política dos EUA, que era apoiar as forças democráticas em Portugal. A CIA era parte da equipa [da embaixada] e eles faziam o que lhes mandava."

Datam também dessa altura as conversas de Carlucci com Mário Soares, num recanto – “um zimbório” - da então residência do embaixador, na Lapa, em Lisboa, que o jornal Público recordou, em 2006, num artigo intitulado “Reencontro com a História”.

“Para conspirar? Não é essa a palavra. Nenhum a aceita. Carlucci limita-se a dizer que o lugar os inspirava, na sua troca de ideias sobre o melhor caminho para "não deixar a revolução portuguesa descambar para uma nova ditadura". Era este, afinal, o propósito que tinham em comum”, descreve-se no texto, assinado por Teresa de Sousa.

Para história ficam também algumas histórias mais ou menos rocambolescas do período revolucionário vividas pelo diplomata que falava português com um sotaque do Brasil.

E para passar pelas manifestações à porta da embaixada sem problemas, Carlucci ou saía de mota, com capacete, ou a guiar uma carrinha velha: “Vesti uns jeans e uns ténis, pus um boné, entrei na carrinha e saí pelo portão. Disse-lhes adeus e eles retribuíram”.

Ou ainda quando Otelo Saraiva de Carvalho, o estratego do 25 de Abril e chefe do Comando Operacional do Continente (COPCON), afirmou, em janeiro de 1975, logo à sua chegada, que não garantia a segurança de Carlucci.

O embaixador contou depois que convidou Otelo Saraiva de Carvalho para um almoço e até terão jogado ténis os dois, segundo contou Soares anos mais tarde.

O ex-diplomata sentiu-se “um ator” nos acontecimentos da revolução portuguesa e regressou aos Estados Unidos em 1978, onde viria a ser vice-diretor da CIA (1978-1980) e secretário da Defesa (1987-1989).

Voltou várias vezes, teve alguns negócios em Portugal, ligado à Euroamer e recebeu uma condecoração, com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, contestada pelo PCP, que considerou um “vergonhoso gesto de afrontamento aos valores de Abril e da soberania nacional”.

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