O centro de Santiago virou um cenário de destruição: semáforos no chão, autocarros queimados, lojas saqueadas e milhares de destroços nas ruas após os protestos iniciados na sexta-feira com o aumento do preço dos bilhetes do metro, uma notícia que foi o catalisador para uma série de reivindicações sociais.

Apesar do toque de recolher ter sido decretado e da mobilização de quase 10.000 militares nas ruas, os distúrbios prosseguiram durante a madrugada em Santiago e outras cidades, como Valparaíso e Concepción, que também foram afetadas pela medida que restringe a movimentação

“El pueblo unido jamás será vencido” (O povo unido jamais será vencido), gritaram os manifestantes, uma palavra de ordem utilizada no decurso do governo de Unidade Popular de Salvador Allende, e retomada após o golpe militar e a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Na capital do país, pelo menos três pessoas morreram num grande incêndio após o saque de um supermercado da rede Líder, no bairro de San Bernardo, na zona sul de Santiago, um dos muitos alvos de ataques dos manifestantes nas últimas horas.

O balanço oficial divulgado neste domingo pelo ministro do Interior e Segurança, Andrés Chadwick, baixou o número para duas vítimas mortais, frisando que uma terceira pessoa ficou gravemente ferida, com 75% do corpo queimado. No entanto, essa pessoa acabou por morrer no hospital, segundo a Reuters.

Chadwick informou ainda que durante a madrugada duas pessoas foram feridas a tiros após um incidente com uma patrulha da polícia entre Puente Alto e La Pintana. As autoridades informaram que 716 pessoas foram detidas nos protestos, os mais violentos desde o retorno da democracia após o fim da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Os manifestantes também atacaram autocarros e estações de metro, sendo que, de acordo com informações providenciadas pelo governo, 78 estações foram atingidas e algumas ficaram completamente destruídas.

O cessar-fogo permanece em vigor em cinco regiões, incluindo a capital Santiago, e foram mobilizados mais de 10.000 polícias e militares, precisou o general Javier Iturriaga del Campo.

Em Santiago, os supermercados e centros comerciais anunciaram que permaneceriam fechados neste domingo, para evitar saques.

No que toca a transportes públicos, o metro está paralisado, quase não circulam autocarros pela cidade e a única forma de circular numa cidade de sete milhões de habitantes têm sido taxis e serviços de transporte individual e remunerado de passageiros em veículos descaracterizados a partir de plataforma eletrónica.

A governadora de Santiago, Karla Rubilar, confirmou que os voos operados pelas duas maiores companhias aéreas do Chile, a LATAM e a Sky Airline, foram suspensos ou adiados durante esta manhã de domingo, já que o caos nas ruas e a inoperância dos serviços de transporte impediu que as tripulações se deslocassem para o aeroporto de Santiago. Como resultado, houve multidões de passageiros deixados em terra.

No porto de Valparaíso, os bombeiros lutavam contra as chamas do incêndio que destruiu por completo um supermercado da cidade.

O prejuízo para o serviço metropolitano de Santiago supera 269 milhões de euros e algumas estações e linhas demorarão meses para voltar a funcionar, afirmou o presidente da companhia estatal, Louis de Grange. Sendo o eixo do transporte público da capital chilena, com quase três milhões de passageiros por dia, o metro sofreu uma "destruição brutal", declarou Grange.

As manifestações decorrem desde sexta-feira em protesto contra um aumento (entre 800 e 830 pesos, cerca de 1,04 euros) do preço dos bilhetes de metro em Santiago, que possui a rede mais longa (140 quilómetros) e mais moderna da América do sul, e que transporta diariamente cerca de três milhões de passageiros.

No sábado, Piñera recuou e suspendeu o aumento. Mas as manifestações e os confrontos prosseguiram. Aos gritos de "basta de abusos" e com o lema que dominou as redes sociais "#ChileAcordou", o executivo do país enfrenta críticas quanto a um modelo económico em que o acesso à saúde e à educação é praticamente privado, com elevada desigualdade social, valores de pensões reduzidos e o encarecimento do preço dos serviços básicos.

A manifestação não tem um líder definido nem uma lista precisa de reivindicações, sendo que até o momento tem funcionado mais como uma reação de crítica generalizada a um sistema económico neoliberal que, por trás do êxito aparente dos índices macroeconómicos, esconde um profundo descontentamento social.

Universidades e escolas suspenderam as aulas na segunda-feira, mas os estudantes convocaram um novo dia de protestos.

"Estamos a viver elevadíssimos níveis de delinquência e saques", afirmou Alberto Espina, ministro da Defesa. O presidente Sebastián Piñera - que suspendeu ontem o aumento dos preços dos bilhetes de metro — vai reunir-se com os seus ministros neste domingo para abordar a situação. A Câmara dos Deputados também convocou uma sessão especial para domingo.

Protestos de tal magnitude eram inimagináveis há poucos dias, quando o próprio presidente afirmou que Chile era um "oásis" de tranquilidade na região.

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