Claire tinha 21 anos quando foi violada. Nascida na África do Sul, esta australiana chegou à capital francesa aos 19 anos para estudar arte. Uma noite, chegava a casa vinda do trabalho, um homem agarrou-lhe o corpo — e também a vida. Espancou-a. Violou-a. Deixou-a quase morta.

As autoridades francesas demoraram uma década a encontrar o homem que a violou. No total, passaram 16 anos até Claire ver o caso encerrado. Perdoou-o. Perdoa-o porque não quer que ele lhe deva nada. E perdoa-o porque apesar de ser sobrevivente de um ataque sexual, acredita que também o agressor foi vítima — das circunstâncias e do contexto em que cresceu e que o levaram a violar várias mulheres de Paris.

Hoje, quer que mais pessoas ouçam esta história. Quer que saibam como se defender, mas, sobretudo, que se fale do assunto e que se procurem formas de o resolver. É possível. Claire McFarlane acredita que, através da educação de rapazes e raparigas, podemos um dia não ter as atuais estatísticas de violência sexual.

Os melhores exemplos vêm dos lugares mais inusitados. A atrasada Europa e os conservadores norte-americanos, soçobrem sobre o peso de legislação e crenças antiquadas. Da Malásia ao Uganda, novas formas de olhar para um problema real e global, que afeta raparigas, rapazes, mulheres e homens.

Foi por isso que começou a correr a 18 de julho de 2016. 17 anos depois da noite em que quase morreu num beco de Paris. Arrancou para correr mais de três mil quilómetros nas praias de 230 países. Entretanto, já passou por 34 países de todo o mundo. Correu no Baleal, em Peniche, na manhã de 18 de fevereiro, vinda de Espanha e antes de partir para a Suíça.

“Estava uma manhã magnífica no Baleal”, explica Claire, que falou com o SAPO24 dias antes da etapa portuguesa. Estava “um pouco frio, mas o céu azul e o sol brilhava. O Baleal foi onde surgiu a ideia para começar a Footsteps to Inspire, por isso foi muito especial correr lá”, acrescenta, numa mensagem enviada já depois da corrida.

Desde que um artigo sobre ela foi escrito pelo ‘site’ “Delas”, Claire tem “recebido algumas mensagens” dos portugueses. Apesar disso, correu sozinha, apenas com uma amiga nas areias de Peniche. Saí do país com um sentimento claro: “a violência sexual ainda é um grande problema de que as pessoas não querem falar em Portugal. A pouco e pouco vai mudar”.

Porquê correr na praia? O relato na primeira pessoa

Explicar isso é um pouco complexo. Eu estava a viver em Paris, fui para lá viver aos 19 anos. Estudava e trabalhava ao mesmo tempo. Infelizmente, uma noite, quando regressava a casa depois do trabalho, fui atacada por um homem. Um ataque muito violento — violou-me e tentou assassinar-me. Porém, fui capaz de sair de lá viva.

O que se segue é um processo extremamente difícil, particularmente em França. Lá, não tratam muito bem as vítimas. Não o apanharam. Isto foi em 1999, tinha eu 21 anos, e decidi que não podia continuar a viver em França, porque teria de continuar a trabalhar durante a noite para conseguir estudar durante o dia — e eu tinha medo. Por isso, fui para a Austrália, onde a minha mãe estava a viver. Estava bastante feliz por estar viva e decidi seguir com a minha vida; descobrir o que ia fazer, porque toda a minha vida mudara. Mas entrei numa fase de negação. Estava a negar que aquela noite tinha de alguma forma tido algum impacto em mim.

Claire observa o eclipse, em Paris, em 1999. créditos: Footsteps to Inspire

Entretanto, passam dez anos da minha vida, dez anos muito ocupados; fiz imensas coisas, por isso não tive de pensar em nada. Até estava de novo a viver na Europa, a trabalhar na Suíça, em Genebra. Em 2009 recebi uma chamada da polícia francesa. Disseram: “Acreditamos ter apanhado o homem. Pode vir a Paris dentro de 48 horas para fazer o reconhecimento?” — dez anos depois!

Chego a Paris e identifico-o logo. Foi quando o meu mundo desabou. Porque o processo legal em França é muito complexo, a vítima paga os custos do processo. A vítima tem de encontrar um advogado e pagá-lo — o que é de loucos se pensarmos nisso, porque o criminoso tem direito a um advogado e pode escolhê-lo. O homem que me atacou despediu os advogados quatro vezes. Mas isso é outra história, para outro dia.

Apanharam-no duas semanas antes de o crime prescrever, o espaço de tempo que alguém pode ir a julgamento por ter cometido um crime, duas semanas antes! É um processo muito difícil. Acabou por me custar mais de 25 mil euros. Todas as minhas poupanças foram para isto, mas sabia que tinha de o fazer.

Fui em frente. Passaram quase dois anos e meio até irmos a tribunal, onde foi condenado a doze anos de prisão — ele fez o mesmo a outras pessoas, não era apenas o meu caso, mas como as penas não acumulam, ele foi condenado pelo crime mais grave, que era o meu. Depois, pensava que tinha acabado. Estava no final de 2011.

Durante este período tive de passar por um processo de cura; tive de enfrentar o que me tinha acontecido, tive de aceitar que tinha tido impacto na minha vida e os danos que sofri. Isto não é fácil de fazer, mas no final, quando tudo tinha passado, sentia-me muito mais forte. E sentia-me curada.

Claire McFarlane no Parque Eduardo VII, em Lisboa, em fevereiro de 2018. créditos: Pedro Soares Botelho | MadreMedia

Decidi, então, voltar à Austrália para viver. Porém, o processo ainda não tinha acabado. Em 2013, a minha advogada telefona-me e diz que tem duas más notícias: ele foi libertado da prisão; e estava fora da cadeia há seis meses. Fez menos de quatro anos da pena. A advogada explicou-me que houve um processo civil que começou após o processo criminal, o que significava que eu podia receber algum tipo de indemnização; todavia, a audiência no tribunal para o processo judicial foi oral, por isso não havia registos escritos. Redigiram a sentença no final e nesse documento construíram as frases de tal forma que a decisão civil ficou legalmente inválida.

Porque em França não podes ser indemnizado pelo processo, apenas pelo incidente em si. Mas o difícil é quando apanham alguém dez anos depois do incidente, tudo vai estar ligado ao processo. Por isso, o tribunal disse que eu tinha de receber uma indemnização pelo próprio processo, mas a lei proíbe-a.

A minha advogada disse-me que tínhamos de recorrer. Eu não tinha vontade — afinal, ainda estava a pagar — e disse que não, estava farta. Tinha de seguir com a minha vida, já tinha passado demasiado tempo.

Mas ela insistiu. Insistiu porque se fosse em frente estaria a abrir um precedente legal. Se ganhasse, esta lei teria de ser mudada. Falei com uma amiga que também era advogada em França e que me disse que eu era a primeira no país numa situação destas. E pedia-me para fazê-lo porque outra pessoa podia precisar desta alteração.

Foi aí que a minha história mudou. Deixou de ser sobre mim e passou a ser sobre ajudar alguém. E foi aí que também a minha mente se alterou. Por causa desse recurso, fui chamada novamente ao tribunal, o que me obrigou a deixar para trás toda a minha vida na Austrália e voltar a França.

Não tinha muito dinheiro, porque tinha gasto imenso no processo judicial. Comecei uma campanha de 'crowdfunding' [angariação de fundos através de pequenos donativos de muitas pessoas] para ver se alguém me queria ajudar, nem que fosse com um bocadinho, e um amigo que é jornalista do 'Sydney Morning Herald' escreveu um artigo sobre a minha história.

A resposta foi enorme. A minha história espalhou-se pelo mundo. Acabei por criar uma página no Facebook e tinha imensos sobreviventes de violência sexual a escrever-me. Havia mulheres, havia homens a partilhar as suas histórias. Crianças. E todos estavam a partilhá-las pela primeira vez. O mais marcante foi perceber que eram todos diferentes, comecei a ver que no que toca à violência sexual não há estereótipo, padrão.

créditos: Pedro Soares Botelho | MadreMedia

Fiquei arrasada com as histórias de homens, não pensava que acontecesse a homens e acontece muito quando são jovens. Fez-me perceber que a violência sexual está a afetar toda a gente no mundo, mas não estamos a falar disso. Há sempre gente a sofrer e a passar por muita dor.

Comecei a pensar que tinha de fazer alguma coisa. Por isso, voltei a França. A audiência no tribunal foi adiada três vezes, só ano e meio depois voltei ao tribunal. Nesse período, virei-me para as corridas como parte do processo de recuperação. Quando as coisas ficavam muito difíceis, ia simplesmente correr.

Na Austrália corria na praia e achava-o bastante terapêutico. Mas, sempre que podia, vinha a Portugal.

Comecei a pensar sobre como podia falar de violência sexual, chegar às pessoas. Porque ninguém quer falar sobre isto, é um tema difícil, há muita vergonha, muita culpa. É frequente culpar-se a vítima, por isso as pessoas têm medo de falar.

A ideia surgiu-me no Baleal, em Peniche. Eu organizava viagens de aventura para mulheres. Foi numa jornada de surf que, a correr na praia, ia a pensar no efeito curativo daquela corrida à beira-mar. Ia a pensar como cada praia é bastante diferente — tinha corrido em praias da Austrália, África do Sul, e sentia que, apesar de haver uma energia diferente em cada praia, todas são sempre bastante curativas.

Foi quando pensei em correr pelas praias do mundo. É uma coisa que me leva a todos os países do mundo e me permite usar o desporto como forma de iniciar um diálogo sobre uma coisa muito difícil. Para além disso, é um ambiente muito seguro, não é de confronto.

Está a resultar?

A minha esperança era a de espoletar o diálogo, mas nunca se sabe, ninguém fez isto antes, é uma coisa inédita. Não tinha como comparar e por isso pensei em ver o que acontecia.

Comecei na África do Sul, fui ao meu país natal, e foi uma coisa enorme. Não tinha muita gente a correr comigo, umas quarenta, mas ainda assim era muita gente. Muita imprensa, uma vontade de falar da minha história. A África do Sul é bastante única nesse aspeto, há muitos sobreviventes que falam e são apoiados. Depois corri na Austrália e foi uma coisa um pouco mais pequena.

Depois fui à Nova Zelândia e estive sozinha. Depois fui às ilhas do Pacífico e na Papua-Nova Guiné duzentas pessoas vieram à corrida — foi enorme! Estava lá a televisão e no final todos me perguntavam se podíamos fazer aquilo todos os anos, porque é uma forma de terem voz, num espaço bastante seguro.

Papua-Nova Guiné, em setembro de 2016. créditos: Footsteps to Inspire

E é assim que tem sido sempre. Nalguns países estou só eu, noutros tem sido mais gente; mas todos os que vêm querem falar sobre o problema, de formas diferentes. Algumas pessoas partilham as próprias histórias, outras querem perceber.

Muitos homens também vêm e querem saber como podem ajudar alguém que conhecem e que tem uma história. E isso deixa-me surpreendida. Pensar que isto está realmente a funcionar. Há qualquer coisa naquilo de estar a correr lado a lado, em vez de estar sentado frente a frente, que torna tudo mais fácil. E depois, a praia é um lugar feliz, geralmente toda a gente está feliz, a sorrir. Tem sido bastante positivo.

Acabo de chegar de África e lá aconteceu uma coisa incrível. Corri em seis países na África Oriental e nalguns deles é muito difícil protestar em público, sobretudo para as mulheres. É difícil juntarem-se para uma manifestação, para reclamar alguns problemas. Porém, elas vieram à corrida e não houve quaisquer problemas, porque estávamos simplesmente a praticar desporto. Foi quando percebi que isto era uma forma muito boa de as pessoas lutarem por algo em que acreditam, mas sem a pressão de parecer que é uma manifestação. É mais pacífico. Tem sido fantástico.

Uma em cada quatro mulheres e um em cada seis homens antes de completar os 18 anos vai sofrer de algum tipo de violência sexual.

É possível dar poder às pessoas e educá-las para travar estes abusos?

Estou a dar uma voz aos outros, ou melhor, a dar-lhes coragem para derrubar o silêncio. Penso que estou a mostrar que não há vergonha. Eu não tenho vergonha do que me aconteceu, não me responsabilizo, não tenho culpa e estou muito feliz por partilhar conselhos sobre como os outros podem responder —  e isto também é importante, as pessoas não sabem o que dizer ou fazer quando ouvem uma história destas. O meu conselho é ouvir e acreditar.

Porque toda a gente tem uma experiência diferente e nenhuma experiência é melhor ou pior que a de outra pessoa. Cabe ao indivíduo, como se sente.

A mensagem é procurar alguém para pedir ajuda. Não tem de ser alguém que conheçam. Muita gente tem medo de contar à família ou amigos porque receiam ser julgados, por isso muitas vezes contar a um desconhecido ou a uma organização é melhor do que contar a alguém que conhecemos.

As estatísticas para a violência sexual mostram que é duas vezes mais frequente que o cancro. Uma em cada quatro mulheres e um em cada seis homens antes de completar os 18 anos vai sofrer de algum tipo de violência sexual — mais grave que assédio. É um número enorme!

230 mil crianças são abusadas sexualmente todos os anos no planeta. É um número assustador. Há dias, a UMAR divulgou um relatório sobre a violência contra mulheres em Portugal.

Elas estavam olhar para os jovens e uma das coisas que me mostraram foi que 34% dos rapazes com menos de 18 anos legitima a violência sexual. É demasiado!

Há um esforço, com campanhas nas escolas, para combater isso em Portugal. Mas os estudos, como esse, mostram que muitos jovens não associam certos atos à violência sexual. Se os pais fazem-no, os avós faziam-no e se não há debate público que explique o que é ou não correto...

Exatamente. Tocaste no ponto certo. As pessoas ficam aborrecidas comigo quando digo que perdoei o meu violador. Perdoá-lo foi a minha derradeira liberdade. Porque não sei o que aconteceu na vida dele para o tornar na pessoa que foi. Muitos dos atacantes são vítimas do ambiente em que estão, ou também foram vítimas de violência sexual.

Os pedófilos frequentemente foram vítimas quando eram crianças.

Precisamos de perceber e falar mais sobre isso para mudar o sistema de crenças, em vez de estar constantemente a punir — é claro que o castigo é importante, porque tem de haver uma dissuasão, mas muitas vezes, particularmente com os jovens, tem muito a ver com a educação. Se mudarmos a educação, talvez paremos o problema.

Claire fala para mais de 120 raparigas numa escola de Kwale, no Quénia. créditos: Footsteps to Inspire

Notou alguma mudança de 1999 para cá?

Em França, não. Nada mudou. A Europa ainda está muito atrasada. Os outros países do mundo já estão muito à frente. E são países surpreendentes. Estive em Espanha na semana passada e Espanha está mesmo muito atrasada. A lei da Suíça ainda é de Napoleão e não a querem mudar, há uma grande resistência à mudança. Pelo contrário, países como a Malásia, por exemplo, têm dos melhores sistemas de apoio nos hospitais que já vi.

Na Malásia, todos os hospitais têm uma unidade especial para onde os sobreviventes são encaminhados e onde tudo acontece. Os médicos e a polícia vão lá, os representantes da justiça. A ideia é eliminar o máximo possível de trauma para a vítima, para que possam começar a recuperar o poder. Porque a violência sexual é isso: o abuso de poder. Não tem nada a ver com sexo.

A OMS tem um relatório a recomendar este tipo de estruturas, vê-la num país com 60% da população muçulmana, na Ásia, é arrebatador, é fantástico. Não é onde estamos à espera que fosse.

Hoje ao vir para aqui, vinha a pensar "estou tão a ser assediada e ainda bem que não o percebo"

A África do Sul também está a construir os primeiros tribunais especializados em violência sexual. Todos as magistraturas do país vão ter uma sala especial nos tribunais para casos de violência sexual e toda a gente tem de ser treinada para trabalhar neles.

Há uma verdadeira sensibilização para o problema, uma melhor adaptação da lei, mais segurança para as vítimas. Muitas das pessoas que conheci dizem que isto nunca iria acontecer no planeta, e agora está a acontecer na África do Sul.

Por isso sim, há coisas boas a acontecer noutros lugares, a Europa ainda tem de mudar.

Recentemente, em Portugal, discutiu-se o assédio na rua — os piropos — que é bastante comum, até com raparigas muito jovens...

Aqui é terrível! Hoje ao vir para aqui, vinha a pensar "estou tão a ser assediada e ainda bem que não o percebo".

Porque não são coisas boas, não são elogios, normalmente são palavras muito ordinárias, muito diretas.

O movimento #MeToo — e todas as coisas que nasceram em Hollywood após o escândalo Harvey Weinstein — é bom ou mau? Há quem diga que existem denúncias que não são casos de verdadeira violência sexual, apenas mau sexo, e que isso pode estar a ofuscar as verdadeiras vítimas.

Sim. É um assunto complicado. Tenho duas respostas para essa questão e por isso dou-te ambas.

Primeiro, estou muito feliz por isto estar a acontecer. Estamos a fazer uma purga, as pessoas estão de repente a sentir que podem chegar-se à frente e partilhar o que se está a passar. A verdade feia está a vir ao de cima.

Agora temos a purga do assédio sexual, depois talvez seja mais uma purga da violência sexual e eventualmente vamos olhar para as crianças — espero eu, porque ainda é um problema muito na sombra.

A única forma de saber realmente o que se está a passar é se fizeres uma purga, tens de o trazer ao de cima, temos de o ver para saber com que estamos a lidar. Por isso, nesse sentido [os movimentos em Hollywood] são muito bons. Porque de repente estamos a atirá-lo para cima da mesa e a mostrar o que está a acontecer.

O outro lado é saber se um caso é pior do que outro. É difícil. Eu vi o #MeToo e pensei “Uau". Sou uma #MeToo, claro, mas quando penso nisso, imagino se não devia um #MeToo específico para a violação, porque é um abuso de poder muito maior que o assédio.

No entanto, nesta na minha viagem, os meus olhos abriram-se realmente para ver que muitas pessoas têm as suas próprias fronteiras, por isso, para elas algumas formas de assédio sexual são tão más quanto ser violadas.

Conheci raparigas das Filipinas que tinham sido fisicamente assediadas nos transportes públicos por homens mais velhos, tocadas, e sentiram-se tão violentadas, traumatizadas com o que tinha acontecido e com medo de voltar a entrar num autocarro.

Como é que se desvaloriza o que lhes aconteceu? Para elas aquilo foi provavelmente tão mau quanto ser violadas, porque invadiu a intimidade delas.

Outra forma bastante comum é que às vezes uma mulher pode partilhar a história de como foi atacada na rua, mas consegue fugir; ou é encurralada por um namorado, mas consegue escapar — muitas pessoas dizem "tiveste sorte, ele não te violou", porém, isso é desvalorizar o que aconteceu.

Quando temes uma violação como a consequência, se alguém te agarra ou te encurrala numa sala, a tua mente pensa "esta pessoa quer violar-me", o teu corpo começa logo a responder de forma traumática à ideia de seres violado. Isso é que é a pior parte; já estás mentalmente preparado para a violação, porque já tiveste de lidar com o trauma de saber que ia acontecer.

Por isso, quer sejas efetivamente violado ou não, já há um grande trauma. As ONG's e os serviços de acompanhamento reconhecem-no e uma pessoa pode recorrer a essas entidades, mesmo que o ato não tenha sido consumado, já passaram por um grande trauma.

Todavia, as pessoas no geral vão dizer que tiveste sorte. Essa perceção tem de mudar. E é por isso que é muito difícil saber se uma coisa é mais importante que outra.

O que é, então, ser vítima de violência sexual?

A Namíbia tem uma legislação muito boa no que toca à violência sexual — penso que devia ser usada por todo o mundo. A lei diz que, basicamente, a violação é um ato sexual a que alguém é coagido. Puseram de fora a questão do consentimento e falam na coação. Depois, definem ato sexual e definem coação. Este é o problema na Europa, dizem que a violação é apenas inserir um pénis numa vagina, mas é muito para além disso. Porque se assim for, um homem não pode ser violado — e é claro que pode.

Na lei da Namíbia, um ato sexual é a penetração de qualquer orifício, inserção de objetos, forçar alguém a ver pornografia, ou a ouvir alguma coisa sexual que não queira ouvir — e isto abarca muitos destes piropos ordinários que se ouvem na rua —, forçar alguém a fazer sexo com animais... Cobre todo o tipo de atos sexuais.

A violência sexual não é uma questão de sexo, mas de poder.

Sobre a coação, a lei diz que é forçar alguém a um ato sexual através da intimidação, ameaças, chantagem, intimidação económica — dizer que te põe fora de casa se não fizeres isto —, forçar alguém sob o efeito de drogas ou álcool, e há mais, estão listadas.

A maioria dos casos de violência sexual são cometidos por alguém que a vítima conhece. Muitas mulheres são violadas pelos namorados, ou maridos. Elas são intimidadas de alguma forma e frequentemente consentem sem o querer. Foram coagidas a fazê-lo, não é uma situação justa.

Isto tem de ser considerado violação; porque obrigar alguém a fazer sexo contigo quando sabes que eles não o querem realmente, usando alguma forma de coação para pô-los numa situação em que têm de o fazer.

Isto é algo que pode ser parado ou é uma coisa com que temos de aprender a lidar porque é impossível de travar?

É possível travar — mas não já. Eu acredito que podemos eliminá-lo completamente numa geração se educarmos as crianças para isso e mudarmos a forma como nos respeitamos uns aos outros.

Por agora, acho que o melhor que podemos fazer é falar sobre isso. Vamos partilhar as nossas histórias, ouvir as pessoas, fazer perguntas — eu não me importo que me façam perguntas, porque prefiro que percebam a não saberem a verdade e façam suposições sobre o que aconteceu, ou como é. Prefiro que aprendam.

A violência sexual não é uma questão de sexo, é sobre poder, tal como a violência doméstica, trata-se de abuso de poder. A violência doméstica não tem de ser necessariamente um homem a bater numa mulher. Uma mulher a abusar verbalmente do marido, psicologicamente, chamar-lhe nomes, é também uma forma de violência doméstica.

É esta ideia de usar uma força de poder sobre alguém. Estive a correr recentemente no Uganda. Conheci uma organização que está a fazer um trabalho incrível, eles têm um programa que aborda o abuso de poder, a dinâmica do poder.

Vão às comunidades e trabalham com elas para ensinar as pessoas que todos temos poder numa quantidade ilimitada, a questão é como escolhemos usá-lo. Vamos usá-lo contra alguém, para os magoar? Ou vamos partilhá-lo com alguém, reconhecendo o poder de ambos?

Para isso, eles têm todo um programa para mudar a dinâmica do poder e têm estado a testá-lo há três anos, em três comunidades diferentes de Kampala. Tiveram uma redução de 70% na violência dentro dessas comunidades.

Isto mostra que é possível parar a violência sexual, mas precisamos do empenho dos governos para fazer alguma coisa acerca disso. É preciso que implementem as leis corretamente, para passar a mensagem de que há uma punição caso façam isto e a punição é severa. Os governos têm de pensar em maneiras de prevenir isto, para que eventualmente nem nos tenhamos de preocupar com as leis — e a resposta a isso é a educação, mudar as perceções.

Tem falado com alguns governos nos países por onde passa. O poder está aberto a esta discussão?

O meu objetivo com esta jornada é correr. Mas, sim, quis ligar-me a organizações no terreno para perceber o que se está a passar. Porque quero criar uma espécie de reportagem, para contar estas histórias que vou conhecendo. Porque muitos países pensam que são os piores e que noutro lado qualquer a situação deve ser melhor.

Quando partilhei a minha história sobre França, as pessoas ficaram surpreendidas. França? Como?

Neste momento estou a aprender. Não estou a dizer a ninguém o que deve ou não fazer, porque há muitos fatores a ter em conta. Gosto de partilhar as coisas que vi e isso é muito bem recebido.

Por exemplo, tive uma reunião com o procurador-geral da Costa Rica, onde estão a fazer um trabalho muito bom. Ele estava muito entusiasmado para ouvir algumas das coisas que vi noutros países, para pensarem nisso na Costa Rica, para falarem sobre isso.

Numa das ilhas do Pacífico tive um encontro com os advogados de acusação e defesa; foi uma grande reunião, partilhei a minha história, pus-me à disposição deles para responder a quaisquer perguntas — e perguntaram-me coisas terríveis, mas foi importante, porque mostra quão pouco eles percebiam o assunto. Dessa reunião saiu um acordo para todos terem treino em apoio, para que possam estar melhor informados acerca de situações traumáticas quando estão a lidar com uma vítima, para causarem menos problemas.

Conversa com procuradores Ilhas Salomão, em setembro de 2016. créditos: Footsteps to Inspire

Ainda é cedo e nem todos os governos querem encontrar-se comigo, porque alguns nem sequer apoiam a causa. Há muitos governos que não financiam estas organizações, preferiam que não existissem.

E os Estados Unidos? São o grande colosso, como foi correr lá?

Vou correr em quatro praias diferentes nos Estados Unidos da América. Já corri no Hawaii e na costa Oeste, em São Francisco. Vou correr ainda no Alasca e na costa Leste. Estou a fazê-lo desta forma primeiro porque o Hawaii e o Alasca têm comunidades indígenas, que têm estruturas comunitárias diferentes e tende a haver muita violência sexual nestas comunidades, sobretudo contra crianças, embora ninguém fale disso.

A cada 90 segundos há alguém a ser sexualmente agredido nos Estados Unidos. É um grande problema e não está a ser discutido.

Os Estados Unidos — e isto é impressionante — têm 50 estados com 50 leis diferentes sobre violência sexual. Não há uma lei federal, apenas estadual. Isto significa que para um agressor sexual a Califórnia tem uma lei diferente que Nova Iorque e uma pode ser melhor que outra.

Por exemplo, na Carolina do Norte discutia-se isto no ano passado: se duas pessoas estão a fazer sexo, consentido, mas durante o ato alguma coisa muda e um dos parceiros torna-se mais violento. A outra pessoa pede para parar, diz que já não quer continuar, porém a outra pessoa não para. Houve um enorme debate no ano passado na Carolina do Norte sobre se isto é uma violação.

A lei daquele estado [de 1979] diz que isto não é uma violação e que a pessoa pode continuar o ato. Todavia, a questão é que o consentimento foi para uma situação específica, se a situação muda...

Estarão demasiado concentrados naquilo que se passa no mundo das estrelas, nos movimentos "Me Too" e "Time's Up", e não a olhar para a própria sociedade em que vivem, atirando estes casos só para as indústrias do cinema, da música?

Não sei. Nos Estados Unidos é difícil porque há muita gente a trabalhar no setor, muitas ONG's, muitas mais do que em qualquer outro lado, mas o governo não as financia de forma sustentada, a longo prazo, e põe nas ONG's a responsabilidade de abordar este tema, em vez de dizer que precisa de um sistema de saúde e de um sistema legal que trate disto.

E lá está: são extremamente conservadores. Há alguns estados com mente mais aberta, mas no todo, é um país muito conservador e profundamente religioso. Por isso, ainda é um assunto tabu.

Ainda não estive nos Estados Unidos desde que começou este novo movimento com o Me Too, por isso não sei. Mas continuo a achar que, infelizmente, com as celebridades há um "nós" e "eles". Ainda há uma divisão. No Reino Unido é a mesma coisa: quando uma celebridade vem falar nem sempre encoraja os cidadãos comuns a contar as suas histórias, porque há essa ideia de "aquilo são eles" e "isto somos nós".

Aqui em Portugal tivemos algumas pessoas famosas a denunciar situações deste tipo, mas sem mencionar nomes. De que vale falar se não for para acusar?

É muito difícil responder a isso. Porque, por um lado estão a falar, o que é fantástico, é muito corajoso, porque estão a expor-se ao julgamento do público. Porém, continuam em silêncio sobre quem o fez, acabam por estar a proteger o agressor.

Acho que isso só mudaria se elas soubessem que ia haver consequências positivas para elas. Neste momento, talvez pela lei, pela forma como estas pessoas são protegidas pela indústria, é a vítima que julgamos, que punimos, em vez do agressor.

É isso que temos de mudar; temos de parar de perguntar o que a vítima fez de errado e questionar o porquê de o agressor ter feito aquilo àquela pessoa.

Corrida em Singapura, em março de 2017. créditos: Footsteps to Inspire

Esta pergunta pode parecer infantil, mas julgo-a pertinente. Como é que pode um jovem rapaz sair à noite e ter a certeza de que não está a ser sexualmente violento com uma rapariga? Onde está a fronteira entre a sedução e a agressão?

Essa é uma questão muito boa. Recentemente, estava a falar com uma amiga sobre o Me Too e a dizer que há uma reação repentina, de repente toda a gente tem medo de dizer alguma coisa, sabes? Acabamos por perder alguma humanidade, porque é bom elogiar alguém se estiver bonito. Eu não me importo de estar num bar e alguém se chegar a mim e dizer que estou bonita. Isso é até bastante simpático.

Todavia, se ele me disser que estou muito bonita e me agarrar o rabo!, isso não é simpático, a menos que eu o convide a fazê-lo.

Acho que a chave para saber onde está a fronteira é a comunicação. Pedir permissão. "Estás muito gira, posso falar contigo?" ou "Está tudo bem se te abraçar?". Acho que temos de pedir permissão uns aos outros. E ensinar às raparigas como manter as suas barreiras: se não gostarem de ser tocadas, sentirem-se bem para o dizer — "ei, és muito simpático, mas não me toques". Acho que a chave é essa, perguntar se permitem aquilo que estamos a fazer.

E para o outro se sentir confortável o suficiente para dizer não, que não gosta. Mas isso é uma questão de amor próprio, auto-estima, respeito.

Diria apenas para perguntar se não há problema. Não estás a destruir a magia ao perguntá-lo, na realidade não importa. Acho que, na verdade, uma rapariga não se importa, se a quiseres beijar, que lhe perguntes: "Posso beijar-te?", caso não tenhas a certeza. Prometo que isso não vai destruir o romance — quando muito ela vai dizer: "Uau, posso confiar nesta pessoa, está a certificar-se de que estou confortável com isto".

Provavelmente ainda será um ponto a favor...

Acho que sim! Acho que vais ganhar pontos, de certeza! [risos].

Voltando às corridas nas praias, como é que se financia uma coisa destas? Sei que vendeu tudo o que tinha para começar, e agora?

Já não me sobra nada desse dinheiro... [risos] Agora estou à procura de patrocínio. Preciso de cerca de 730 euros por país, é um valor conservador. Assim, as pessoas e os pequenos negócios podem juntar-se e apoiar, se quiserem. Depois, para a ONG, estou neste momento a tentar angariar fundos para que alguns destes programas possam ser financiados. Neste momento ponho muita fé no desconhecido, mas tem resultado até agora, por isso vou continuar a confiar e vai continuar a resultar.

Corrida no Baleal, em Peniche, a 18 de fevereiro de 2018. créditos: Footsteps to Inspire

No final, o que quer que reste desta jornada?

A corrida está a ter um ótimo impacto, particularmente quando vou a um país e escrevem uma reportagem sobre isso, as pessoas vão falar, talvez até possa encorajar algumas pessoas a partilhar as suas histórias e a procurar ajuda.

Porém, aquilo em que penso é numa forma de tornar este impacto numa coisa sustentável no longo prazo. Para isso, tenho alguns projetos, o primeiro, claro, é fazer disto um evento anual — a ideia é que haja uma campanha Footsteps to Inspire mais abrangente e que depois as diferentes comunidades à volta do mundo possam ter uma etapa e organizar o evento todos os anos, num dia específico, e nós vamos correr para continuar a chamar a atenção para a violência sexual e usá-lo como uma oportunidade para falar, ter várias campanhas, angariar fundos, apelar aos governos.

Tive muitos países a pedir-me para fazer disto um evento anual e isto é muito entusiasmante. Por isso, acho que há potencial para ser uma coisa global, grande.

Hoje estou viva por causa de um programa de defesa-pessoal que frequentei na escola secundária.

Para além disso, eu oiço muitas histórias. Para ser honesta, já nada me choca. As histórias de jovens são aquelas que me destroçam mesmo o coração, sobretudo jovens raparigas.

Em África, por exemplo, as raparigas têm de andar muito a pé para a escola, oito, dez quilómetros para cada lado. Estas jovens estão a ser violadas a caminho da escola — e são centenas de casos. Muitas delas ficam grávidas e acabam por ter de desistir da escola.

Também na América Central há muitas raparigas a ser abusadas pelos pais, pelos tios ou por homens da comunidade.

E aquilo que me pergunto sempre é por que não estamos a ensinar as meninas a proteger-se? Técnicas de defesa pessoal ou de como sair destas situações para ficarem seguras?

Hoje estou viva por causa de um programa de defesa-pessoal que frequentei na escola secundária. Não fui capaz de lutar fisicamente com o meu atacante, porque quanto mais resistia mais ele me batia — ele era cinturão negro em karaté —, fisicamente, não tinha hipótese.

Todavia, esse programa na escola para além de ensinar técnicas, punha-nos a falar com sobreviventes. Eles partilhavam as suas histórias, mas também outras formas de fugir a situações de perigo. Uma dessas maneiras era falar com o atacante. Foi o que fiz: comecei a falar com o meu violador enquanto era violada.

Inventei uma história. Disse-lhe que estava a morrer, disse que era doente terminal, continuei a falar, a contar histórias sobre a minha vida — foi uma loucura, e no início ele nem estava a acreditar em mim, mas no final... Toda a dinâmica mudou e ele foi-se embora. Deixou-me viva.

Ele estava armado e queria mesmo acabar com a minha vida. Não o fez. E isto foi por causa de uma coisa que aprendi na escola, se ninguém mo tivesse dito, nunca pensaria nisso.


Linhas de apoio violência sexual

Em Portugal existem algumas organizações para apoiar sobreviventes de violência sexual.

APAV | Linha de apoio à vítima: 116 006

Associação de Mulheres Contra a Violência | Linha de emergência: 21 380 21 65

O Footsteps to Inspire está também aberto às suas histórias. Se foi vítima de violência sexual, pode entrar em contacto com Claire McFarlane através da página do projeto (em inglês).

Linhas de emergência

Para vítimas de violência doméstica, a Segurança Social disponibiliza a linha de emergência gratuita 144.

Para situações em que precisa de apoio urgente, ligue 112.

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