A manhã estava cinzenta, como uma qualquer outra manhã de inverno em Bruxelas. Na Grand Place (Grote Mark), no centro da capital belga, uma majestática praça quadrada, Património Mundial da UNESCO, palco habitual de romaria de milhares de turistas e autóctones, o único burburinho que se assinalava naquelo enorme terreiro, excecionalmente vazio, ecoava de uma das casas apalaçadas que caraterizam o local. Era um casamento.

“Estamos a casar em tempos pandémicos”, anuncia, Itzel, 32 anos, mexicana, nascida na Cidade do México, instantes depois de dizer o “Sim” numa capela do século XIX, sita no edifico gótico que alberga a câmara municipal. Ele, Benjamim, um francês de Lille, 30 anos, está menos expansivo, mas não menos contente numa das mais importantes manhãs de sexta-feira da sua vida.

Conheceram-se “durante o Erasmus, na Bélgica”, recua 10 anos. “Depois, eu fui para o México, ele para França”, continua. “Reencontrámo-nos em Bruxelas, há três anos”, remata, cidade onde, desde então, ambos trabalham em organizações internacionais.

“Foram os noivos e mais seis pessoas, já com padrinhos e pais”, explica a noiva, vestida de branco e bouquet nas mãos.

Tiraram a fotografia da praxe com uma árvore de Natal como pano de fundo. Os convidados estão à distância, respeitando o distanciamento social pedido. Sem abraços, beijos, risinhos histéricos ou lágrimas vertidas em sinal de felicidade. Todos de máscara, sem sorrisos à mostra.

Não há direito ao habitual lançamento do ramo de flores que passa o testemunho à próxima noiva. “Não se pode, por causa do coronavírus”, avisou Itzel, no preciso instante em que a sonoridade do seu sorriso é abafada pelas festividades de um outro casamento (árabe). Também este, com pouco mais convidados que os progenitores e quem abençoa a união. A diferença esteve no barulho e nas palmas do pai e nos uivos da mãe da noiva.

Num cenário de multidões, a ausência de gente é explicada pelo confinamento imposto na Bélgica. As medidas, iniciadas em novembro, começam, no entanto, a serem levantadas, a partir dos primeiros dias de dezembro, conforme anunciou, horas depois, o primeiro-ministro belga, Alexander De Croo.

Para trás fica um país fechado, pela segunda vez, este ano, devido ao tsunami de casos de covid-19 registados no país. Para a frente, o comércio e lojas não-essenciais, reabrem, faseadamente, alguns dias após a chegada de São Nicolau, o “tal” responsável pela distribuição de presentes às crianças belgas na madrugada de 5 para 6 de dezembro. Os museus podem, também, começar a reabrir portas.

Pelo meio, o vírus remete os mercados de Natal para o próximo ano e impede, ainda, a reabertura de cabeleireiros, restaurantes, bares e cafés, mantém em vigor a restrição de contactos sociais e o recolher obrigatório da meia-noite às 5 da manhã, comunicou De Croos.

O SAPO24 viajou ao centro da União Europeia, Bruxelas, ao epicentro dos diamantes, Antuérpia (a norte), com aterragem e voo de regresso em Charleroi, aeroporto que serve de alternativa, a sul, a quem pretende “aterrar” no coração político e económico da Europa. Documentou, ainda a tempo, um país literalmente de portas fechadas. Salvo honrosas exceções de serviços prestados e venda de bens de primeira necessidade e de consumo. 

Na zona dos fatos escuros, são os skaters quem anda de um lado para o outro

O prenúncio foi anunciado a um bom par de mil pés, no ar, pelo comissário de bordo do voo FR1301. “Comprem no avião, porque em Bruxelas ainda está tudo fechado”, avisou, tentando despertar a atenção de um avião com cerca de 20% da capacidade. As compras não passam de perfumes e relógios.

Aterragem feita, a viagem de comboio de Charleroi a Bruxelas dá-se na companhia de bancos vazios. Um vazio que se estende em terra firme.

O coração da vida comunitária, o quarteirão das decisões europeias, vive, tal como todo o país, em teletrabalho. Palco de excelência dos “fatos escuros”, de gente aprumada que transita entre corredores, a animação surge por via de manobras de skate executadas por jovens estudantes. O piso, liso, e bem cuidado, é convidativo à arte de deslizar e saltar degraus.

Se, numa cidade em constantes obras, eram visíveis algumas filas de carros, nas artérias principais, tal movimento contrastava com o silêncio a cada esquina dobrada. Fosse em ruas pedonais, de comércio, de artes e cultura ou zonas residenciais.

As ruas estão vazias e as lojas fechadas. Umas, temporariamente, enquanto outras apelam, em jeito de socorro, às compras online. As cadeiras das esplanadas de restaurantes permanecem empilhadas. O take-away é a única via, em especial, no fast-food ou na gastronomia em tons saudáveis.

A pouca movimentação regista-se à porta de lojas de conveniência, mercearias e frutarias, supermercados e farmácias, espaços e serviços autorizados na venda ao público. Algumas lojas de chocolates, uma iguaria icónica na Bélgica (levámos uma caixa) e waffles (provámos um), um número reduzido de livrarias de banda desenhada, lojas de máscaras ou uma loja de discos vinil estavam igualmente abertas. A nossa vista e visita não alcançou nada mais. E já nos esquecíamos. O Manneken Pis, cópia da famosa estátua de 50 centímetros, de um rapaz nu a urinar na pia de uma fonte, estava a ser vestida para o Natal.

Dormir no bairro dos diamantes sem os ver e o hotel que mudou de vida

A mudança de cidade não apresenta nada de novo. A notícia, tardia, é dada na receção de um hotel moderno, localizado ao lado da centenária estação central de Antuérpia e paredes meias com o bairro judeu. “Se quiserem jantar, há alguns restaurantes para delivery e takeaway, mas só até às 22h00”, avisou a jovem rececionista a quem recorremos, recusando o self check-in promovido pela unidade hoteleira.

Bastou um passeio de bicicleta até ao “centro” para comprovar. As duas rodas de mochilas às costas serpenteiam entre ruelas transportando as refeições a quem está recolhido em casa. O número de transeuntes em busca de um jantar não entra sequer para as estatísticas.

Na alvorada, depois de um pequeno-almoço no quarto, cumprindo o ritual da nova normalidade, no distrito onde se compra e vende de diamantes não se vê quase ninguém. O "melhor amigo da mulher" não é bem essencial e as portadas de ferro tapam as montras. Os escritórios de certificação das pedras preciosas mantêm-se, no entanto, ativos, embora a atividade não seja muita.

O regresso a Lisboa não se fez sem a última paragem. Charleroi. Uma breve e curta permanência, o suficiente para levar na memória um registo de uma cidade quase fantasma. Exceção feita numa juventude irrequieta de copo e sandwich na mão a vagabundear.

De resto, ruas desertas, sem viva alma, teatros fechados, um letreiro de um hotel levado para outra paragem e muitos espaços comerciais fechados, uns temporariamente, outros, definitivamente, encerrados. Para sempre, não restando vestígio daquilo que vendiam, um registo de uma crise económica que padeceu à crise sanitária e de saúde pública.

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