Em conferência de imprensa no Ministério da Saúde, António Lacerda Sales declarou que “não há racionamento dos testes nem em nenhum tipo de material”.

“Estamos a testar prioritariamente os profissionais de saúde que são sintomáticos", salientou, admitindo que as autoridades de saúde ponderam alargar os testes a profissionais assintomáticos “que possam ter tido contactos em cadeia com doentes Covid e pessoas que trabalham com as populações mais vulneráveis”, como “lares e residências de idosos”.

A resposta foi face às denúncias de alguns hospitais de que os profissionais de saúde não estão todos a ser testados, mesmo aqueles que não usam proteção individual, o que viola uma norma da Direção-Geral da Saúde.

Relativamente aos equipamentos médicos e material de testagem, o secretário de Estado da Saúde repetiu os números referidos ontem à noite pelo primeiro-ministro, António Costa: compra de 500 ventiladores provenientes da China, "que chegarão progressivamente até meados de abril", e 280 mil testes, sendo que "durante esta semana chegarão ainda 80 mil testes".

No entanto, perante as perguntas dos jornalistas quanto à discrepância dos números avançados na última semana — a ministra da Saúde Marta Temido falou de uma capacidade de 9000 testes do SNS no passado dia 21, mas o secretário de Estado da Saúde baixou ontem esse valor para 2500 —, Lacerda Sales fez um esclarecimento quanto à capacidade de testagem do Estado.

O stock disponível de testes tem de se "racionalizar", indicando que se trata de "racionalização, não racionamento" para perceber “quais são aqueles que devem fazer estes testes”, atendendo a "uma ordem de dimensão e de uma escala.”

Lacerda Sales especificou que existem "30 mil testes em stock e que há "uma capacidade diária de testagem de 4000 testes", mas que se estão a fazer "cerca de 2000 a 2300 testes por dia" porque se está a ir de encontro a um "critério de racionalização". O secretário de Estado da Saúde reiterou que o Estado não está a "poupar" quando não aplica a sua capacidade máxima de testagem, mas sim a fazê-lo "de forma séria, responsável e racional".

Lacerda Sales salientou que tem que haver “um critério racional” para aplicar os testes porque “não se pode fazer um rastreio populacional de 10 milhões de habitantes, não há capacidade para isso”.

“Esse critério vai ao encontro do que é a evolução e o dinamismo do próprio surto”, afirmou, acrescentando que “é evidente que se os casos começarem a aumentar e a estratificação dos grupos de risco for bem definida, temos que avançar para testagem em maior número”.

Há uma semana, por exemplo, a questão dos idosos e profissionais dos lares não se colocava, disse, mas as mortes e contágios verificados entretanto nesse tipo de instituições levam a colocar essa hipótese de testar as pessoas.

“Tudo isto terá que ser feito com suporte de evidência científica e para isso temos a Direção-Geral da Saúde, em consonância com a nossa capacidade de aquisição no mercado”, indicou.

O sub-diretor geral da Saúde, Diogo Cruz, afirmou que com a nova norma emitida na segunda-feira à noite pela DGS se alarga o número de testes a fazer diariamente, aplicando-os a “todas as pessoas que exibam sintomas”, seja tosse ou febre, sem precisar de serem vários sintomas simultâneos.

“Basta ter febre ou tosse. Nós recomendamos que ao mínimo sintoma de queixas respiratórias ou febre seja feito o teste”, salientou.

Diogo Cruz acrescentou que até agora os testes eram feitos com base nos sintomas e na região geográfica de onde a pessoa em causa viesse, mas agora pode “massificar-se o teste a todos os doentes que sejam sintomáticos”. “Permite que os clínicos, localmente, decidam quem querem testar livremente”, referiu.

Diogo Cruz ressalvou que “o grande problema” dos testes é o facto de o período de incubação ser de 14 dias. “Neste momento, fazer o teste e estar negativo não quer dizer que amanhã a pessoa não esteja positiva, o que nos dá uma falsa sensação de segurança”, indicou.

“A realização de testes enquanto as pessoas estão assintomáticas não nos dá nenhuma garantia que a pessoa não venha a desenvolvê-la, sendo que hoje não toma as medidas de proteção e amanhã passa a estar infetada e pode contagiar as outras pessoas”, disse ainda.

Na orientação da DGS, dirigida a profissionais de saúde, destaca-se que “todos os casos suspeitos de infeção (…) devem ser submetidos a diagnóstico laboratorial”, a ser realizado, “preferencialmente, em laboratório hospitalar da Rede Portuguesa de Laboratórios para o Diagnóstico do SARS-CoV-2, na rede complementar de laboratórios privados ou no Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge”.

No entanto, quanto aos profissionais de saúde, nos casos assintomáticos, Diogo Cruz diz que é deixado "aos critérios das autoridades de saúde quando avaliam os contactos a decisão de fazer ou não fazer os testes”.

Portugal registou até agora 2362 casos confirmados de infeção pelo novo coronavírus, Covid-19. Estes valores significam um aumento de 15%, somando-se mais 302 casos desde ontem, 23 de março. Foram também registados mais sete mortos, avolumando o número de casos mortais para 30. O número de recuperações também aumentou para 22, somando-se mais oito casos de doentes que recuperaram da Covid-19.

De resto, o governante avançou inicialmente que tinham sido registados 29 mortos, retificando mais tarde para 30 esse número durante a conferência, justificando que os primeiros valores foram os que lhe tinham sido indicados antes de se dirigir aos jornalistas.

Lacerda Sales furtou-se a responder qual seria o número de infetados e doentes em estado grave a partir do qual o Sistema Nacional de Saúde ficaria com a sua resposta comprometida, dizendo que “os cenários são variados”, sendo preciso “criar condições para responder aos piores cenários” ao “preparar as instituições de saúde”.

Depois de anunciar os mais recentes dados sobre o número de infeções, mortes e recuperações em Portugal, Lacerda Sales fez um ponto de situação sobre o repatriamento dos cidadãos que estavam a bordo do cruzeiro que atracou em Lisboa, o MSC Fantasia.

Lacerda Sales deixou ainda uma nota sobre o repatriamento de passageiros a bordo do cruzeiro atracado em Lisboa, dando conta que hoje mais de mil estarão de regresso aos seis países de origem.  A bordo do MSC Fantasia estavam 1.338 passageiros, sendo a maioria da União Europeia, Reino Unido, Brasil e Austrália. Destes, 20 portugueses e sete titulares de Autorização de Residência em Portugal desembarcaram esta segunda-feira, 23 de março. Entre os passageiros portugueses houve um que testou positivo e por isso está em isolamento em casa, sob vigilância das autoridades.

Para "cerca de 1000 passageiros" de origem internacional, está "em curso uma operação de repatriamento", referiu Lacerda Sales, sendo estes encaminhados para vários voos, decorrendo o processo "com as necessárias medidas de segurança e de saúde pública". A operação aérea não é financiada pelo estado português.

O governante mencionou também que o sistema nacional de saúde entrará "a partir das zero horas do dia 26 de março" na "fase de mitigação". Esta, disse, "preconizará uma abordagem que implicará a criação de, pelo menos, uma área dedicada à Covid-19 em cada agrupamento dos centros de saúde".

No entanto, Lacerda Sales por um lado reiterou que "as pessoas com sintomas devem fazer um contacto prévio com o SNS24, como vai acontecendo", como por outro admitiu que, com o tempo, a Linha de Apoio ao Médico se vá "tornando redundante", o que "poderá levar gradualmente à libertação" dos  médicos responsáveis pelas chamadas "para outras frentes de combate da epidemia".

Quanto à questão do risco a que estão expostos os lares da terceira idade, Lacerda Sales recordou que na nova norma a ser aplicada durante a fase de mitigação, no grupo prioritário de pessoas em "situações em que não seja possível testar todos os doentes com suspeita de Covid-19" estão "doentes em situações de maior vulnerabilidade, tais como residência em lares e
unidades de convalescença".

O secretário de Estado da Saúde deixou ainda um agradecimento às ordens profissionais, que foram "inexcedíveis na forma como têm trabalhado com a tutela", dando como exemplo a Ordem dos Médicos, “deu uma bolsa de cinco mil médicos, muitos dos quais estão a ser aproveitados na linha LAM e prestação direta de serviços nos hospitais” e a Ordem dos Enfermeiros que deixou à disposição “cerca de mil enfermeiros, a maioria dos quais está a ser utilizada”.

DGS vai emitir orientação sobre presença de acompanhantes em partos

O subdiretor-geral da Saúde considerou que os hospitais estão a levar à letra a restrição de visitas por causa da pandemia da Covid-19 para impedir as grávidas de ter acompanhantes na sala de partos.

“Nós estamos a analisar isso e vamos emitir em breve uma orientação sobre esse assunto”, disse Diogo Cruz.

“Eu tenho a impressão que isso será uma medida à letra da restrição de visitas”, indicou, instado a comentar os impedimentos à presença de acompanhantes durante o parto em hospitais e maternidades portugueses, apesar de a Organização Mundial de Saúde defender que as grávidas têm o direito à presença de uma pessoa, independentemente da suspeita ou confirmação de infeção por coronavírus.

Lacerda Sales, considerou que “é preciso defender grávidas e bebés” e que “os familiares compreenderão esta medida de algum distanciamento”.

Na opinião do governante deverá manter-se a restrição porque se trata de “um determinado período de tempo, com um limite temporal”, apesar de não se saber ainda qual é esse limite.

Apesar de o secretário de Estado achar que o impedimento “tem sido muito bem aceite e compreendido”, há cerca de 6.400 pessoas que assinaram uma petição a pedir para que seja levantado.

“Seremos com certeza sensíveis a essa petição e faremos uma avaliação”, garantiu Lacerda Sales.



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