"[Os pedidos] aumentaram imenso, muito. [...] Há pessoas que estavam com contrato de duração determinada e ficaram sem trabalho e mesmo que tenham subsídio de desemprego é muito curto. E muitas pessoas que trabalham sem declarar e, a partir do momento em que não há trabalho, acabou-se. Não têm rendimentos", afirmou Ilda Nunes, provedora da Santa Casa da Misericórdia de Paris, em entrevista à agência Lusa.

A provedora não gosta de falar em números, mas arriscou um "aumento entre 25 a 30%" dos pedidos de ajuda "em tempo normal" entre a comunidade portuguesa em França.

Ilda Nunes chegou a França aos 15 anos e é atualmente professora de Francês, sendo uma figura ativa na comunidade portuguesa na região parisiense. Em 2011, tornou-se secretária-geral da Santa Casa da Misericórdia e, este ano, foi eleita a nova provedora da instituição.

"É uma bela causa, porque vejo a Misericórdia como uma instituição que se preocupa com os outros. A Misericórdia é equivalente a partilha, solidariedade e empatia com as pessoas que sofrem", indicou a provedora eleita no mesmo ano em que a organização de apoio à comunidade portuguesa comemorou 25 anos.

Além da ajuda alimentar a cerca de 1.000 famílias na região parisiense, a Santa Casa da Misericórdia de Paris dá apoio social, jurídico e psicológico à comunidade portuguesa, com um número de emergência que está ativo 24 horas.

Os pedidos chegam com "receio", mas os membros da organização respondem sem preconceitos.

"Qualquer pessoa seja ela de que origem for, seja ela emigrante ou não, é evidente que é difícil. E os portugueses tiveram sempre também esse receio de dizer que precisavam”, notou Ilda Nunes.

E sublinhou: “Sobretudo (...), com uma certa vergonha de não terem sido tão bem sucedidos como outros e aí, é a nós, membros da Santa Casa, de pôr as pessoas à vontade e de mostrar que nós não estamos a fazer nada de especial".

A instituição possui ainda dois jazigos em Enghien-les-Bains, na região parisiense, onde sepulta cidadãos portugueses sem família. No Natal, a Santa Casa da Misericórdia apoia também os reclusos de origem portuguesa em França enviando-lhes um cheque de 50 euros.

Ilda Nunes lamentou que os consulados tenham perdido ao longo dos anos o papel de apoio aos mais necessitados.

"Nós temos uma boa relação com o consulado e trabalhamos em parceria. Se houvesse um serviço social, como já houve, muitos dossiers que nos chegam à Santa Casa seriam resolvidos pelos assistentes sociais do consulado. Infelizmente, foram acabando, pouco a pouco", frisou.

Para levar a cabo esta obra social, a instituição apoia-se nas quotas pagas pelos cerca de 400 membros e nos donativos dos benfeitores, muitos deles empresários portugueses em França.

O aumento dos pedidos de ajuda este ano, foi seguido pelo aumento das contribuições dos benfeitores.

"Há sempre pessoas muito atentas às dificuldades dos outros e está a acontecer muito isso este ano, com as pessoas a pensarem mais em solidariedade. As pessoas estão-se a mobilizar e estamos a ter bons retornos", disse Ilda Nunes.

Mas não é suficiente. Com necessidades constantes, a provedora apelou aos emigrantes portugueses em França que possam ajudar para aderirem à instituição.

"O apelo que faria é que as pessoas aderissem à Santa Casa, a quota é de 25 euros e isso permite que essas verbas possam ser usadas para comprar alimentos quando já não houver", concluiu.

Comunidade portuguesa em França volta a ajudar famílias em dificuldades

O coletivo Todos Juntos voltou a fazer recolha de alimentos no sábado, na região parisiense, para ajudar as famílias apoiadas pela Santa Casa da Misericórdia de Paris e novas iniciativas já estão a ser pensadas para 2021.

Após ter recolhido 15 toneladas de alimentos em junho também para a Santa Casa da Misericórdia de Paris, o impacto da crise da pandemia de covid-19 nas famílias de emigrantes em França voltou a fazer-se sentir e levou o coletivo a organizar uma nova recolha.

"Há um mês, das 15 toneladas recolhidas em junho só havia 300 quilos para distribuir, e daí esta nova campanha feita um pouco à última hora", disse Fernando Lopes, diretor-geral da Rádio Alfa, que encabeça a iniciativa Todos Juntos, em declarações à agência Lusa.

A Rádio Alfa, que difunde em português na região parisiense, uniu-se a diferentes instituições da comunidade portuguesa para promover esta nova recolha de alimentos em cerca de 25 lojas, associações e supermercados portugueses à volta da capital. Uma recolha importante para a Santa Casa da Misericórdia de Paris.

"Precisamos que estes alimentos durem o máximo de tempo possível. A recolha vai ser para nos ajudar. Felizmente que eles fizeram a outra recolha em junho, porque não tínhamos mais possibilidades de ajudar as pessoas", afirmou Ilda Nunes, provedora da Santa Casa da Misericórdia de Paris.

Devido à atual situação sanitária em França, a recolha dos bens alimentares vai fazer-se "sem grandes concentrações" de pessoas e alguns donativos vão ser feitos em forma de grandes encomendas diretamente de Portugal.

Ao coletivo Todos Juntos têm chegado vários pedidos de ajuda, alguns deles de cariz urgente.

"Recebemos uma mensagem há três dias de três famílias na região de Bordéus que não têm sequer comida para as crianças. A Academia do Bacalhau de Bordéus foi fazer as compras em urgência e aqui de Paris vamos mandar cabazes", lembrou Fernando Lopes.

Em 2021, Fernando Lopes antecipa que as carências das famílias portuguesas em dificuldades em França não vão diminuir.

"Estou cada vez mais consciente que vai haver uma terceira vaga [...] Vai ser muito complicado. Resolver a parte da alimentação não é resolver tudo. As famílias vão ter encontrar estabilidade, um emprego e saúde. Sabemos que vamos ter de fazer muito em 2021", lamentou o diretor-geral da Rádio Alfa.

Logo após o Natal, o coletivo Todos Juntos já está a pensar uma nova iniciativa onde serão entregues caixas com alimentos, produtos de higiene e brinquedos para que as famílias carenciadas não fiquem esquecidas na quadra festiva.

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