O sismo registado às 17:19 locais (18:19 em Lisboa) do último sábado, “com magnitude 2,9 (Richter)” e com um epicentro a cerca de dois quilómetros a oeste/sudoeste da freguesia do Norte Grande, na ilha de São Jorge, foi o início de uma crise sísmica que se tem vido a manter acima dos valores de referência.

No mesmo dia, de acordo com a página da Internet do Centro de Informação e Vigilância Sismovulcânica (CIVISA), desde as 18:20 locais (19:20 em Lisboa) a terra voltou a tremer 28 vezes naquela ilha, registando sismos de magnitudes entre 2,1 e 3,3 na escala de Richter.

Já no domingo, o CIVISA local dava conta que, em 24 horas, tinha registado cerca de sete centenas de sismos, todos de baixa magnitude, na sequência da crise sísmica que teve origem sábado no sistema vulcânico fissural das Manadas, na ilha de São Jorge. No entanto, apenas 48 tinham sido sentidos pela população.

Este sistema fissural, que coincide com os principais cones vulcânicos da ilha, encontra-se ainda ativo e tem agora registado uma libertação de energia que incomum nos últimos anos.

Por forma a acompanhar de perto a evolução da crise sísmica - que ocorre numa zona entre a vila das Velas, na zona sul da ilha de São Jorge, e a Fajã do Ouvidor, na costa norte - foram enviados quatro técnicos do CIVISA para a ilha. Foram ainda transportadas duas estações sísmicas, que se juntam às duas que já existiam em São Jorge.

O presidente da CIVISA, Rui Marques referiu, em declarações à Lusa, esta segunda-feira, que “a única coisa” passível de se “afirmar com certeza é que os valores estão acima daquilo que é o normal para este sistema vulcânico”, sublinhando que “o único parâmetro que está fora do normal, neste momento, é a sismicidade”.

“Neste momento, a nossa preocupação com este sistema é a mesma preocupação que devemos ter com qualquer sistema vulcânico ativo. Temos um sistema vulcânico ativo que neste momento tem uma crise sísmica. Vamos continuar a monitorizar”, acrescentou.

“O CIVISA continuará a acompanhar com muita atenção tudo aquilo que são os parâmetros monitorizados, mantendo uma estreita relação com o Serviço Regional de Proteção Civil e Bombeiros dos Açores, que está também em estreita colaboração com os serviços municipais de proteção civil das Velas e Calheta”, assegurou.

  • O que é uma crise sismo-vulcânica?

Apesar de ser referido frequentemente que se trata de uma crise sismo-vulcânica, até então, tinham apenas sido registados sismos tectónicos. No entanto, uma vez que a crise sísmica se localiza sobre um sistema vulcânico ativo deve ser denominada crise sismo-vulcânica. Em termos de evolução da situação devem assim ser considerados vários cenários, em termos de atuação da Proteção Civil, nomeadamente: a possibilidade de ocorrência de um sismo de maior magnitude ou, devido ao facto de esta sismicidade ocorrer num sistema vulcânico ativo, a possibilidade ocorrer uma erupção vulcânica.

O que pode acontecer?

Perante uma atividade sísmica "muito acima" dos valores de referência, o CIVISA não exclui a possibilidade de um evento de maior magnitude ou possível erupção.

“Continuamos com uma sismicidade claramente muito acima daquilo que é o normal para este sistema vulcânico fissural. Já foram registrados, desde sábado, aproximadamente 1.800 eventos e destes já foram sentidos 94. Todos os sismos registados na rede do CIVISA são de origem tectónica, até ao momento”, explicou, na segunda-feira, Rui Marques.

Mas “temos de colocar todos os cenários possíveis em cima da mesa, não descartando qualquer um, ao nível de proteção civil de planeamento de emergência, de gestão de riscos”, referiu, reiterando que se trata de “um sistema vulcânico ativo” que “teve uma erupção em 1580 e outra em 1808”.

O presidente do CIVISA explicou ainda que há “a possibilidade” da ocorrência de “um sismo com uma magnitude superior” aos eventos que se têm sido verificados até então.

“Não é necessária muita magnitude para que haja danos. Estamos a falar de epicentros muito próximos das Velas. E, por outro lado, está a ocorrer esta sismicidade com uma frequência muito elevada num sistema vulcânico ativo, o que poderá evoluir para aquilo que é uma erupção vulcânica”, detalhou.

Rui Marques sublinhou, no entanto, que o CIVISA continua a proceder “a medições de dióxido de carbono no solo”, acrescentando que neste momento “não existem alterações relativamente aos valores do passado”.

Até agora, todos os sismos registados têm sido de baixa magnitude, variando entre 1,2 e 3,6, tendo o maior sismo ocorrido nas primeiras horas da crise sísmica. De acordo com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, devido às características dos sismos registados e a localização geográfica das populações, é expectável que mais de 100 sismos possam ter sido sentidos, sendo que até ao momento a intensidade máxima observada foi de IV.

  • Há evidência de atividade vulcânica em São Jorge? 

O secretário regional da Saúde dos Açores, Clélio Meneses - que tutela também a Proteção Civil - ,  afirmou, na segunda-feira,  numa conferência de imprensa em Angra do Heroísmo, que não havia, até então, evidências de atividade vulcânica em São Jorge.

Segundo indicou, a atividade sísmica está a uma profundidade entre os seis e os 12 quilómetros, o que “não indicia qualquer risco iminente de atividade vulcânica”

“É um sinal, dizem os especialistas, de que não está muito perto da superfície, o que não será propriamente propiciador de erupção vulcânica. No entanto, tudo isto está a ser acompanhado com rigor, com precisão, de modo que possamos acautelar a segurança das pessoas”, assegurou.

O presidente do Governo dos Açores, José Manuel Bolieiro, explicou também  que “não há, para já, qualquer registo de elevação da manta magmática. Mas, entre os fatos e os cenários projetados, temos de fazer um equilíbrio. É uma situação preocupante, pois todo o epicentro destes sismos está na ilha, não está no mar”.

O chefe do executivo, que deverá deslocar-se na quinta-feira à ilha de São Jorge devido à crise sísmica, notou ainda que os sismos “estão bem profundos”.

“O que é preocupante é que [os sismos] estão na massa tectónica da própria ilha”, disse.

Bolieiro reiterou também que a sismicidade registada “tem sido tectónica”, mas afirmou que, caso sejam “criadas fissuras na rocha”, tal “pode evoluir para uma situação vulcânica”.

“Abrir fissuras pode permitir que o magma vulcânico encontre, nas fissuras, oportunidade de subir”, explicou, afirmando ter tido uma reunião com o CIVISA na Universidade dos Açores.

De acordo com o IPMA, "a origem desta sismicidade pode estar relacionada com a ascensão de magma num dique magmático, fenómeno esse que provoca fragmentação das rochas em profundidade o que se traduz em libertação de energia elástica sob a forma de sismos".

Meios em alerta e doentes transferidos - a resposta que está a ser preparada

Ainda que não haja evidências de atividade vulcânica, as entidades têm de estar preparadas para dar “uma resposta adequada”, segundo Clélio Meneses. Assim, o Governo Regional dos Açores já está a preparar cenários de retirada de pessoas da ilha, caso a crise sísmica se agrave.

“Estamos a cuidar deste problema em permanência com os melhores técnicos para, no caso de ser necessário, termos a resposta preparada para intervir. Esta resposta tem uma natureza ao nível de necessidade de evacuações e de cuidados de saúde e tudo isto está a ser preparado para, na nossa esperança, não ser necessário”, afirmou Clélio Meneses.

Desta forma, como medida preventiva, os utentes internados no Centro de Saúde das Velas, que está mais próximo dos epicentros dos sismos, serão deslocados para o Centro de Saúde da Calheta, na outra ponta da ilha de São Jorge, “no sentido de precaver qualquer situação que torne mais difícil a movimentação, a mobilidade e alguma evacuação”, explicou.

Além disso, segundo informou o titular da pasta da Saúde nos Açores, está a ser apurado, em colaboração com a Câmara Municipal das Velas, “o número de pessoas com mobilidade afetada, para terem uma proteção acrescida”, por forma a "poder intervir com rapidez e eficácia de forma a garantir a segurança das pessoas”.

Clélio Meneses disse ainda que o executivo açoriano entrou em contacto a Atlânticoline, empresa pública responsável pelo transporte marítimo de passageiros nos Açores, e com as Forças Armadas, caso haja necessidade de retirar pessoas.

O presidente da Câmara Municipal das Velas, Luís Silveira, revelou esta quarta-feira em conferência de imprensa que foram mobilizados mais meios aéreos para a eventualidade de serem necessários devido à crise sísmica na ilha, além de um navio.

Luís Silveira referiu que, caso serem necessários, estão “mais um helicóptero e um avião estacionados na Base das Lajes”, além do "navio que está a chegar à ilha de São Jorge".

Está também a ser preparado um campo militar, localizado no concelho da Calheta, que, em caso de necessidade, ficará “dotado das condições necessárias, tais como água e energia, numa coordenação dos serviços municipais da Câmara Municipal da Calheta”.

“O plano que está definido é que as pessoas sejam colocadas todas na zona da Relvinha, Ribeira Seca, sendo que o centro de Saúde da Calheta será o de referência”, declarou o autarca.

O presidente da Câmara Municipal das Velas adiantou também que será na Calheta que “vai ser feita a triagem das pessoas a alojar, a realojar e, eventualmente, a levar para fora da ilha, se chegar-se a esta dimensão”.

O autarca identificou como a “área mais crítica a zona entre as Velas e os Terreiros, onde residem três mil pessoas”, sendo que o concelho tem cinco mil habitantes.

Já foram também enviados para a ilha “um reboque multivítimas, equipamento de busca e intervenção em estruturas colapsadas, detetores de soterrados, câmaras de buscas e equipamentos de estabilização”, além de meios humanos do Serviço Regional de Proteção Civil e Bombeiros dos Açores (SRPCBA) e do CIVISA para a ilha.

O primeiro-ministro, António Costa, também disponibilizou esta quarta-feira "todos os meios da República que sejam necessários".

"Falei com o presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, para ponto de situação na ilha de São Jorge e disponibilidade de todos os meios da República que sejam necessários, para além do apoio que Forças Armadas e @ipma_pt têm assegurado", escreveu numa publicação na rede social Twitter.

Costa indicou ainda que que se vai manter "em contacto direto e permanente" com o presidente do executivo regional 24 horas por dia e sete dias por semana.

O secretário regional da Saúde dos Açores apelou também à calma da população, pedindo que esteja atenta à informação das entidades competentes.

“O grande conselho é que as pessoas mantenham a calma possível num momento de transtorno como este que estão a viver desde sábado, tal é a intensidade da atividade sísmica, mas estejam atentos à informação que vai ser dada”, afirmou.

Clélio Meneses desaconselha deslocações para a ilha de São Jorge, que possam ser adiadas, dando como exemplo atividades desportivas ou culturais.

No comunicado sismológico mais recente, o Serviço Regional de Proteção Civil e Bombeiros dos Açores, que cita o CIVISA, revelou que os 20 sismos tiveram magnitude que variou entre 1,6 e 2,7 na escala de Richter e foram sentidos com a intensidade máxima de III/IV (Escala de Mercalli Modificada).

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