Nenhum escalão fica sem apoio e tudo começou com um grupo na rede social WhatsApp. Ibraim Cassamá, Hugo Machado e Paulo Silva já se conheciam dos relvados e deram o pontapé inicial para criar a associação “Do Futebol para a Vida”. Depressa eles e outros colegas juntaram cerca de 200 contactos do mundo do futebol no ‘chat’ digital. De diretores de clubes a árbitros, o grupo pôs mãos à obra no próprio dia em que surgiu a ideia.

Paulo Silva corre atrás da bola pelo Real Sport Club, em Sintra, mas também pela associação “Do Futebol para a Vida”. Ao SAPO24 conta o que o move: “Podia estar em casa a descansar, tranquilo, porque felizmente estava bem, mas não. Todos precisam de ajuda nestes momentos. Estou sempre pronto a ajudar.”

Para “Paulinho”, é um momento de ação. Conta que nesse grupo solidário várias pessoas procuraram ajudar o mais depressa possível. Fala de Fernando Madureira, líder da claque do Futebol Clube do Porto: “Eu liguei ao Fernando e foi a primeira pessoa a dar dinheiro para compras”. Com o dinheiro angariado, foram abastecer-se ao supermercado para comprar alimentos para vários jogadores.

“Nunca pensámos que o projeto fosse atingir um nível tão grande como está agora. São imensos casos que precisam de ajuda. Surpreende-me muito”, confidencia Paulo Silva.

A associação ajuda jogadores, mas não só. Os pedidos de apoio de civis são respondidos de acordo com a gravidade da situação em que estão: “Não podemos ficar indiferentes a outros casos e temos de ajudar.”

Do Futebol para a Vida
Da esquerda para a direita, Ibraim Cassamá, Paulo Silva e Sandro Silva, da organização da associação Do futebol para a Vida créditos: Associação Do futebol para a Vida

Rapidamente mais pessoas se juntaram a este que podia ser um campeonato de solidariedade. Dentro da lista de nomes do futebol que têm ajudado, através da associação, estão Paulo Futre, ex-jogador do Atlético de Madrid; José Mourinho, o “Special One” que treina agora o inglês Tottenham; Bruno Fernandes, jogador do Manchester United; e Nélson Semedo, que atua agora pelo espanhol Barcelona.

“O Futre tem sido incansável. Pedimos alguma coisa e está sempre pronto a ajudar”, conta Paulo Silva. José Mourinho também é elogiado pela organização do projeto solidário: “Toda a gente conhece o Mourinho e ele vir abraçar o projeto diz muito sobre o coração enorme que tem".

Outro dos que se juntaram para ajudar famílias em fases difíceis foi precisamente o treinador do clube campeão, Sérgio Conceição. Ibraim Cassamá, da organização, conta que o técnico do Futebol Clube do Porto deu o seu contributo a dez famílias: "Deu quase um supermercado a cada. Nem estou a exagerar: já foi há dois meses e até hoje não voltámos a ajudar estas famílias."

“Bruno Fernandes, Rui Fonte… têm sido todos incríveis connosco”, diz Paulo Silva. Falta ainda chegar a outra cara (e pernas) do futebol português lá fora, a de Cristiano Ronaldo.

“Temos pessoas de todo o lado. Criou-se mesmo uma família enorme”, conta ao SAPO24 Paulo Silva, que está no projeto desde o início. A lista de apoiantes continua a crescer entre figuras de dentro e fora do futebol: diretores de clubes, árbitros e ex-árbitros, jogadores e ex-jogadores. Toda a ajuda é bem-vinda.

Associação é como o camisola 10: distribui ajuda a todos os flancos

Na semana passada, segundo dados partilhados pela associação, pouco mais de quatro centenas de pessoas receberam ajuda. Quase metade destas, 171, são jogadores de futebol, mas famílias de jogadores e civis também receberam apoio. Esta informação também pode ser consultada no site, ao minuto.

E Paulo Silva deixa uma ressalva: “Os jogadores que pediram ajuda em março precisam de ajuda agora. A situação não ficou melhor e eles não jogam”. Assim, as 400 pessoas a que dão apoio repetem-se a cada mês.

A ajuda chega pela forma de bens de primeira necessidade, “mas também já ajudamos com rendas de casa, pagamentos de contas, já oferecemos um sofá. Já fizemos de tudo um pouco”, acrescenta Paulo Silva.

“Muitos jogadores tiveram vergonha de pedir ajuda. Sempre reforçámos, em entrevistas, que ninguém precisa de saber que ajudámos. O certo é que ninguém sabe os jogadores que ajudámos”. Só os que não se importam de dar a cara são conhecidos. "Ajudamos quem precisa, seja da primeira ou da última divisão", acrescenta.

Frisa que ninguém tem de sentir vergonha: “Se calhar eu também sentiria vergonha a pedir ajuda ao início. Mas temos de perceber que neste momento são eles e amanhã podemos ser nós. A vergonha tem de ficar de parte".

“Todos os sábados, damos os alimentos e o 1.º Dezembro faz 100 refeições"

Quem quer ajudar, pode fazê-lo através do IBAN disponível no site. A associação dispõe de um armazém em Lisboa e Porto para receberem os alimentos doados e foi criada uma parceria com o clube 1.º Dezembro, em Sintra, para cozinhar refeições: “Todos os sábados, damos os alimentos e o 1.º Dezembro faz 100 refeições. A seguir, fazemos a distribuição.", explica Paulo Silva.

Entre donativos, de todas as formas, a ajuda tem sido suficiente: “Felizmente temos dado conta de tudo. É a melhor resposta que posso dar. Nem tenho palavras para descrever a reação que têm, quando chegamos com a comida às famílias e aos jogadores.”

Neste momento, dedicam parte dos esforços para ajudar os jogadores do Clube Desportivo das Aves, que se vêem sem vencimento. Na página do Facebook, escrevem que estão prontos “a proceder a uma vasta angariação de fundos para que juntos possamos conseguir trazer algum conforto a quem se vê privado do seu salário há mais de 7 meses.”

Carências não são problemas de agora, mas a ajuda não pode ficar no banco

Antes da pandemia, já estavam sinalizadas algumas carências. Paulo Silva, cujo clube joga na Série D do Campeonato de Portugal, conhece os problemas.

“As pessoas pensam que os jogadores ganham todos milhões [de euros], mas é mentira. Os jogadores não ganham todos o mesmo. No nosso campeonato, muitas equipas não são profissionais. Treinam de manhã e ganham 300 ou 400 euros. Sabemos perfeitamente que isso não dá para nada.”

O jogador de futebol do clube de Sintra diz ao SAPO24 que já havia necessidades a colmatar e que “vai continuar a haver se ninguém tomar medidas”. O organizador do grupo de apoio confirma que a Covid-19 veio agravar a situação: “A Covid-19 fez com que criássemos esta associação e mostrar as dificuldades que cada um tem. Se calhar, por um lado, foi bom.”

Está convicto de que a associação não se vai dissolver pós-Covid. “Isto não vai parar. Vamos crescer cada vez mais e vamos continuar.”

*Depoimentos recolhidos por Magda Cruz

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