De São Miguel ao Corvo, apenas o mar os separa. O SAPO24 ouviu vários açorianos e desafiou-os a responder à pergunta: De que é que os Açores mais precisam? Muitos dos problemas identificados e desafios sinalizados são partilhados. À cabeça, a questão da mobilidade interilhas. "Sai mais em conta ir a Lisboa ou ir ao Porto do que ir a outra ilha dos Açores", lamentam. E as críticas não se limitam à SATA, companhia aérea da Região Autónoma.

Sobre o turismo, vários concordam que é preciso reinventar o setor na região. Como? Diversificando a sua oferta, garantindo a sua sustentabilidade ou promovendo os Açores “como uma boa opção para a fixação de residência daqueles que pretendem viver e/ou investir”.

É defendido mais investimento na agricultura, que “continua a ser a principal atividade económica na região”. São pedidos mais “apoios dirigidos para a produção, infraestruturas agrícolas, formação profissional, rejuvenescimento do setor e apoios para a comercialização”. Por outro lado, sublinham, “algumas indústrias têm de melhorar as suas ineficiências, para que possam aproveitar e potenciar uma matéria-prima de excelência”.

“Vemos empresas estrangeiras que usam muita da matéria-prima açoriana, desde as algas, ao leite e às rochas vulcânicas, para criar produtos e serviços (…) A nível local isto não está a ser bem explorado”, há quem identifique.

Também é sinalizado, nas áreas da saúde existe, da educação e do ensino superior, “uma grande carência de recursos humanos especializados”. E a cultura? “É preciso leva-la a sério” e “tomar a cultura como se tem tomado o turismo nos últimos anos”.

Relativamente à administração regional, é pedido o "fim das maiorias absolutas" e a redistribuição do investimento consoante as necessidades das várias ilhas,"independentemente do número de habitantes ou da sua dimensão". "O poder está muito centralizado. Não no continente, como era antes, mas sim numa das ilhas", é criticado.

De que é que os Açores mais precisam?

1. Apostar no o turismo desportivo e catapultar o desporto açoriano
2. Agricultura com um papel mais decisivo no modelo de desenvolvimento
3. Tarifas interilhas para os residentes
4. Levar a sério a cultura e olhar a juventude como o futuro
5. Fim das maiorias absolutas e mais investimento em todas as ilhas


Apostar no o turismo desportivo e catapultar o desporto açoriano 

  • Rui Cordeiro, 37 anos, ilha de São Miguel, Presidente do Santa Clara

Os Açores precisam que as entidades governativas tenham consciência política dos contributos que a indústria do futebol, e do desporto em geral, geram anualmente para a região. Urge uma visão política pujante, arrojada e de futuro que possa catapultar o desporto açoriano para patamares desejados, evitando que o comboio passe à nossa porta sem que tenhamos oportunidade de fazer parte dele. Urge ainda um entendimento do desporto, em geral, como veículo ativo de promoção turística da região, numa altura em que os índices de turismo baixaram drasticamente. Vide o exemplo do fim de semana em que o país esteve de olhos postos no primeiro jogo com a presença de adeptos no futebol profissional, que aconteceu precisamente nos Açores.

Os Açores, pelo seu «corredor natural» geograficamente localizado entre o continente americano e o continente europeu, possuem na sua génese condições únicas para ser uma referência enquanto «futebol de natureza», com a possibilidade de receberem estágios de equipas internacionais na altura da denominada época-baixa, de equipas da Europa, Ásia, América do Norte. Como, por exemplo, já o fazem o Algarve, Tróia, Quiaios, por onde passam equipas internacionais e seleções nacionais de diversos escalões. Neste momento, não existem quaisquer infraestruturas que possam servir a região nesse sentido. Perde a região, perde o turismo.

É por demais evidente que não existe, até à data, qualquer tentativa política de incluir o Desporto no Turismo e de apostar convictamente num novo nicho de mercado que tem surgido paulatinamente: o Turismo Desportivo. Ainda mais indubitável é a necessidade premente de reinventar o turismo na região, proporcionando à economia uma recuperação das perdas geradas pela pandemia. Neste momento, a aposta deveria passar por explorar o mercado norte-americano, asiático, europeu, como mercados emissores para turismo do desporto, divulgando-se para tal a oferta dos serviços existentes nos materiais de promoção do destino.

No âmbito desta medida deverá procurar-se tirar partido dos recursos endógenos da região, revitalizando as atuais infraestruturas e construindo novas, para a necessária adequação à prática desportiva de alto nível, dirigida a um segmento de mercado de gama média/alta e que poderá gerar estágios internacionais prolongados de seleções nacionais e equipas internacionais, associados à medicina desportiva e recuperação de atletas, sendo também ideal para dinamizar o setor do Turismo em época baixa. Este produto turístico contribuiria ainda para a criação de novos postos de trabalho na região, medida que assume um caráter imperioso em qualquer política governamental, sendo ainda responsável pela fixação de novos profissionais de saúde nos Açores.

créditos: Um funcionário recolhe folhas da única plantação de chá branco, variante Índia, nas Sete Cidades, ilha de São Miguel / EDUARDO COSTA/LUSA


Agricultura com um papel mais decisivo no modelo de desenvolvimento

  • Jorge Costa Rita, Presidente da Associação Agrícola de São Miguel

Os Açores precisam de ser uma região capaz de aproveitar as características fundamentais das suas ilhas, onde a beleza mágica existente deve ser preservada e conservada, mas devidamente potenciada, para que o aproveitamento dos recursos naturais possa ser realizado de uma forma sustentada. Pelo que a aposta nos tecidos produtivos e em particular na Agricultura Açoriana tem de continuar, por ser uma atividade que simultaneamente respeita e protege o ambiente, e tem uma importância decisiva na coesão económica social da região.

A Agricultura continua a ser a principal atividade económica na região, pela sua influência na balança comercial, atendendo aos seus efeitos nas exportações, onde a fileira do leite é a principal vertente, secundada pela fileira da carne, enquanto o crescimento que tem ocorrido no setor hortofrutícola ajuda à diminuição das importações na área alimentar. Embora o leite seja a principal fileira da economia regional, a sua valorização ainda é diminuta. Por isso, algumas indústrias têm de melhorar as suas ineficiências, para que possam aproveitar e potenciar uma matéria-prima de excelência e, assim, pagarem aos produtores um preço justo que vá de encontro às suas expetativas. Também a procura de mercados deve ser um objetivo cada vez enraizado na cultura económica do tecido empresarial, porque só assim poderemos ter a capacidade de alcançar novos consumidores para os nossos produtos, que são de grande qualidade.

A aplicação na região do quadro financeiro plurianual 2021-2027 e do plano de recuperação e resiliência deve ser feita de uma forma criteriosa, para que o desenvolvimento seja não só sustentável, mas também equilibrado entre os diversos setores e também entre as nove ilhas. Além do investimento que deve ser dirigido ao setor público (onde a saúde pública assume particular importância), devem ser elaboradas estratégias que permitam alavancar os setores mais afetados (como o turismo), e todos os outros essenciais ao funcionamento da economia regional. Também a reestruturação definitiva do sistema empresarial público e o alívio da carga fiscal das empresas devem ser incluídas nas ações a implementar. A inovação e a tecnologia são áreas transversais à economia, e que devem ser cada vez mais incentivadas. No entanto, embora existam setores que foram afetados dramaticamente devido à pandemia da Covid-19, o setor agrícola tem algumas dificuldades que se não forem tratadas a tempo podem ter consequências muito graves. Pelo que é preciso investir sempre no setor.

O setor agrícola consegue gerar valor na economia, absorvendo mão-de-obra a diferentes níveis, com efeitos multiplicadores no setor primário, secundário e também terciário. É necessário continuar a intensificar o investimento na agricultura em vertentes como os transportes, apoios dirigidos para a produção, infraestruturas agrícolas, formação profissional, rejuvenescimento do setor e apoios para a comercialização, capazes de permitir a valorização dos produtos nos mercados, e de forma a melhorar o rendimento dos agricultores.

Para que os Açores possam ser uma região com futuro, a Agricultura tem de desempenhar uma ação decisiva em qualquer modelo de desenvolvimento, e essa é uma condição imprescindível para a diferenciação da região no contexto nacional e internacional.

créditos: Um avião da companhia aérea SATA momentos antes de aterrar no Aeroporto Internacional das Lajes, Praia da Vitória, na Ilha Terceira / MARIO CRUZ/LUSA


Tarifas interilhas para os residentes

  • Augusto Terceira da Silva, 60 anos, ilha Terceira, Funcionário Público

Os Açores necessitam de melhores condições da companhia aérea SATA, que tem que ter melhores preços para os Açorianos nas viagens interilhas. E de um Governo Regional que trate todas as ilhas por igual, divulgando bem as belezas dos Açores.

  • Vera Jorge, 38 anos, nasceu na ilha Pico mas mora em São Miguel, Psicóloga 

Começava pela necessidade de existir maior facilidade para a realização de viagens interilhas, com uma tarifa aérea para residentes nos Açores, que seja acessível e adequada a todos. Sou da ilha do Pico, mas estou a morar em São Miguel. A mim custa-me ir a casa (família) e pagar muito mais do que uma pessoa que venha do continente ou de fora.  Se houvesse viagens interilhas com custos mais baixos, isso iria aumentar o fluxo de pessoas em todas as ilhas, e permitiria aos Açorianos mais igualdade no acesso a serviços de saúde e bem-estar, por exemplo.  

Ao nível da saúde, é preciso fortalecer e capacitar os nossos três hospitais [São Miguel,  Faial e Terceira] e as várias unidades de saúde, tentando uma maior cooperação com os serviços privados e conseguindo agilizar a realização de exames e tratamentos, para que as pessoas não fiquem à espera durante anos. É preciso também investir em programas que promovam a literacia de saúde e o combate à desinformação na população - e isto nota-se não só nos Açores, mas em todo o nosso país.   

Mais, os Açores, por serem esta pérola no oceano, devem investir em medidas de sustentabilidade, apoiando as empresas que já as colocam em prática e contagiando aquelas para quem isto ainda não é um tema. Devemos apostar também na rede de transportes públicos e começar a falar mais da pegada ecológica (apesar de ser um conceito já bastante antigo, é uma coisa com que muita gente não se preocupa e não fala sobre). Temos que premiar as empresas que gerem as suas organizações de forma sustentável, com recursos naturais, e que tomam todas as medidas de proteção do ambiente.  

Ao nível da educação, como sou psicóloga este tema preocupa-me. É preciso alertar e capacitar todos os intervenientes (alunos, professores e outros operacionais) para o bem-estar psicológico (saúde mental), apostar na gestão emocional e no desenvolvimento pessoal. Devemos apostar numa escola global, mais comunitária (com maior relação com a comunidade), e valorizar mais e apoiar as iniciativas ligadas ao desporto e à expressão artística. Como mãe, tenho tido dificuldade em encontrar atividades extracurriculares que vão de encontro aos interesses dos meus filhos, que sejam uma mais-valia e que os ajudem a desenvolver a sua criatividade e um lado mais artístico. É necessário investir na cultura, nos artistas locais e na criação de associações que trabalhem e apostem na criatividade. 

Em questões mais gerais, que me preocupam, há pouco tempo vi uma notícia que dava conta de que os Açores tinham sido das zonas que menos investiram na criação de empresas inovadoras. Vemos empresas estrangeiras que usam muita da matéria-prima açoriana, desde as algas, ao leite e às rochas vulcânicas, para criar produtos e serviços. Julgo que a nível local isto não está a ser bem explorado, e acho que devia haver um incentivo à criação de empresas locais deste tipo. 

  • João Rocha, 35 anos, dono de uma barbearia na Terceira, de onde é natural, e em São Miguel, onde vive

Desde criança que sinto que uma das coisas de que os Açores mais precisam é de uma tarifa interilhas para os residentes. Em tempos, quando era jovem, já existiu através de barco. Tínhamos um cartão jovem e pagávamos um euro. Passávamos os verões nas outras ilhas, conhecíamos outros jovens através desse inter-passe. Agora, na SATA, deveria haver um voo com uma tarifa específica para os residentes, para podermos viajar de umas ilhas para as outras a um preço mais baixo. O preço atual é exagerado, sai mais em conta ir a Lisboa ou ir ao Porto do que ir a outra ilha dos Açores. E isso acontece, os comerciantes e empresários sentem-no.

  • Reene Rita, 35, Corvo, Sócia gerente do Hotel Comodoro

Os Açores precisam de melhorar os seus transportes, sejam aéreos ou marítimos. Porque o que sustenta, neste momento, a região é o turismo.

Os preços das viagens são absurdos. Seja vindo do continente - é muito mais barato ir a outro país da Europa do que vir aos Açores, que faz parte do mesmo território -, seja interilhas - é mais barato ir ao continente do que ir a uma outra ilha.

Também somos bastante penalizados no que toca ao transporte marítimo. Dando um exemplo, fez agora um ano que ficámos sem o nosso barco de passageiros [devido ao furacão Lorenzo]. Quem faz o transporte é um barco semirígido, que de verão é uma arma valiosa — para ir fazer observação de aves, por exemplo —, mas que, chegando ao inverno, torna-se numa experiência bastante má para quem visitar, via Flores, o Corvo. Porque o nosso objetivo é o de que os turistas gostem de vir cá, e que voltem. Uma pessoa que passa 35 minutos no mar, aos saltos, a levar com água, odiará essa experiência e nunca mais voltará. O Corvo está mal divulgado e depende ainda do turismo das Flores, mas isso já seria outra história.

Para além disso, nós, no grupo ocidental, estamos muito mal servidos no que toca ao transporte de mercadorias.

créditos: Concerto de David Bruno no Festival Tremor, em Ribeira das Caldeirões, na Ilha de São Miguel / EDUARDO COSTA/LUSA


Levar a sério a cultura e olhar a  juventude como o futuro

  • António Pedro Lopes, 39 anos, ilha de São Miguel, Co-diretor artístico do Festival Tremor

É preciso virarmo-nos para os outros, e as ilhas estarem mais próximas. Quer do ponto de vista da mutualização dos recursos, quer do ponto de vista de se conhecerem - quem são, o que podem fazer em conjunto, como é que uma coisa pode acontecer numa ilha e servir a outra. Somos nove ilhas, mas tenho sempre a sensação, de cada vez que viajo entre elas, que cada uma tem uma realidade muito diferente e que cada uma fala de si como se fosse os Açores. Isso pode mudar se existir vontade política, e se se encontrarem mecanismos que possam criar a união.

Acho que é muito importante tomar a cultura como se tem tomado o turismo nos últimos anos. Não falo apenas da cultura contemporânea, mas também da cultura de tradição ou da cultura religiosa. A cultura não pode ser encarada como o parente menor. É muito importante que os orçamentos cresçam e que se saiba que existe um setor — que é profissional — e que precisa que a sua atividade seja diferenciada. Estamos num momento definitivo para isso.

É muito fácil culpabilizar a Covid-19, e todas as consequências associadas à pandemia. Mas não se resume a isso. Estamos numa crise, que se vai agudizar no inverno e refletir-se no alojamento, e em todos os agentes que estão ocupados com o acolhimento. Por isso, nunca precisámos tanto de um Governo que crie sistemas de apoio sustentáveis como agora. É bastante urgente garantir que não se venha a ter cidades e ilhas mortas. Esse risco está aí.

Vimos de um historial de seis anos, em que os Açores tiveram a capacidade de se colocar nos escaparates do mundo como destino sustentável de natureza e cultura. Foram feitos grandes investimentos que criaram progressos muito positivos e que importa proteger. Se nesta fase muitas coisas não se aguentarem, não sei o que sobrará.

Muito resumidamente, os Açores precisam de garantir o futuro próximo, que passa por ligar mais as ilhas, garantir os investimentos que foram feitos — principalmente no turismo e na cultura — para que consigam atravessar este inverno e vejam 2021 como um novo recomeço, mas sobretudo que se olhe a juventude como o nosso futuro. É nos jovens que se têm de concentrar os nossos esforços de criar oportunidades e horizontes.

Poderão criar-se bolsas? Programas de empreendedorismo? Ligações com outros arquipélagos ou com a União Europeia? É preciso que esta juventude, que está enterrada numa situação de que não estava à espera, possa continuar a sonhar, a criar carreira e a garantir o seu futuro.

Voltando à cultura. É preciso leva-la a sério, tendo em conta que há pessoas — artistas, técnicos de som e de imagem — que trabalham há muitos anos e profissionalmente nos Açores. É necessário, principalmente agora que se vota, ouvir o que é que os partidos dizem e ver o que é que cada candidato tem como projeto de cultura. A cultura é entretenimento, é criação artística, dinamização dos lugares e fortalecimento do património. E, dessa forma, também fortalece todos os outros setores da sociedade.

créditos: Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores


Fim das maiorias absolutas e mais investimento em todas as ilhas

  • Eduardo Sarmento, 58 anos, ilha do Pico, topógrafo

Face à situação que tem marcado a nossa história recente (regional e global), a primeira coisa que me veio à cabeça é que necessitamos, enquanto regiões com características, limitação de meios e realidades muito diferentes do “Portugal metropolitano”, uma revisão urgente e clarificadora da nossa constituição no que respeita ao estatuto autonómico destas regiões insulares, baseada na confiança, consideração e respeito mútuos nas relações entre as instituições de poder regionais e nacionais. O que se passou no início da pandemia da Covid-19 foi uma demonstração gritante dessa necessidade.

Relativamente às necessidades dos Açores, julgo que as apostas políticas que temos de perseguir, a bem de um futuro sustentável e, tanto quanto possível, autossustentado, são várias e que passo a enumerar:

É necessário um investimento muito maior e melhor no conhecimento e qualificação (educação secundária e ensino superior). Para isso precisamos que a Universidade dos Açores seja alvo de uma forte e justa discriminação positiva por parte do Governo Nacional. Como no caso dos escalões mais baixos de ensino, a nossa reduzida dimensão e o nosso isolamento geográfico resultam numa necessidade permanente de “importação” de pessoal docente. Precisamos de apoios específicos que compensem e aliciem os “bons” (professores e alunos) a virem para tão longe lecionar e estudar. Estando cá, é muito possível que alguns deles se queiram fixar e isso teria um impacto muito positivo na qualidade/capacitação do nosso “tecido social”.

Na saúde existe, como na componente da educação e do ensino, uma grande carência de recursos humanos especializados. Há uma enorme dificuldade em suprir as nossas necessidades em quadros superiores, nomeadamente ao nível das especialidades médicas, mesmo nas mais abrangentes. A nossa dimensão, a nossa dispersão interna e a “exiguidade” e falta de competitividade profissional do nosso mercado não o tornam atrativo para a fixação de jovens especialistas, com ambições de aqui evoluírem profissional e economicamente.

O principal suporte natural e potencial para a economia dos Açores é, indiscutivelmente, o turismo. No entanto, este não pode ser um setor económico de “âncora única” para nós, dada a sua intrínseca “volatilidade conjuntural”. Assim, e após uma forte estratégia de divulgação, que tem trazido resultados positivos aos Açores (mas que se tem essencialmente baseado numa - talvez indispensável nesta fase - oferta “low-cost”), torna-se agora imprescindível que, consolidada uma suficiente “massa crítica”, comecemos a orientarmo-nos para uma oferta mais “filtrada” e seletiva, apontando mais para mercados de nicho que nos tragam mais valor acrescentado, mas menos quantidade.

Promover os Açores, não só como destino turístico, mas como uma boa opção para a fixação de residência daqueles que pretendem viver e/ou investir numa região com uma qualidade de vida francamente superior à oferecida pelos grandes centros metropolitanos. Oferecemos um ambiente calmo, despoluído, seguro e hospitaleiro que está muito perto do ideal para quem pretende fugir a “stresses” e ver os seus filhos crescerem num ambiente calmo e seguro. As imensas possibilidades criadas pela globalização digital e pelo teletrabalho tornam em muitas áreas quase obsoleta a necessidade de presença física nos grandes centros. Temos boas ligações aéreas e digitais, e um reforço populacional com qualidade dar-nos-ia uma boa possibilidade de reforçar e promover a nossa evolução social e a nossa economia.

Outro dos nossos setores vitais é o primário. Aqui seria urgente um reequilíbrio e uma forte diversificação. Dependemos demasiado de uma “monocultura da vaca”, desenvolvida de uma forma demasiado “subsídio-dependente” pois, no caso dos laticínios, cometemos o erro de não apostarmos suficientemente na afirmação da nossa qualidade e nas nossas especificidades. Estamos a concorrer sobretudo num mercado de produtos “standard” e de “linha branca” em que os preços não compensam o diferencial em custos de produção relativamente aos nossos concorrentes diretos. Seria muito importante promover uma forte diversificação e qualificação neste setor, e a aposta em outras culturas, pois temos características climáticas e de fertilidade de solos que nos abrem boas perspetivas na floricultura, na horticultura e na fruticultura. Ainda, e essa tem sido uma opção muito positiva e bem desenvolvida pelo governo e pelos privados, está em curso uma forte aposta no campo da vitivinicultura, onde começam a surgir iniciativas e resultados animadores. Começamos a ter uma produção de vinhos que (sobretudo os brancos!), tem já uma qualidade e especificidade muito boas. Este setor, se se conseguir uma rigorosa estabilidade qualitativa, uma boa divulgação e uma produção com escala suficiente, poderá/deverá vir a ter um peso significativo na economia das ilhas com aptidão para esta atividade e para a região. Mas ainda há um longo caminho a percorrer até à sua afirmação nos muito competitivos mercados nacional e internacional.

No que respeita ao mar, a nossa maior riqueza em termos de estabilidade e de potencial futuro, é-nos fundamental conservar e gerir muito cuidadosamente os nossos recursos pesqueiros e melhorar as nossas cadeias de exportação, continuando a potenciar as suas várias interligações com o turismo. Teremos de ponderar muito bem e teremos de ser muito seletivos e rigorosos em relação à avaliação dos impactos ambientais (e à partilha de dividendos económicos) que as novas possibilidades de exploração extrativa de recursos biológicos e minerais começam a colocar. E isso implica, de novo, uma cada vez maior aposta no máximo conhecimento/saber que possamos ir conseguindo nesta área. Teremos também que ter, e aqui volta a entrar a questão da autonomia e do respeito institucional, uma participação muito efetiva e uma “palavra vinculativa” sobre os aspetos de estudo, planeamento e de decisão das políticas e das ações de âmbito nacional, europeu e global neste setor — e na partilha das “mais-valias” que venham a ser geradas. 

  • Nélia Silva, 61 anos, ilha Terceira, comerciante na área do pronto-a-vestir

Precisamos de um novo governo. Neste momento, temos um governo que está há demasiado tempo no poder e que acho que não está a fazer aquilo de que as pessoas realmente têm necessidade, que é muita, muita coisa. Precisamos de alguém que se preocupe com todas as ilhas, porque todas as ilhas têm necessidades — independentemente do número de habitantes ou da sua dimensão. O poder está muito centralizado. Não no continente, como era antes, mas sim numa das ilhas. 

Sou a favor de que haja eleições de dois em dois anos; era a única maneira que eles tinham de fazer e cumprir aquilo que realmente nos prometem durante a campanha. Quando estão perto das eleições prometem e veem aquilo de que cada ilha necessita, mas depois de entrarem para o poder, esquecem-se.

Precisamos de transportes marítimos e aéreos entre ilhas, de passageiros e de mercadorias, que sirvam a população. Temos uma companhia aérea, a SATA, que só dá prejuízo por ser mal gerida. Não se concebe que nós, os açorianos, paguemos mais por um bilhete entre ilhas do que para ir a Lisboa, ou de Lisboa para outros países europeus.

  • João Nunes, ilha do Faial, Técnico superior de diagnóstico e terapêutica

Na minha opinião, o que os Açores mais precisam é do fim das maiorias absolutas. Não me refiro especificamente a nenhuma das duas maiorias absolutas que até hoje têm governado a Região (PS e PSD), mas sim a maiorias absolutas no geral.

Os Açores precisam de que todos os temas importantes para o seu desenvolvimento sejam discutidos entre os diversos representantes eleitos pelos Açorianos, e não por um partido apenas. Infelizmente assisti recentemente, por ser um tema que me afeta profissionalmente, a um plenário na Assembleia Legislativa Regional e vi uma proposta de um partido da oposição ser chumbada pelo partido do Governo, mesmo quando reunia o apoio de toda a oposição. Essa mesma proposta já estava chumbada à nascença, tudo o que foi discutido em plenário foi em vão. Os Açores precisam que isto deixe de acontecer… Claro que os açorianos têm culpa, porque infelizmente mais de metade não se interessa pelo futuro da região, e não comparecem nas mesas eleitorais.

Os investimentos nas diversas ilhas têm que ser pensados não pelo seu número de habitantes, mas pela importância do investimento para cada ilha. Dou um exemplo da minha ilha, o Faial, que pertence ao chamado Triângulo, um conjunto de três ilhas com imenso potencial devido à sua proximidade geográfica. Para aproveitar este potencial são necessários investimentos nas mobilidades, por exemplo, com melhorias de portos, aeroportos, etc. Tudo melhorias que têm vindo a ser, ao longo dos tempos, reivindicadas pelos habitantes, mas nunca implementadas ou então mal executadas. Têm um custo elevado para um conjunto de cerca de 40 mil habitantes, mas é fulcral para o desenvolvimento destas ilhas.

Existem muitos mais investimentos importantes (saúde, por exemplo) que dariam para uma longa dissertação, e muitos deles constam das diversas propostas dos diversos candidatos, pelo que considero que o primeiro passo é fazer com que todos tenham um papel ativo e importante nas decisões.

  • Filipe Fernandes, 33 anos, ilha do Pico, Técnico superior licenciado em Economia e empreendedor

Sendo um fã incondicional da região e do estilo de vida que os Açores proporcionam, mais concretamente a Ilha do Pico, a que melhor conheço, reconheço naturalmente que nem tudo são rosas. As consequências da insularidade são vastas, é certo, mas do meu ponto de vista a maioria é de relevância relativa ou ultrapassável com custos aceitáveis. No entanto, há uma condição que me parece realmente limitadora e difícil de contornar, que é o mercado de trabalho limitado. A oferta de empregos não apresenta uma diversidade que permita que todos possam, com maior ou menor dificuldade, encontrar empregos gratificantes, parecendo-me especialmente difícil para empregos técnicos com qualificação superior. Estes empregos podem ser difíceis no setor público e quase impossíveis no privado. Assim sendo, parece-me que é o emprego satisfatório o santo graal de quem procura estabelecer-se nas ilhas. Incentivos ao empreendedorismo são uma atenuante para esta circunstância, mas em todo o caso, mais e melhores empregos são neste momento aquilo que me parece fazer mais falta nos Açores.

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