A 14 de agosto de 2018, a cidade portuária de Génova entrou nas notícias um pouco por todo o mundo devido ao colapso da Ponte Morandi  que se abateu sobre o rio Polcevera. Uma secção de 210 metros desabou naquela manhã, no noroeste de Itália, e com ela dezenas de automóveis e camiões caíram de uma altura de cerca de 90 metros.

Durante alguns dias, os números não pararam de aumentar. Inicialmente eram pelo menos 26 mortos e vários feridos; no dia após o colapso, contavam-se 39 vítimas mortais e 16 feridos; depois deu-se o recuo para 38 mortes. Desconfiava-se que pudessem estar soterradas até duas dezenas de pessoas.

No total, contabilizaram-se 43 mortos, de nove nacionalidades, mas na sua maioria as vítimas eram italianas.

Na altura, havia um tráfego significativo no tabuleiro central da ponte. Naquela manhã cheia de neblina, a visibilidade era pouca, como mostra um vídeo publicado pela polícia, onde se vê parte do colapso da estrutura.

A situação meteorológica continuou a não facilitar os esforços das equipas de emergência. Um alerta de tempestade na região da Ligúria tinha sido dado e a chuva não parava.

Após o colapso, o Ministério Público de Génova abriu um inquérito para esclarecer as circunstâncias do incidente e estão ainda a ser investigadas cerca de 70 pessoas, incluindo gestores da Autostrade per l'Italia, responsável pela gestão da ponte.

Porque caiu parte deste viaduto de pouco mais de um quilómetro? Nas primeiras notícias após o colapso da estrutura, a agência noticiosa italiana, ANSA, dava conta da suspeita das autoridades italianas: um problema estrutural podia ter causado o colapso do viaduto.

Numa entrevista à Universidade de Génova, em julho de 2016, o engenheiro e professor universitário Antonio Brencich defendia que a ponte Morandi era "um erro da engenharia” e que devia ser reconstruída em breve porque os custos de manutenção seriam “exorbitantes” e superariam os custos da construção.

No dia do acidente, foram decretados dois dias de luto em Génova e as cerimónias fúnebres seriam organizadas pelo autoridades italianas. No dia seguinte, após um conselho de ministros, foi decretado em Génova o estado de emergência por 12 meses. É aprovada também a decisão de criar um fundo de cinco milhões de euros para a cidade.

Mas mais fundos seriam precisos e o então ministro das Infraestruturas, Danilo Toninelli, pintava "um verdadeiro plano Marshall”.

Toninelli disse que seria usado "o Fundo de Emergência da Proteção Civil” para a reconstrução da ponte, que "precisava de manutenção ao longo de décadas”. Também seriam utilizados “recursos do Plano Económico e Financeiro das Autoestradas”, discutido em setembro desse ano, bem como “outros recursos de dois fundos dedicados a intervenções de infraestrutura".

"Se não são capazes de administrar as nossas autoestradas, o Estado o fará"

No dia a seguir à tragédia, a 15 de agosto de 2018, Danilo Toninelli, exigiu a demissão da direção da empresa Autostrade per l’Italia, uma subsidiária da Atlantia e responsável pela gestão da ponte. A concessionária assegurava que o viaduto estava sujeito a controlos periódicos, como ditam as normas do país.

O ex-ministro das Infraestruturas, Danilo Toninelli, na rede social Facebook, avançava com a possibilidade de o Governo italiano revogar a concessão e impor "uma multa de até 150 milhões de euros”.

"Se não são capazes de administrar as nossas autoestradas, o Estado o fará", escreveu, considerando ainda que "num país civilizado não se pode morrer por uma ponte que desaba". Acrescentou, na altura, que os culpados "desta tragédia injustificável" deviam ser punidos.

Dias depois, o então vice-primeiro-ministro e ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, confirmava avançar com a revogação das concessões feitas à Autostrade per l’Italia. Em entrevista ao Financial Times, Salvini dizia que a “Autostrade devia ter vergonha; devia abrir os cordões à bolsa e reconstruir tudo, pagar a todas as pessoas”.

Salvini também chegou a apontar o dedo à União Europeia, ainda em agosto de 2018: “Se as restrições externas nos impedem de gastar para termos estradas e escolas seguras, então é caso para questionar se seguir essas regras farão sentido“.

A tragédia dava-se numa altura em que a coligação de centro-direita que governava no país se preparava para definir o orçamento para 2019. Matteo Salvini e Luigi di Maio, do Movimento 5 Estrelas, exigiam à UE “flexibilidade” nas regras sobre as metas do défice, “devido aos acontecimentos excecionais”. O objetivo era aumentar nos gastos e reduzir nos impostos.

A novembro de 2018, chegava a rejeição da primeira proposta de Orçamento do Estado apresentado pelo executivo de Roma, por parte da Comissão Europeia.

O Orçamento descrevia um quadro macroeconómico em que o Governo estima um aumento do défice até aos 2,4% em 2019, 2,1% em 2020 e de 1,8% em 2021 para financiar as “políticas de crescimento”. Bruxelas não aceitou a estratégia.

O símbolo de uma Itália a curar-se

A ponte tinha sido batizada com o nome de quem a concebeu: Riccardo Morandi. Foi aberta à circulação em 1967 e, após a queda da secção que constituiu uma tragédia, foi demolida em 2019.

Depois da demolição da estrutura, uma nova construção teve lugar, em fevereiro deste ano. Dois meses depois do início das obras, no final de abril, o tabuleiro central da ponte ficou concluído - numa altura em que Itália combatia a crise sanitária provocada pela Covid-19. As obras custaram cerca de 200 milhões de euros.

Hoje, praticamente dois anos depois, as obras estão concluídas e dia 5 de agosto será possível atravessar o rio, chegar a França e aceder ao porto – o mais movimentado do país e da zona mediterrânica.

A antiga Ponte Morandi renasce com o nome "Génova San Giorgio", um dos símbolos da cidade. O pai desta nova obra é o arquiteto Renzo Piano, Prémio Pritzker 1998. Foi também ele o autor do Centro Pompidou, em Paris, e, já mais longe, do arranha-céus The Shard, em Londres. Renzo ofereceu o projeto e na inauguração está previsto ouvirem-se palavras deste arquiteto.

A empresa de construção e manutenção de estradas italiana, ANAS, realizou com sucesso os testes à nova ponte, segundo a agência ANSA, mas continua estes trabalhos. Uma vez obtidas todas as declarações de conformidade e concluídos dois testes, será permitida a abertura ao tráfego.

Para o primeiro-ministro italiano, o dia de hoje é “importante”. Esta inauguração é “o símbolo de uma nova Itália que se ergue novamente”, como veiculado pela ANSA.

"Não há nada para celebrar!”

Esta tarde, com previsão de mau tempo, tal como no dia do acidente, espera-se a presença do Presidente da República, Sergio Mattarella, e do primeiro-ministro, Giuseppe Conte, para cortar a fita tricolor inauguração do novo viaduto. A cerimónia também conta com alguns ministros, o prefeito e comissário extraordinário Marco Bucci; e o governador da Ligúria, Giovanni Toti.

Segundo a agência noticiosa italiana, ANSA, terá lugar a leitura dos nomes das 43 vítimas mortais, seguido de três minutos de silêncio.

Quem não quer ouvir o eco dos nomes dos que caíram com a ponte são os familiares das vítimas. Os ‘media’ locais, avançam que a associação que representa as famílias das vítimas do colapso da anterior ponte decidiu não comparecer à cerimónia.

Foi composto um grupo na rede social Facebook, “Comissão Dos Familiares das Vítimas da Ponte Morandi”, do qual fazem parte dezenas bombeiros genoveses que assinaram uma carta, há dois dias, onde passam a intenção de não estar presentes na inauguração da nova infraestrutura.

“Non c'è nulla da celebrare!”, escreve a comissão. “Não há nada para celebrar!”. Quase não há necessidade de traduzir desta expressão. Os signatários acusam a classe política de “aproveitar a oportunidade na tragédia".

“O que se preparam para celebrar - em pleno espírito de unidade nacional - não é apenas a reconstrução de uma ponte indignamente desmoronada, mas é o chamado ‘modelo Génova’, que querem estender a toda a Itália com a desculpa da crise económica”.

Modelo este que descrevem como uma marca de “construir e não manter” infraestruturas. Ontem, este grupo onde se incluem os bombeiros que estavam presentes nos esforços do dia do desmoronamento reiteraram a sua posição de não assistir à inauguração “de um viaduto que nunca deveria ter caído”, “por respeito pelas vítimas e respetivas famílias”.

“Pessoalmente, nunca lá irei pôr os pés”

Em entrevista ao jornal italiano, la Reppublica, a porta-voz e presidente da Comissão Dos Familiares das Vítimas da Ponte Morandi, Egle Possetti​, depois de ter consultado o programa da inauguração do novo viaduto, caracterizou a cerimónia como uma “festa de carnaval”.

No entanto não deixa de reconhecer que será uma “cerimónia sóbria” por serem lembradas as vítimas. Mas sublinha: “Pessoalmente, nunca lá irei pôr os pés”.

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