Sazonalmente aparecem uns traços escuros nas encostas de Marte. Teorias anteriores apontavam para uma de duas explicações: resíduos líquidos (água) na superfície de Marte ou fluxos de areia e poeira. No entanto, nenhuma destas teorias conseguia explicar totalmente as características do fenómeno conhecido como Recurring Slope Lineae (RSL).

Agora a equipa liderada pela investigadora Janice Bishop, do Instituto de Astrobiologia da NASA (NAI) do Instituto SETI, avança com a hipótese de se tratar de gelo que derrete perto da superfície, tornando-a vulnerável a tempestades de vento e poeira. Como resultado, as características do RSL aparecem e/ou aumentam na superfície de Marte.

Mais, a equipa acredita que as camadas finas de gelo derretido são o resultado de interações entre o gelo de água subterrânea, sais de cloro e sulfatos, que criam um lodo instável que flui como um líquido que provoca poços, o colapso do solo e fluxos à superfície.

“Estou entusiasmada com a perspetiva de haver água líquida em microescala em Marte, em ambientes próximos da superfície, onde há gelo e sais”, diz Bishop em comunicado. “Isto poderia revolucionar a nossa perspetiva de habitabilidade”.

As imagens de alta resolução (HiRISE) do Mars Reconnaissance Orbiter (MRO) mostram RSL localizados em encostas viradas para o sol, onde continuam a aparecer e/ou a expandir-se ao longo do tempo.

Ainda que estudos anteriores tenham sugerido que as RSL estão relacionadas com os sais de cloro e tenham observado a sua presença em regiões de afloramentos com elevado conteúdo de sulfato, o estudo atual expande estas observações com um modelo de atividade criosalina próxima da superfície baseado em observações de campo e experiências laboratoriais.

As investigações de campo analógicas de Marte na Terra, que têm lugar nos Vales secos da Antárctida, no Mar Morto em Israel e no Salar de Pajonales no Deserto do Atacama, mostram que quando os sais interagem com o gesso ou com água subterrânea causam interrupções na superfície, incluindo o colapso ou deslizamento de terra.

“Durante o meu trabalho de campo no Salar de Pajonales, uma cama de sal seco no norte do Chile, observei muitos exemplos da ação dos sais na geologia local. É gratificante descobrir que também poderia desempenhar um papel na configuração de Marte”, explica Nancy Hinman, professora de geologia na Universidade de Montana e membro da equipa NAI do Instituto SETI.

Para provar a sua teoria, a equipa levou a cabo experiência de laboratório para observar o aconteceria se congelassem e descongelassem amostras análogas às de Martes compostas por sais de cloro e sulfatos a baixas temperaturas, como as que se encontrariam em Marte. O resultado foi uma formação de gelo lamacento próximo de -50°C, seguido de um derretimento gradual do gelo de -40 a -20°C.

Além de ajudar a explicar os processos geológicos e químicos de Marte, esta teoria também sugere que o ambiente marciano é dinâmico, que o planeta está a evoluir e ativo, o que tem implicações tanto para a astrobiologia como para a futura exploração humana do Planeta Vermelho. O potencial de películas finas de água debaixo da superfície de Marte em regiões de permafrost salgado abre novas portas para explorar a habitabilidade.

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