Desta vez eu voto é a promessa. Alguns podiam ter votado em eleições anteriores, mas, por algum motivo, não o fizeram. E não é que não gostem de política, muitos estão empenhados em projetos cívicos, do que não gostam é da politiquice. Sabem que se a União Europeia se desfizer têm muito a perder e não querem correr o risco, por isso, tomaram as rédeas da situação.

Gonçalo Gomes é português e foi quem mais "amigos" conseguiu convencer a ir votar: 559 no total. Tem 20 anos, é de Viseu e estuda Economia na Nova SBE, agora em frente à praia de Carcavelos. Não assobia - "as gerações mais novas de Viseu já não assobiam a falar" -, mas a União Europeia é também essa diversidade, 28 (ainda) Estados-membros e muitos mais sotaques.

Um amigo partilhou no Linkedin a plataforma "Desta vez eu voto" e ficou curioso: "Normalmente é o cidadão que quer envolver-se na política, desta vez eram as instituições a querer envolver os cidadãos". Juntou-se ao movimento.

Até então, só tinha visitado Portugal e Espanha, nem sequer tinha andado de avião. Num espaço de poucos meses, foi à Holanda, Alemanha, Reino Unido, França, Bélgica... "Estou numa escola muito internacional, mas sentir na pele esse lado, ter a oportunidade de conviver no dia-a-dia com pessoas com backgrounds completamente diferentes do meu, uma coisa de que eu gosto, está a ser uma experiência fantástica". E já ninguém pára o Gonçalo.

Como é que sente a União Europeia na sua vida? "Senti esta semana, quando na segunda-feira apanhei um avião de Lisboa para Londres, para uma entrevista de trabalho numa multinacional - não diz o nome "para não agourar" -, e logo a seguir estava a apanhar um avião de Londres para Bruxelas, para participar em mais uma iniciativa do Parlamento Europeu". O trabalho a que se candidatou é para fazer consultoria económica no escritório de Londres, mas também poderá ser colocado em Berlim ou Bruxelas. Mesmo com as incertezas que se vivem no Reino Unido, é lá que prefere ficar. E esta é uma das belezas da União Europeia, "a liberdade de circulação". E não é só Gonçalo que o diz, são todos os representantes dos 27 Estados-membros.

Oyesi Falmagne é voluntária do "Desta vez eu voto" em representação da Holanda e diz que se a União Europeia acabasse uma das piores consequências seria perder a liberdade de circulação e outros direitos que tem agora: "Todos queremos mais direitos. Definitivamente, o que não quero é ter menos direitos do que aqueles que tenho agora. Dentro da União Europeia sinto-me protegida e cheia de acesso a oportunidades: posso ir trabalhar para qualquer país e viver onde quiser. Ter esta liberdade com uma rede de segurança é espantoso. A União Europeia é uma ideia fantástica e devíamos mantê-la".

Foi isto que fez despertar Oyesi, estudante de Estudos Internacionais na Universidade de Leiden, para o voto. "Tenho 22 anos, sei que parece um pouco tarde para entrar no jogo, mas percebi que estamos sempre a tempo. Pareceu-me um pouco hipócrita da minha parte estar a estudar estes assuntos, ainda por cima com uma especialização em Assunto da União Europeia, e não participar. Já podia ter votado antes, mas a verdade é que a minha família também não tinha o hábito de votar, até porque o meu pai estava dispensado, por trabalhar na NATO e estar muitas vezes afastado de casa. Gostava que me tivessem encorajado mais, mas sei que sou responsável por mim própria e tenho agora de assumir essa responsabilidade de participar na vida activa".

Fala pelos cotovelos e só pára para se despedir da sua colega de missão finlandesa, Onerva Aalto, de 19 anos. Abraçam-se, riem e quase choram, fazem mil promessas de amizade eterna. Onerva é estudante de Direito e tem de apanhar mais cedo o avião de regresso a casa. Destacou-se no seu país pelos vídeos que produziu para mostrar a todos, sobretudo aos da sua geração, as vantagens da União Europeia.

"São coisas como esta que nos fazem ter a certeza de que vale a pena", continua Oyesi. "É muitíssimo bom ter uma comunidade de pessoas, um grupo de amigos europeu. Podemos não ser de um país e apenas visitá-lo ou até ir viver para lá e experienciar todas estas culturas. Ser europeu é ser diferente, e isso é cool". Esta voluntária fala por experiência própria: "Vivo na Holanda, apesar de ter nascido na Bélgica e de me ter mudado para Inglaterra. Sou um bocadinho de cada sítio e isso também me faz sentir mais europeia". E, a propósito de amigos internacionais: "Se há diferença entre ser europeu ou do resto mundo é esta: as minhas propinas custam um preço e as dos meus amigos de países terceiros custam o dobro ou três vezes mais".

Miguel Pastor, o voluntário espanhol, tem "ganas" de contar a sua história. Só tem 18 anos, é das Canárias, e estuda Direito na Universidade de La Laguna, em Tenerife. "Ainda não fiz Erasmus, mas participei em diversos projetos europeus fora de Espanha e fiz intercâmbio com um colégio de Montpelier, em França, vivi dois meses com uma família de Bad Ems, na Alemanha, e trabalhei em Hamburgo e em Berlim, também na Alemanha, no último verão. No terceiro ano do curso espero fazer Erasmus em Dusseldorf, na Alemanha.

Os espinhos da União Europeia

As histórias sucedem-se e não diferem muito umas das outras, apesar das diferenças (e semelhanças) óbvias entre estes jovens. Mas nem tudo são rosas na União. "Há coisas de que não gosto", diz Oyesi. "Não cooperamos tanto quanto poderíamos e deveríamos. Todos querem manter a sua soberania e poucos estão dispostos a ceder. Têm sido dadas mais oportunidades a uns países do que a outros, muitas vezes com a desculpa de serem países "mais velhos", estarem há mais tempo na União". E continua: "Achei muito interessante ouvir [António] Tajani [presidente do Parlamento Europeu] dizer que é preciso menos burocracia e mais política. Na verdade, nunca tinha pensado nisso antes, mas as pessoas queixam-se de facto da burocracia, de tanta papelada para tudo. Por outro lado, também penso que é uma pena não aprendermos sobre a União Europeia nas escola, desde miúdos. É muito estranho. Não sei se precisamos de mais política, mas tenho a certeza que precisamos de menos burocracia e de outra organização. E acredito que ele encontrará uma solução".

Petar Mrdovic, voluntário pela Eslovénia, também tem críticas: "Sinto falta e gostava de ver mais transparência na União Europeia e nas suas instituições. Também gostaria que estivessem mais próximo dos cidadãos e fosse mais fácil perceber os processos de decisão". E não é o único.

"Uma das mensagens mais importantes que ouvi nestes dois últimos dias foi a de um professor especializado em Direito Europeu, que fez um discurso sobre democracia, destacando a forma como a União Europeia se relaciona com os seus cidadãos. Os mecanismos existentes não são muito conhecidos e por isso não são usados, porque quando as pessoas recorrem a eles, os benefícios são evidentes", afirma o irlandês Brían Donnelly.

Gonçalo resume tudo, até o motivo pelo qual os jovens estão habitualmente afastados das urnas: "É muito preocupante a taxa de abstenção na faixa dos 18 aos 24 anos, sobretudo porque é aí que está o futuro, mas não penso que a minha geração esteja completamente afastada da política - tem sido muito activa a chamar a atenção para a questão das alterações climáticas e da proteção do ambiente, por exemplo - o que falha é a parte partidária mais formal, até o conhecimento das instituições e do processo de tomada de decisão".

Para o estudante de Economia, falta, sobretudo, levar a União Europeia até às escolas. "Além da Matemática, da História e de outras disciplinas importantes, penso que que se devia ensinar o básico, que é exactamente aprender sobre as instituições da UE, o processo de tomada de decisão e a forma como os cidadãos se podem envolver. Isto é basilar. Precisávamos de ter uma disciplina a sério sobre estes temas".

Depois, há todo um conceito de proximidade que devia ser cultivado pelos próprios eurodeputados e responsáveis das diversas instituições europeias. Quando decidiu organizar um seminário na sua faculdade, Gonçalo lembrou-se de convidar Carlos Moedas, comissário da Investigação, Ciência e Inovação. Porquê? "Por o acesso ser um pouco mais fácil". Se devia ser igualmente chamar um comissário português ou um comissário estrangeiro, claro que sim, "mas, infelizmente, o projeto europeu ainda se encontra numa fase de maturação tão avançada", admite.

Oyesi, a mais otimista dos otmistas, conclui: "Política é isso. A nível doméstico também há muito a melhorar, e se posso aceitar isso em relação ao meu país, porque não fazê-lo em relação à União Europeia?".

Ameaças: o que preocupa os jovens

O que te preocupa nesta União Europeia? "De caras", responde Miguel, "as mensagens populistas e extremistas que estão a tentar dinamitar o projeto europeu a partir de dentro. É aqui que devemos ser fortes e resistir sempre em democracia e nas urnas para evitar que a desinformação se apodere da Europa".

Gonçalo vai mais longe: "Preocupa-me assistir a uma sucessão de acontecimentos muito semelhante a outras que já vimos no passado. É uma espécie de dejá vu. E a analogia torna-se muito óbvia quando na Itália temos descendentes de ditadores a candidatar-se ao Parlamento Europeu", por exemplo. "Ou quando olharmos para o que se está a passar na Polónia, na Hungria ou na Roménia".

Todos os voluntários se preocupam com esta realidade, mas todos sabem que calar os que não pensam como eles não é solução. "É preciso ir às causas", dizem. E quais são elas?

O voluntário português aponta o dedo a três factores: "Todas as teorias económicas dizem que a globalização é uma coisa boa, só que há sempre os que ganham e aqueles que saem frustrados. Se os ganhas não forem distribuídos para compensar quem perde, haverá sempre uma parte da população descontente. A segunda causa tem a ver com o facto de as pessoas estarem saturadas do establishment: são décadas a assistir a  escândalos e eventos menos bons da vida pública, que vão causando  aversão a essa forma de fazer política e aos partidos que estão envolvidos. Por último a questão da imigração é muito polémica, principalmente em países em que a religião e a cultura ou tradição são diferentes, isto faz reacender tensões sociais".

Ninguém falou no Brexit. A não ser Brían, o irlandês estudante de Direito. "A saída do Reino Unido fará com que a União Europeia fique diferente, sem dúvida". A vários e diferentes níveis. Enquanto estudante pensa nos estudantes britânicos: "Se eu fosse inglês e estivesse a estudar na Escócia ou na Irlanda do Norte ou em Gales ou em Inglaterra, teria receio que afectasse o meu futuro de forma negativa; já não vai ser possível atravessar a Europa e procurar educação em universidades europeias ou trabalhar no espaço da União Europeia". Por outro lado, e enquanto irlandês, reaparece o fantasma da guerra. "Essa é uma preocupação enorme. Só tenho 23 anos, não tenho essa memória, mas não foi assim há tanto tempo. Os meus pais lembram-se vividamente e falam nisso, as conversas sobre o tema são, aliás, mais e mais recorrentes. Os representantes eleitos pelo povo deviam unir-se nisto, não faz sentido desistir e não nos relacionarmos uns com os outros. Tenho amigos na Irlanda do Norte que estão seguros de que isto é um enorme passo atrás no avanços feitos até aqui".

Apesar de todas as críticas, o sentimento é comum: muito mais é o que une os europeus do que aquilo que os separa. Gonçalo defende as listas transnacionais como forma de unir a Europa: "Penso que devia haver um círculo transnacional, acredito que quando isso acontecer a realidade europeia passa a ser mais do que a conjugação de várias realidades nacionais, e o projeto tem muito a ganhar". Mas não será para já.

De resto, as preocupações de cada um têm a ver com a realidade particular do cada país e, mais do que isso, de cada cidadão ou grupo de cidadãos: Andreas Greén dedica-se especialmente a incentivar a participação nas eleições europeias de outras pessoas com deficiência e de chamar a atenção das instituições responsáveis para questões aparentemente óbvias: "Muitos locais de voto não estão preparados para receber eleitores que, como eu, se deslocam numa cadeira de rodas. Os meios utilizados não são inclusivos e tornam difícil votar com autonomia, na Suécia e noutros países das União Europeia. Os eleitores cegos, por exemplo, não têm boletins de voto em Braille em muitos países o que os obriga a votar acompanhados por alguém da sua máxima confiança", diz o voluntário."Já é altura de o Parlamento Europeu adoptar um sistema mais acessível para todos".

Esta é um crítica à forma como se vota, mas há outras. Oyesi não compreende porque é que uma transferência bancária demora dois dias se for da Bélgica para a Holanda e três se for de Portugal para a Holanda. "Não faz sentido. Ainda assim, dêem-me três horas e posso estar noutro país", ri. "O importante", resume, "é dar melhor qualidade de vida a todos: novos, velhos e os que estão pelo meio, incluindo refugiados e imigrantes. É preciso criar um espaço onde não haja guerras e em que respeitemos as fronteiras pessoais uns dos outros. Portanto, estamos a fazer caminho. É preciso ouvir quem está infeliz, mas não me parece bem desperdiçar todo o trabalho que foi feito até aqui, descartar a União Europeia não é uma opção".

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