Em 1970, Dilma Rousseff era considerada pelo governo como um dos cérebros dos esquemas revolucionários. Os relatórios da polícia citam-na mesmo como uma Joana d'Arc. Eram anos de um Brasil diferente, de um país mergulhado numa ditadura militar, depois do golpe de 1964.

Dilma era uma inconformada com o estado das coisas. Incentivada pela revolução cubana, e pelo livro de Fidel Castro "Revolução e Estado", mexia-se como ativista e estava ligada à organização Comando de Libertação Nacional (COLINA), através da qual atuava, sobretudo, no movimento estudantil. Chegou inclusive a dar aulas de marxismo. E, à medida que a luta se intensificava, a futura presidente do Brasil viu-se obrigada a viver na clandestinidade.

Rousseff começou a ganhar nome e foi identificada como um elemento subversivo. Quando a morada da sua casa, em Belo Horizonte, foi descoberta pelo governo militar, Dilma e o seu marido foram obrigados a fugir. Quando a polícia do regime chegou, apenas encontrou folhas e alguns livros de base marxista.

A revista Época conta que, quando fugiu, Dilma deixou de ser Dilma. Wanda, Luiza Marina, Maria Lúcia ou Estela, eram estes os nomes pelos quais era conhecida. Cada vez mais ligada aos movimentos que trabalhavam na clandestinidade, Rousseff, como uma das representantes do COLINA, assistiu na primeira pessoa ao congresso que viu nascer a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares - formada pelo COLINA, secção mais assente nas questões diplomáticas, e pela Vanguarda Popular Revolucionária, a secção mais militarizada da coligação. Dilma ocupou, de imediato, um dos cargos de chefia.

Tudo parecia correr bem até às 16 horas do dia 16 de janeiro de 1970, conta a Época, de acordo com os relatórios policiais do Departamento de Ordem e Política Social. Nesse mesmo dia, a essa mesma hora, na Rua Martins Fontes, no centro de São Paulo, Dilma foi presa. Com ela tinha uma identificação falsa - com o nome Maria Lúcia dos Santos -, um cartão de eleitor e um cartão de estudante, também com outro nome falso. Há apenas um facto que não chegou a ser confirmado. Dilma afirma que nunca usou armas, mas há versões contraditórias. Há quem diga que ela tinha consigo uma arma quando foi apanhada pela polícia, mas também há quem diga que não. A única certeza é que Rousseff não escapou a dois anos e um mês de prisão e vários dias de tortura de choques elétricos, sobretudo antes do julgamento.

46 anos depois, desta vez não como ativista, mas sim como presidente afastada do Brasil, Dilma Rousseff vai-se sentar no banco dos réus, no banco dos que têm de se defender, no banco de quem enfrenta alguma coisa. E Dilma não foge ao que pode enfrentar. "Eu lutei a vida inteira: contra a tortura, contra um cancro... e vou lutar agora contra qualquer injustiça", disse antes do início da sessão no Senado que decidirá o seu afastamento definitivo, ou não, da presidência.

Em público, ainda não vimos uma lágrima a percorrer o rosto de Dilma, desde que a Presidente, agora com 68 anos, foi vítima de um "golpe de Estado" contra o seu governo, como afirma ter sido. Mas já a vimos tremer. Na manhã a seguir à votação do Senado que afastou a chefe de Estado por 180 dias até o caso ser julgado, Dilma estava visivelmente emocionada. Ainda assim, manteve a mesma postura de sempre. Reclamou a sua inocência, relembrou os 54 milhões de votos com que foi eleita, e acusou o governo de Temer de ser ilegítimo. Abalada pelo afastamento, nunca abandonou o tom combativo. Será, talvez, a voz da guerrilheira inconformada dos anos 60 e 70 do século passado.

Ontem começou mais um teste à sua sobriedade. Esta quinta-feira foram iniciadas no Senado as deliberações que a podem afastar, definitivamente, do cargo para que foi eleita. A votação final será apenas na próxima semana.

O governo chefiado por Dilma é acusado de utilizar empréstimos de bancos do Estado para ocultar défices orçamentais, - ato conhecido no Brasil como “pedaladas fiscais” -, em 2014, ano da sua reeleição, e em 2015.

A presidente afastada, afirma que é vítima de uma armadilha política liderada pelo seu ex-vice-presidente Michel Temer, que se tornou no seu grande inimigo, e que acabou por lhe tomar o lugar - ainda que como presidente interino.

A reta final do impeachment, que começou ontem, é uma espécie de David contra Golias, mas em vez de a desvantagem ser a força, são os números que tornam as suas hipóteses de continuar como Presidente do Brasil muito reduzidas. Com boa parte do Senado contra ela, a decisão já está praticamente tomada.

De postura erguida até ao fim

O ano de 2010 já vai distante. O Brasil que viu Dilma Rousseff receber do seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, a faixa presidencial e herdar a sua enorme popularidade; o país que viu uma mulher pela primeira vez na sua história a subir ao poder; o país emergente que se tornou um modelo de redução da pobreza... Esse Brasil que vivia um bom momento económico, e que tinha uma margem de crescimento enorme, vive num passado distante.

A queda, não inevitável, mas muito provável, de Dilma Rousseff, acaba com uma era de 13 anos de governo do Partido dos Trabalhadores (PT). Os últimos meses no Palácio da Alvorada, em Brasília, foram solitários.

Lá, para os lados da capital brasileira, construída de raiz no interior do país para travar a litoralização, sempre se disse que Dilma Rousseff não negociava, mandava, escreve a AFP. E foi no poder que a Presidente queimou as pontes deixadas pelo seu antecessor.

Os defensores de Dilma elogiam a sua atitude, dizem que representa determinação; os críticos apelidam-na de arrogante.

Rousseff enfrenta Golias com um índice de popularidade baixo - antes de começar o processo de destituição, 65% das pessoas diziam que o governo de Dilma era mau ou péssimo -, e com o governo abalado pelo escândalo de corrupção da Petrobras, que arrastou vários políticos do seu partido e deixou o próprio Lula na mira da justiça.

Nos últimos dias, Dilma Rousseff tentou mostrar o seu lado mais humano. As redes sociais passaram a ser as suas melhores amigas na troca de críticas ao governo interino; amigas essas que antes só apareciam em tempos de campanha eleitoral e, nessa altura, enalteciam os feitos do PT.

A mulher de Belo Horizonte, nascida no seio de uma família de classe média, pode estar a ver um dos mais importantes capítulos da sua vida política chegar ao fim. Tudo parece apontar para que Temer, na próxima semana, passe de presidente interino a Presidente, em definitivo, e que assuma o poder nos próximos dois anos. No entanto, a vida de Michel Temer não será fácil, com a primeira sondagem a atribuir ao seu Governo um índice de popularidade também bastante baixo, a rondar os 13%. São tempos difíceis, e isso reflete-se na confiança do povo no Governo, na política e nas instituições, que segue no valor mais baixo desde 2009.

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