“Na sua maioria os processos de radicalização através da Internet continuam a ser vinculados do Estado Islâmico (EI), que são os mais rápidos, os mais imprevisíveis, os mais violentos”, assinalou Manuel Navarrete Paniagua, diretor do Centro europeu de contraterrorismo da Europol.

“Mas também existem outros focos, por exemplo a extrema-direita, que também começa a ser preocupante, e as forças de segurança começam a reagir para identificar as origens e evitar que possam derivar em processos mais violentos”, prosseguiu o responsável, um dos intervenientes no VI Seminário Internacional “Ciberdemocracia e Cibersegurança”, que decorreu hoje no Auditório da Reitoria da Universidade Nova de Lisboa, no Campus de Campolide.

“O terrorismo, como outras formas criminais, abusa das redes sociais da internet para distribuir a sua propaganda, para obter recursos, para radicalizar pessoas, para comunicação. Por isso, existe um grande esforço em todos os âmbitos, a nível policial, dos serviços de informações, a nível político e também da própria indústria, para limitar que os terroristas possam abusar das redes sociais e da internet sem nenhum tipo de restrição”, prosseguiu o responsável policial.

Navarrete Paniagua interveio no seminário no painel “Cibersegurança: A radicalização na Internet”, com uma intervenção sobre “A estratégia ‘jihadista’ na internet. Ligação a ataques terroristas”.

O diretor da Europol assinalou os “avanços reais” no combate a este fenómeno e destacou as cooperação ao nível, de todos os serviços de contraterrorismo, recordou que nos diversos países foram criadas unidades que trabalham neste âmbito, confirmou uma “grande cooperação com a indústria que se desenvolve a partir de Bruxelas através da European Union Internal Fórum”, para além da limitação do acesso a conteúdos violentos por parte dos terroristas.

“Há uma redução da disseminação, uma baixa nesse nível de propaganda. Ainda não estamos no nível ótimo, mas creio que estamos no caminho policial, de serviços de inteligência e político para que esse fenómeno se vá mitigando e reduzindo”.

Navarrete Paniagua admitiu, no entanto, que o terrorismo, em toda a sua dimensão, “é adaptável, muito volátil, e também criativo”, para assegurar que as forças de segurança continuam empenhas em impedir a sua progressão “e reduzir ao máximo os efeitos desse avanço”, como especificou.

Num contexto europeu também assinalado pela emergência das forças da direita radical, incluindo a sua integração em diversos governos, o responsável da Interpol fez questão de precisar que a atenção da organização apenas se centra na extrema-direita “violenta e terrorista”.

“As ideologias de extrema-direita, de extrema-esquerda, de qualquer género, são perfeitamente assumíveis, têm os seus eleitores e para mim são respeitáveis. Refiro-me exclusivamente ao que é a parte criminal, violenta, que pode ter uma aspiração religiosa, pode ter uma aspiração política”, precisou.

“Sempre que nos referimos a violência política de qualquer âmbito, é um tema da competência das forças de segurança. Quando não é isso, não temos nada a ver e respeitamos profundamente”, acrescentou.

O painel “Cibersegurança: A radicalização na Internet”, moderado por Casimiro Morgado, diretor do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), foi também integrado por Jonhatan Russel, co-presidente do Communications and Narratives Working Group, Radicalization Awareness Network (RAN) e David Ruah, que integra o RAN e da Comissão instaladora da organização não-governamental (ONG) Instituto para a Tecnoética.

O especialista e académico britânico abordou o fenómeno com exemplos concretos de radicalização e concretização de ataques e focalizou-se na importância da comunicação, em particular na disseminação dos ataques e o seu visionamento em larga escala.

“Numa perspetiva de comunicação é importante e deve-se ter mais cuidado com a resposta pós-incidente. O ambiente que se gera em torno da internet é motivo de preocupação. Os media sociais, as ‘fake news’, podem ser catalisadores para a radicalização. E a escala a que está a ser contrariado ainda não parece suficiente. Existe necessidade de aperfeiçoamento, apesar de a resposta atual ser muito eficaz”, assinalou na sua intervenção.

Mas insistiu num aspeto que considerou determinante: “A contra-radicalização efetiva não significa uma redução da liberdade, que também necessita de ser preservada ‘online’”.

As “Táticas terroristas de propaganda digital. A resposta da sociedade civil” foi o tema proposta por David Ruha, que se referiu às particularidades da componente digital da nova propaganda terrorista que “veio revolucionar tudo”, em particular a questão da centralização operacional.

“Atualmente temos redes centrais, mas temos também ataques de pequena escala perpetrados por indivíduos que não são profissionais, não têm preparação, e que se baseiam num processo de auto-radicalização”, disse.

A necessidade de alertar as camadas mais jovens e de aplicar medidas preventivas foram outros aspetos da sua abordagem ao fenómeno do terrorismo.

“Temos de alertar os nossos jovens para a questão da iliteracia digital, ensiná-los a distinguir o que são raciocínios sólidos e coerentes de meras falácias. A academia também deve ter financiamento para investigar as novas ameaças no ‘online’, e desenvolver campanhas de comunicação para combater a desmistificar mitos sociais”, sustentou.

O investigador sugeriu ainda a aplicação de medidas preventivas, de campanhas, de contra-narrativas provenientes da sociedade civil, que também poderão ser desenvolvidas por ONG, destinadas a prevenir o processo de radicalização.

“Se os radicais se vão aproveitar de vulnerabilidades sociais, económicas e psicológicas, nós enquanto sociedade civil devemos primeiro que tudo fazer com que esses fatores não sejam vulnerabilidades”, frisou.

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