
A misogenia não nasceu hoje e a maldade também não. A droga nos anos 80 também não tinha acontecido só nos anos 80. Mas os traficantes não tinham corredor aberto para entrar no quarto de cada miúdo de 13 anos e isso fazia muita diferença. Hoje temos crianças e jovens que são drogados digitais e não os vemos dessa forma. Não queremos, porque são nossos e porque, na realidade, a droga que usam foi autorizada por pais, professores e pela sociedade em geral. Não era perigosa, abria novos horizontes, permitia fazer amigos e, levando jeito, o jovem ainda se tornava uma estrela instantânea nas redes sociais.
Hoje temos crianças e jovens que são drogados digitais e não os vemos dessa forma. Não queremos, porque são nossos e porque, na realidade, a droga que usam foi autorizada por pais, professores e pela sociedade em geral.
Sempre existiram alertas e, sobretudo nos últimos anos, sucederam-se estudos, relatórios, inquéritos que iam apontando para evidências. Há mais depressão entre os jovens e a curva de crescimento tem uma linha do tempo bastante paralela à da explosão das redes sociais. Há mais bullying entre jovens e de formas mais perversas. Há menos capacidade de aprender, menor capacidade de concentração e menos desejo de socializar à moda a antiga. Falar com alguém ao telefone é incómodo para muitos jovens (e não tão jovens assim) e ter de interagir com outro ser humano sem ser atrás de um ecrã é intimidante. Os jovens que não sentem qualquer inibição de se filmarem em quase todas as situações da sua vida são os mesmos que evitam conversas olhos nos olhos. No regresso ao escritório após a pandemia, houve empresas a contratar outras empresas especializadas em “ensinar” a geração mais nova a interagir com colegas no local de trabalho. Falar sobre o tempo, a série que se está a ver ou como a tua avó faz o melhor bacalhau com natas tornou-se difícil, ao mesmo tempo que publicar dancinhas no TikTok se tornou prova de “saber estar” nas redes sociais.
E tudo isto passou por nós. Os que assistiram, os que aplaudiram e os que se apressaram a ganhar dinheiro com isso. E é assim que chegamos a 2025 e, no intervalo de semanas, primeiro estreia uma série que coloca toda a gente a falar sobre o que é que acontece aos miúdos que estão a crescer dentro de um aquário que é um qualquer ecrã de smartphone e, pouco depois, uma adolescente é alegadamente violada em Loures por um rapaz que conheceu no TikTok e mais dois amigos do rapaz que decidiu levar para um encontro que era supostamente a dois. Era uma coisa aparentemente simples, rapariga conhece rapaz, marcam um encontro e vão ver o que dá. Em vez disso aconteceu uma violação filmada e partilhada nas redes sociais, a que assistiram 32 mil pessoas sem que nenhuma alma tivesse uma vaga ideia de bem e de mal sobre aquilo que estava a ver nem qualquer sentido de urgência sobre o crime a que estava a assistir.
Estamos em 2025 e tudo isto está a passar por nós.
Temos direito a ser más pessoas? Temos direito a ser estúpidos? Sim, temos, até porque parte dessa condição não é sempre ou totalmente controlada pelo próprio. Temos direito de promover o ódio e a estupidez? Não, não temos.
Como é que nos são sugeridos os conteúdos que consumimos nas redes sociais? Pelos algoritmos. Como é que os algoritmos sugerem conteúdos? Pela regra do que vai ser mais aditivo, do que vai fazer as pessoas ficar mais tempo naquela plataforma, qual rato na roda. Quem regula a forma como os algoritmos são programados para mostrar conteúdo? Eles próprios. E porque razão podem propor arbitrariamente o que mais convém ao negócio? À boleia de um conceito que não podia estar menos relacionado: a liberdade de expressão. De quem? De todos nós. Zuckerberg e os seus irmãos de armas estão preocupados com a nossa liberdade de expressão, mais nada. Se qualquer um dos 5 mil milhões de pessoas que usam redes sociais decidir publicar mensagens de ódio, de humilhação, de ameaça ou simplesmente de estupidez, as plataformas não podem fazer nada. Não é por causa deles, percebem? É por nossa causa, para nos proteger da terrível limitação de liberdade que seria não podermos expressar ódio e estupidez, a qualquer hora, e para quem quer que seja que no mundo tenha acesso à internet e uma conta numa rede social.
Temos direito a ser más pessoas? Temos direito a ser estúpidos? Sim, temos, até porque parte dessa condição não é sempre ou totalmente controlada pelo próprio.
Temos direito de promover o ódio e a estupidez? Não, não temos. O ódio está legislado, a estupidez não se legisla, o que se faz é promover a capacidade de pensar de forma a limitar o espaço que ocupa e a adesão que recolhe.
A quem cabe tomar essas decisões? A todos, os que consomem ódio e estupidez, os que deixam crianças e jovens à mercê do ódio e da estupidez sem qualquer intervenção, à publicidade ou patrocínio a figuras que corporizam esse ódio ou estupidez. A responsabilidade é de todos, mas não é a mesma de quem é dono do espaço onde isso tudo acontece e que detém o controlo absoluto sobre a forma como as coisas acontecem.
O algoritmo não tem filhos e, por muito que discutamos a evolução da inteligência da máquina, não tem consciência. O algoritmo tem capacidade estatística e cada vez maior. É um super-homem, passe a antítese, a detetar padrões de consumo. Os miúdos de 13 anos têm frustrações porque não arranjam namoradas? Têm, sempre tiveram e a educação emocional e a mudança de mentalidades não se fará de certeza com um algoritmo. Faz-se em casa, na escola, entre amigos, faz-se ao dar espaço para falar de emoções e a ajudar pais e filhos a identificarem o que sentem e conseguirem lidar com isso.
Os miúdos de 13 anos não se tornaram maus por causa da internet, e as miúdas de 13 anos não foram julgadas na escola por terem uns quilos a mais ou usarem decotes por causa da internet. Miúdas populares a descartar miúdos introvertidos não acontece por causa da internet. Acontecia há 40 anos e não havia internet. E então, como agora, era preciso tempo e dedicação para educar bons seres humanos, o que muitas vezes significa educar os pais desses seres humanos quando chegam à idade adulta com uma visão do mundo deformada.
na vida real, fora do ecrã e do algoritmo, nós debatemo-nos todos os dias com os nossos defeitos e a sobrevivência da espécie tem sido também a capacidade de vencermos as nossas piores pulsões. Na vida real não sentimos orgulho em dizer alto e bom som aqueles pensamentos maus que temos por inveja, ciúme ou mera tristeza. E isso é ser humano
O que os algoritmos fazem não é contribuir para essa educação emocional e, em boa verdade, não lhes cabe. O que não lhes cabe de certeza é serem os promotores, facilitadores e distribuidores de ódio e estupidez, porque a receita sai à casa. Nestes 20 anos os algoritmos das redes sociais transformaram a internet num reality show das nossas frustrações e maldades. E, imagine-se, é tudo por causa da liberdade de expressão. Cada um vê o que quer. Qual é o mal? LOL.
O mal é que, na vida real, fora do ecrã e do algoritmo, nós debatemo-nos todos os dias com os nossos defeitos e a sobrevivência da espécie tem sido também a capacidade de vencermos as nossas piores pulsões. Na vida real não sentimos orgulho em dizer alto e bom som aqueles pensamentos maus que temos por inveja, ciúme ou mera tristeza. E isso é ser humano. É a construção de cada um de nós como humanos, porque precisamos disso para viver com os outros mas, ainda antes, precisamos dessa humanidade para viver connosco próprios.
Ao algoritmo importa o que é mais vibrante, que nos afeta mais, aquilo que se torna tão irresistível que queremos continuar a ver mais e mais. E quanto mais é exposto o pior de nós, mais se torna “normal”. É normal vermos presidentes de um país a humilharem presidentes de outro país em público? Não era - passou a ser. É normal um presidente de um país vender automóveis na sua residência oficial? Não era - passou a ser. É normal políticos que lideram países e governos ameaçarem diretamente quem discorda deles? Não era - passou a ser. A exibição do ódio e da estupidez é normal, é o que o algoritmo nos mostra todos os dias e estamos todos a ver.
Ao algoritmo importa o que é mais vibrante, que nos afeta mais, aquilo que se torna tão irresistível que queremos continuar a ver mais e mais. E quanto mais é exposto o pior de nós, mais se torna “normal”. É normal vermos presidentes de um país a humilharem presidentes de outro país em público? Não era - passou a ser
O que podemos fazer? A regulação das redes sociais é uma resposta óbvia, mas, agora que pensamos nisso, temos muito mais problemas para resolver. As redes sociais pertencem a empresas privadas e a esmagadora maioria pertencem a um país que não é europeu e que é hoje uma roleta russa (sem intenção no trocadilho). A Austrália tem mostrado caminhos, começando por apontar o dedo ao óbvio: o acesso de adolescentes a redes sociais antes da idade convencionada por quem tem legitimidade de decidir – pais e Estado enquanto legislador – deve penalizar os donos dessas mesmas redes. Os mesmos que até aqui têm assobiado para o lado, porque nos termos de acesso indicam que só pode ter conta quem tem mais de 13 anos - e claro que não fazem ideia de que basta mentir na idade para se poder entrar.
O que podemos então fazer? Os autores de “Adolescence” propõem que os jovens até aos 14 anos não tenham redes sociais. O governo inglês levou a série ao parlamento e o primeiro ministro disse que se tinha emocionado a ver com os dois filhos, de 14 e 16 anos. Antes da série, vários autores têm escrito e documentado o impacto de 20 anos de redes sociais (sim, o Facebook já tem 21 anos). Não são opiniões, há dados e não são de hoje. O que faz com que campanhas como a que Mark Zuckerberg andou a apresentar nas últimas semanas, promovendo o Instagram como rede que está “ao lado” dos pais para cuidar dos filhos, sejam particularmente sonsas e oportunistas. Porque sempre tiveram nas mãos a possibilidade de fazer o que agora anunciam, que é usar a tecnologia com responsabilidade. As ‘novidades’ anunciadas pela Meta são coisas como ter as contas de utilizadores abaixo dos 18 anos privadas por definição, requerer aprovação parental abaixo dos 16 anos para mudar as definições de privacidade e bloquear mensagens de contas que os jovens utilizadores não seguem. Se continua a ser tão fácil criar uma conta como roubar um chupa-chupa a um bebé? Continua.
O que podemos mais fazer? Podemos passar a falar das redes sociais desde muito cedo aos nossos filhos como falamos dos perigos do tabaco ou das drogas ou de conduzir sob efeito de álcool. Nos anos 80, drogas pesadas como a heroína foram um flagelo em vários países, Portugal incluído. A obsessão pela popularidade e a partilha do ódio e da estupidez sem qualquer tipo de regulamentação não é um problema menor, pelo contrário.
P.S. Os algoritmos também podem melhorar. Afinal são programados por humanos. Mas olhando para as receitas das Big Tech que gerem redes sociais isso não é um negócio nada interessante.
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