Reportagem de Rosa Sulleiro / AFP

Com o seu uniforme azul, o Capitão América distribui panfletos aos transeuntes. Candidato ao cargo de deputado pelo estado de São Paulo, o polícia de 50 anos está pronto para fazer qualquer coisa para atrair a atenção dos eleitores.

Batman, Snoopy e vários Pais Natal também aparecem, assim como Bin Laden, que tenta de novo a sorte depois de fracassar em 2014.

A lei eleitoral brasileira permite que os candidatos se apresentem sob o nome que quiserem, desde que não seja um insulto.

"Hoje em dia se você entrega um santinho vestido como uma pessoa comum, o cara pega e joga fora. Eu, vestido de super-herói, a pessoa pelo menos fica curiosa", disse à AFP o Capitão América, brandindo o seu grande escudo estrelado em frente a um hospital infantil em São Paulo.

Espírito de super-herói

Mas o hábito não faz necessariamente o monge. Luiz Carlos de Paula, vulgo Capitão América, considera que é preciso incorporar também o espírito do super-herói.

"Para você se fantasiar e ser candidato tem de ter uma história. Não adianta você se vestir de Batman e sair e falar ‘sou Batman’", afirma o homem que se registou oficialmente como Capitão América de Paula.

Em 2012 Luiz foi atingido por três balas durante um assalto à mão armada e sobreviveu. Desde então fantasia-se para visitar crianças com cancro em hospitais do país.

Essa iniciativa tornou-o famoso entre a sua vizinhança, que o aconselhou a tentar a sorte na política.  O Capitão América de Paula filiou-se então no PSL, partido do candidato Jair Bolsonaro, que lidera as intenções de voto na primeira volta da eleição presidencial de 7 de outubro.

O modelo do género é o palhaço Tiririca, que, ao contrário do Capitão América de São Paulo, é uma conhecida figura da imprensa, tendo participado em muitos programas de televisão.

Com o lema "pior não fica", Tiririca 'surfou' a onda do voto de protesto ao ponto de ser eleito deputado com um recorde de 1.3 milhão de votos em 2010.

Reeleito em 2014, Tiririca renunciou, para surpresa de todos, em dezembro do ano passado. Agora, concorre a um terceiro mandato com frases bandeira, como a profecia de que "o dólar cairá mais do que Neymar" — uma referência à acentuada depreciação do real frente à moeda norte-americana e às críticas do craque da Seleção pelas simulações em campo.

Operação sedução

"São muitos candidatos, o espaço para a propaganda política nas televisões e rádios não é grande. É complicado fazer campanha num estado inteiro, o custo de deslocamento é muito grande: imprimir [material de campanha] é muito caro... Para se distinguir você acaba optando por outras formas de chegar no eleitor", explica Fernando Meireles, professor de Ciência Política na Universidade Federal de Minas Gerais.

Se alguns apostam nas redes sociais tradicionais como Facebook ou Twitter, Felipe Oriá prefere seduzir os eleitores no Tinder, uma aplicação de encontros.

O jovem de 27 anos inscreveu-se em julho e não tardou a receber mais de 400 "matches" por dia. "Primeiro coloquei uma foto minha, mas todas as outras eram propostas, e a gente dizia: ‘vem dar match com essas ideias, vem dar match com essas propostas’, a brincadeira era que as pessoas não dessem match comigo, mas dessem match com as ideias, com as propostas", afirmou o candidato e professor na Universidade de Pernambuco.

Candidatos de todo o país pediram-lhe conselhos, mas o Tinder acabou por encerrar a sua conta um mês depois de criada, considerando que o candidato não a utilizava para os fins previstos.

"Enquanto não se fizer a reforma política que coloque critérios objetivos na distribuição de recursos do fundo partidário, de tempo de televisão, de outros elementos do partido... as taxas de renovação do Congresso vão continuar sendo baixíssimas", lamentou o jovem candidato, que obteve 150.000 reais (cerca de 31 mil euros) graças a um financiamento coletivo na Internet, montante considerado insuficiente.

"É David contra Golias", conclui Felipe Oriá, que, ao contrário dos outros, não tem super poderes.

Quase 150 milhões de brasileiros escolhem em outubro, além do próximo Presidente, 27 governadores, 54 membros da câmara alta do Parlamento e 513 membros da câmara baixa, bem como centenas de membros das câmaras estaduais.

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