Conta o The Guardian que, no Reino Unido, as doações de esperma são escassas. Por isso, a cada ano são importadas pelo menos 7.000 amostras, principalmente da Dinamarca e dos EUA, de forma a ser possível acompanhar a procura das clínicas de fertilidade, que tem vindo a aumentar. No Reino Unido, em 2017, 2.345 bebés nasceram fruto de doações de esperma.

Para resolver esta questão, a comunidade científica tem já uma proposta, publicada no Journal of Medical Ethics: os homens poderiam dar consentimento para que o seu esperma fosse extraído quando morressem, sendo depois usado ​​para ajudar casais com problemas de infertilidade.

"Sabemos que há uma escassez de doadores de esperma no Reino Unido e esta é uma maneira de resolver o problema", disse Joshua Parker, médico e especialista em ética do hospital Wythenshawe em Manchester. "Consideramos que seria ético permitir que os homens doem voluntariamente os seus espermatozóides para serem usados ​​por estranhos após a morte", referiu.

No artigo publicado, os investigadores referem que estas doações são, além de "tecnicamente viáveis", "eticamente admissíveis". Além disso, para recolher esperma são utilizados procedimentos que, em vida, podem ser desagradáveis: um deles requer a inserção de uma sonda retal que eletrocuta a próstata para estimular a ejaculação e o outro exige que o escroto seja aberto para obter acesso direto às células.

Até ao momento, estudos sugerem que o esperma de homens que morreram pode resultar em gravidezes viáveis ​​e em crianças saudáveis, quando recuperado até 48 horas após a morte. A doação enquadra-se, segundo os investigadores, no mesmo método que a doação de órgãos.

"Se é moralmente aceitável que indivíduos possam doar os seus tecidos para aliviar o sofrimento de outras pessoas por transplantes, não vemos razão para que isso não possa ser estendido a outras formas de sofrimento como a infertilidade", disseram.

Um outro argumento utilizado para legitimar esta opinião é a diversidade de material genético disponível. Com estas doações pós-morte seria possível aumentar a diversidade de espermatozóides, o que pode ser benéfico para alguns casais que procuram esperma de homens de uma determinada etnia.

Questão ética: conhecer ou não o doador

Contudo, há um pormenor ético que levanta questões. No Reino Unido, as doações de esperma não são anónimas. Segundo o jornal britânico, as crianças concebidas por doadores podem entrar em contacto com os seus pais quando completam 18 anos de idade, embora nem todos o façam.

"Não sabemos qual seria o impacto psicológico nas crianças nascidas desta maneira", disse Parker. "Algumas pessoas que querem esperma de doadores podem ver o facto de estes terem morrido como uma coisa boa, se estiverem preocupadas com a possibilidade de a criança ter um relacionamento futuro com eles", acrescentou.

Nem toda a comunidade está de acordo com o método. Allan Pacey, professor de andrologia da Universidade de Sheffield, disse que, embora a proposta tenha sido bem argumentada, discorda, uma vez que "parece um retrocesso recrutar doadores mortos", já que as crianças nunca terão a oportunidade de os conhecer.

"Prefiro que a nossa energia seja investida na tentativa de recrutar doadores mais jovens, saudáveis ​​e dispostos a tal, que tenham uma boa probabilidade de estar vivos quando as pessoas concebidas começarem a ficar curiosa sobre eles, tendo oportunidade de entrar em contacto sem ser com a ajuda de um espiritualista", reforça.

Além disso, a Autoridade de Fertilização Humana e Embriologia exige que os doadores de esperma sejam submetidos a triagem médica e a uma quarentena de três meses para garantir que as amostras estão livres de infecções como o HIV, medidas que só podem ser tidas em conta enquanto os doadores estão vivos.

A visão de quem já doou esperma 

À BBC, o ex-doador Jeffrey Ingold, de Londres, disse que acredita que permitir doações após a morte pode convencer mais homens a tornarem-se doadores.

"Não vejo como a introdução de um sistema que torne a doação de esperma semelhante à doação de órgãos possa ser outra coisa senão uma coisa boa", afirmou. "Para mim, doar esperma nunca foi algo sobre os meus próprios genes ou assim, mas foi sobre ajudar amigos necessitados".

"Também acho que este tipo de processo pode desafiar as ideias preconcebidas que a sociedade tem sobre a doação de esperma. Se as pessoas soubessem mais sobre o processo e pudessem tomar decisões mais informadas sobre tornarem-se ou não doadoras de esperma, acho que veríamos muito mais pessoas a optar por fazê-lo", comentou.

Precedentes legais: o que já aconteceu no Reino Unido

Em 1997, uma mulher conquistou o direito de usar o esperma do marido que tinha falecido. Stephen Blood adoeceu com meningite em fevereiro de 1995, dois meses depois de tentar iniciar uma família com a sua esposa, Diane. Com a evolução da doença, Stephen entrou em coma e morreu antes de concordar por escrito em usar o seu esperma, embora duas amostras tenham sido retiradas e congeladas a pedido da mulher.

Segundo a lei de 1990, não seria permitido usar o esperma do marido sem o seu consentimento por escrito. Contudo, o Tribunal de Recurso decidiu mais tarde que a mulher deveria ser autorizada a procurar tratamento de fertilidade na Comunidade Europeia, mas não no Reino Unido.

Assim, em 2001 nasceu Joel. No ano seguinte, Diana venceu uma batalha legal para que o falecido marido fosse reconhecido legalmente como o pai do seu filho, uma vez que tinha sido utilizado o esperma que lhe foi retirado antes de morrer, mesmo que este não tenha assinado nenhum documento.

Também em 2018 surgiu o conhecimento de outro caso, em que um casal britânico tinha colhido esperma do filho, em 2014, três dias após a sua morte num acidente de moto, de forma a permitir o nascimento de um herdeiro.

A família manteve o esperma congelado, sendo depois exportado para os EUA, onde foi usado para criar um embrião masculino que foi levado a termo por uma barriga de aluguer. Segundo os investigadores, este pode ter sido o primeiro caso de uma criança britânica nascida de esperma extraído após a morte.

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