O que separa Rui Rio e Pedro Santana Lopes, os dois candidatos à liderança do PSD? Há quem diga a personalidade, será mais ou menos unânime que o estilo é de certeza. E ontem, em frente às câmaras, no estúdio da RTP onde decorreu o primeiro debate entre os dois, essa foi a pergunta que salvou um debate que de outra forma teria sido só previsível senão enfadonho. O que os separa, perguntou o moderador. As personalidades “completamente diferentes”, disse Rio, Diferentes como, insistiu. E a partir daí passou-se algo como isto.

Rui Rio: “Não é uma coisa muito agradável eu começar …”

Pedro Santana Lopes: “ Vais começar por me pedir desculpa daquela expressão …”

Rui Rio: “Das trapalhadas? Não.

Pedro Santana Lopes: “Do argumentário do engenheiro Sócrates”.

Rui Rio: “Qual?

Pedro Santana Lopes: “Eu gostava de falar nisso …”

Rui Rio: “Mas as trapalhadas efetivamente existiram, como é lógico, não é?”

Pedro Santana Lopes: “Mas quais, já agora ... 2004?”

(…)

Rui Rio: “Ó Pedro tu foste primeiro-ministro durante cinco meses e dois ou três de gestão - independentemente do Presidente da República ter atuado como atuou, e não estou a dizer que estive ou não de acordo, num tão curto espaço de tempo …”

Pedro Santana Lopes: “Então a questão é o espaço de tempo?"

Rui Rio: “Se ele fez isso é porque havia razões”

Pedro Santana Lopes: “É porque havia razões?”

Rui Rio: “É porque havia naturalmente razões e tu sabes disso perfeitamente”

Pedro Santana Lopes: “Eu não sei”.

(…)

Pedro Santana Lopes: “Ó Rui, mas então foste o meu primeiro vice-presidente e nunca me disseste isso? Foste até ao final? Nunca disseste isso nem publica nem privadamente e, se me dás licença, tenho aqui [mostra recorte de jornal] disseste que ‘quando foi primeiro ministro só posso dizer bem de Santana’”.

A partir daqui Santana Lopes arrancou para o tipo de debate em que está como peixe na água. Aquele em que esgrima argumentos e que usa tudo o que aprendeu em várias décadas de política ativa e que soma a tudo aquilo que lhe é inato na tal coisa a que chamamos personalidade.

Trapalhadas: “Lembras-te Pedro?”

Porque até aqui, ou até este capítulo, o debate estava equilibrado, senão mesmo de pendor favorável a Rui Rio claramente mais preparado e com mais vontade de discutir a primeira questão que foi colocada em cima da mesa: a polémica lei do financiamento dos partidos. Uma resposta estruturada e a capitalizar da atualidade do tema para os portugueses em contraste como uma certa displicência de Santana Lopes, aliás assumida pelo próprio ao indicar a questão como não prioritária. Já lá voltamos - porque este meio do debate foi “o” debate, pelo menos para aqueles que acreditam que as pessoas se movem por pessoas. E há algo melhor para avaliar quem é uma pessoa do que uma boa discussão doméstica? Foi isso que durante largos minutos Rio e Santana Lopes protagonizaram: uma discussão das antigas, de mágoas guardadas e intrigas que o tempo apurou.

Uma discussão de dois homens da mesma idade, da mesma geração, que conhecem muitas das mesmas pessoas, que passaram por muitas das mesmas guerras, que já tiveram do mesmo lado, mas que nunca foram um só lado. Uma discussão entre o Rui e o Pedro, que se tratam por tu, claro, e que se já tinha tudo para ser pessoal, Santana Lopes usou da sua mestria política para a tornar íntima. É o que acontece quando se discute em frente das câmaras coisas que se anda a discutir em família há anos - e tal como no amor e na guerra, há sempre alguém que sabe melhor o momento exato em que se exibem as feridas e os troféus. Esse alguém, foi Santana Lopes.

Pedro Santana Lopes, imparável no discurso, na retórica, na autópsia ao que foi.

Do inimigo externo, estratégia ancestral “Se há coisa que os militantes do PPD/PSD sentem é que o Dr. Jorge Sampaio foi um grande adversário”.

Das feridas: “Aliás, disse-te o outro dia ao telefone, como é possível usares uma expressão dessas [ainda as trapalhadas]”.

Dos troféus: “Imagina que eu andava a citar o que o teu nº 2 no primeiro mandato andou a dizer, Paulo Morais? Não o faço. (…) Somos companheiros de partido, é ser humano, conheço há muitos anos, respeito, era o que faltava não respeitar”.

Rui Rio regressa ao debate depois de largos minutos em que quase pareceu ausente. Num registo “lembras-te Pedro”.

“Claro que quero responder. Nós éramos vice presidentes de Durão Barroso. Na altura, muitos não apoiaram a nomeação de Pedro Santana Lopes para primeiro ministro e se eu não tivesse apoiado era muito menor a probabilidade de ter acontecido”.

Depois da justificação, vem … a justificação.

Uso este argumento [das trapalhadas] porque o que estamos a escolher é o líder do PSD que vai concorrer a primeiro ministro contra António Costa. (…) Todas estas fragilidades e histórias voltam ao de cima e por isso é que é importante”.

Santana Lopes quase parecia esperar por este confronto final, esperava-o.  “Se eu for candidato a primeiro ministro, sabes quais são as histórias que virão ao de cima do partido socialista se vierem com a conversa? … O teu problema sabes qual é? Na moção, em qualquer lado, passas o tempo a dizer mal de mim …”

“Não é verdade …”, Rio não ferve, mas Pedro não desiste. Vamos perceber nos minutos seguintes que este era o momento do tudo ou nada que precisava alimentar para o levar até dizer o que precisava dizer. E a conversa continua tão pessoal quanto as de todos nós, com os nossos.

“Porque não dizes do Dr. António Costa o que dizes de mim?”

“Porque não dizes do Dr. António Costa o que dizes de mim?”. Rio ainda tentará colocar em jogo a carta da nomeação do seu adversário para a provedor da Santa Casa da Misericórdia pelo atual líder do PS, mas como em qualquer jogo de estratégia esta estava no alinhamento de ambos e Santana não é homem para se deixar surpreender com o que se pode antecipar. Além disso, quer chegar a um ponto muito concreto, onde tem os olhos postos desde que entrou em campanha. “O país todo sabe ao longo destes anos que são quase siameses … os Dupont e Dupond não somos nós os dois” - é isto que tem andado sempre a dizer de Rui Rio e de António Costa, é isto que voltou a dizer em frente às câmaras.

Rio irá fechar esta parte do debate com uma afirmação categórica - ainda que a lembrar na sonoridade uma célebre intervenção de Valentim Loureiro. “Eu não devo nada, nada, nada ao Dr. António Costa. E o Dr. António Costa não me deve nada, nada, nada a mim”.

O debate terá ainda tempo para que Pedro Santana Lopes use mais uns souvenirs políticos, como a intervenção de Rui Rio num almoço da Associação 25 de abril durante o mandato de Passos Coelho, a sua proximidade com Pacheco Pereira e o facto de no mandato de Manuela Ferreira Leite ter participado na decisão de excluir Passos Coelho da lista de candidatos. Souvenirs pouco ou nada importantes -se é que sequer memoráveis - para os portugueses em geral, mas que Santana acredita poderem fazer a diferença para os militante do seu PPD/PSD. Mesmo que seja uma diferença tão curta quanto aquela que evocou ao recordar que os resultados de Manuela Ferreira Leite (com Rui Rio na direção) nas eleições legislativas de 2009 tinham sido apenas quatro décimas (Santana enganou-se e disse duas) superiores aos que o PSD alcançou quando em 2005 perdeu as eleições para o PS e deu a primeira maioria absoluta de José Sócrates.

A verdade é que Rui resistiu às técnicas do adversário enquanto pôde, mas lá acabou também por exibir um recorte de jornal em que Santana afirmava querer fazer um novo partido fora do PSD e que recordou que com Passos Coelho também saiu da lista de deputados, na mesma altura, Miguel Relvas, agora apoiante de Pedro Santana Lopes. E respondeu com serenidade sim tinha estado num almoço a convite da Associação 25 de Abril onde falou de termos uma democracia enfraquecida. “E vou a todo o lado que me convidarem falar desses problemas estruturais do país”.

Ainda houve tempo para falar de futuro - mas com um passado tão rico em peripécias é difícil rivalizar. Menos Estado, melhor Estado, mais proximidade, reequilíbrio do território, menos impostos para as empresas, mais crescimento, estão de acordo. Siga. E seguiu para Operação Marquês e para os casos de corrupção. Rio não vê  no Ministério Público “a eficácia e o recato que deve ter”, Pedro concorda com o respeito das liberdades e garantias mas recorda que “se é algo que não podemos dizer da justiça portuguesa é que tiveram receio de enfrentar poderosos”. E chegou-se à recta final. Nas eleições, como vai ser, sozinhos ou acompanhados? E sozinhos é o “ideal” para ambos, mas o ponto de ruptura está na exceção. Para Pedro Santana Lopes há “exclusão de coligação com PS antes ou depois das eleições”, para Rui Rio não se deve dizer “jamais como o outro” porque “pode haver situações extraordinárias em que em nome do interesse nacional” - e recorda o pacto de entrada da troika em Portugal.

No célebre minuto final, o clássico ‘porque devem votar em mim’ de todo este tipo de debates, Santana voltou a dar a volta por cima. Falou de participação e de engrandecimento e sublinhou o que faz o PPD/PSD diferente: “somos o partido mais português de Portugal e queremos constituir uma alternativa a esta Frente de Esquerda”. Rui Rio repescou “o” argumento das mágoas familiares e disse: “o objetivo do líder do PSD é ser primeiro ministro e devem pensar nisso, escolher o que tem melhores condições de ganhar a António Costa”.

No próximo dia 13 de janeiro, quando os militantes do PSD votarem, vamos ficar a saber várias coisas. A primeira é se o sentimento dominante dos espetadores que assistem a um debate converge ou não com o sentimento dominante na família social-democrata. Outra é do que mais ou melhor se lembram: do que Santana Lopes fez no verão de 2004 ou Rui Rio no inverno de 2014. E também saberemos qual pessoa é menos grata no PSD, se Pacheco Pereira ou Miguel Relvas. Mas nestes acertos de contas na família social-democrata há uma promessa por cumprir: que volte a parecer-se mais como uma grande série dramática sobre política e menos com uma novela de guião quase sempre previsível.

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