Os números oficiais dizem que a comunidade lusovenezuelana que começou a regressar à ilha da Madeira em massa a partir de 2016 é de oito mil pessoas, mas estima-se que, atualmente, esse número já chegue à dezena de milhar. Nos boletins de voto são mais de cinco mil e este domingo, numa eleição em que pouco mais de dois mil votos chegam para eleger um deputado, podem ter uma palavra decisiva.

As sondagens traçam um cenário de indecisão política para o futuro da Região Autónoma da Madeira. Com o Partido Social Democrata, pela primeira vez em 43 anos, na iminência de poder não conseguir conquistar uma maioria absoluta, o papel da comunidade de ex-emigrantes venezuelanos pode ser decisivo sobretudo para dar à direita a capacidade de evitar um acontecimento histórico, a existência de um vencedor minoritário, ou de, na ausência de uma maioria, a capacidade de uma eventual coligação pós-eleitoral dos partidos mais à direita.

Ana Cristina Monteiro, presidente da Associação da Comunidade de Imigrantes Venezuelanos na Madeira (Venecom) e vereadora do CDS na Câmara Municipal do Funchal, é a lusodescendente mais bem colocada nas listas às eleições legislativas que acontecem este domingo com um terceiro lugar.

Ao SAPO24, a candidata centrista diz que “este é o momento para a comunidade venezuelana fazer a diferença”. O que aconteceu na Venezuela, nos últimos três anos, levou a que a dirigente afirme que “as palavras socialismo e comunismo não sejam muito bem vistas no nosso léxico”. “Vimos o que nos venderam como comunismo do século XXI, o comunismo moderno que deixou um país à fome. No mundo não há nenhuma demonstração positiva de socialismo”, sublinha.

“O povo venezuelano valoriza muito a liberdade. A Venezuela nunca foi um país cem por cento seguro, mas era livre, vivíamos em liberdade. Hoje nem sequer há um meio fidedigno que possamos seguir para nos informar, para tratar de documentação. Nada”, lamenta.

O sentimento de Ana Cristina Monteiro não é único. Prevê-se por isso que a comunidade lusovenezuelana incline o quadro político madeirense para a direita. Não só pela centrista, mas por exemplos como o de Carlos Fernandes, líder do Núcleo de Emigrantes do PSD Madeira, que concorre nas listas sociais democratas no décimo posto, um lugar, à partida, elegível.

Ao SAPO24, José Prada, secretário-geral do PSD Madeira afirma que esta comunidade “sabe o que o socialismo pode fazer e essas pessoas é que podem transmitir às suas famílias e amigos madeirenses o que é viver num país socialista. Viver não, não viver. E ao contrário de onde viviam, a Madeira recebeu-os de braços abertos”.

Mas o tema não é exclusivo da direita. Há um candidato, Tomás Marquez, venezuelano que veio há 10 para a Madeira por amor, que concorre nas listas do Bloco de Esquerda, partido que sobre este tema quer ter uma palavra a dizer.

“Os regressados da Venezuela estão a ser alvo do PSD, eleitorado fresco, mais fáceis de seduzir porque os madeirenses, que já estão cá há mais tempo, estão fartos da conversa enganadora do PSD. Quem andou de braço dado com Chavez e com Maduro foram os governantes da direita, de Paulo Portas a Jardim que fez um grande elogio fúnebre a Chaves. Aliás, eram muito parecidos na forma musculada e autoritária e até como se apresentavam a eleições e exerceriam o poder, como tentavam condicionar a população e os funcionários públicos. Além disso, foi o CDS que andou a multiplicar os negócios com a Venezuela. Enquanto houve dinheiro fácil não houve questões com direitos humanos ou democracia, como é usual nesses partidos em relação a regimes autoritários”, argumenta Paulino Assunção, candidato do BE a estas eleições.

Já o Partido Socialista, pela voz do secretário-geral da delegação da Madeira, diz que “a estratégia do PSD, infelizmente durante 43 anos, assentou muito na cultura do medo do inimigo externo” afirmando que “todos os problemas da região são responsabilidade do governo da República, sobretudo quando são liderados pelo Partido Socialista e agora nós percepcionamos que existe o mesmo fenómeno em relação à comunidade lusovenezuelana com o PSD a fazer um discurso muito agressivo de que entregar a região ao PS é o mesmo que entregar a região à governação de Nicolás Maduro ou de Chaves”.

“Julgo que qualquer pessoa bem informada saberá que estarmos a falar do Partido Socialista português é estarmos a falar da mesma família de partidos mundiais que integra o partido de Juan Gauidó, que é neste momento o principal opositor ao regime de Nicolás Maduro, e, portanto, julgo que os lusodescendentes, por mais que alguns tentem e procurem monopolizar o discurso à volta desta questão saberão compreender aquilo que é o PS em Portugal e aquilo que são as táticas ditatoriais da Venezuela e a prova disso mesmo é o resultado que nós tivemos com o apoio que o governo da República deu, através do secretário de Estado Luís Carneiro, às comunidades lusovenezuelanas”, sublinha João Pedro Vieira.

À margem da luta de argumentos na conquista do voto desta comunidade, Ana Cristina Monteiro pede mais e melhores medidas para a reintegração dos que voltam. Do reconhecimento dos títulos académicos atribuídos pelas universidades venezuelanas a mais medidas do SEF para ajudar com a documentação e legalização dos que regressam.

À luta pelos votos, a comunidade não ficará alheia à conquista de medidas que a possa fazer-se sentir-se mais em casa.

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