Paulo VI, o primeiro Papa a rezar em Fátima

Giovanni Montini nasceu em Itália, em 1897, e escolheu o nome de Paulo para refletir a sua missão de propagação da mensagem de Cristo, tornando-se Papa a 21 de junho de 1963.

Sucedeu, em 1963, ao Papa João XXIII, que convocou o Concílio Vaticano II, optando por seguir o trabalho do seu predecessor de abertura da Igreja.

Foi o primeiro líder da Igreja Católica a viajar pelos cinco continentes.

Paulo VI foi também o primeiro a conversar com o líder da Igreja Anglicana e com os dirigentes das diversas Igrejas Ortodoxas do Oriente.

Durante o seu papado, as relações com Portugal atravessaram vários momentos de tensão.

Paulo VI foi o primeiro papa a visitar Portugal, em 1967, num ambiente de forte tensão com o Vaticano, recusando uma visita de Estado a um país com uma "política de guerra" nas colónias africanas.

Foi por isso que o Papa esteve em Fátima como simples peregrino, para assinalar os 50 anos dos acontecimentos em que três crianças afirmaram ter visto Nossa Senhora na Cova da Iria, hoje transformada em Santuário, tendo rezado à paz num país em guerra.

Salazar não queria o Papa em Portugal, ofendido por Paulo VI ter feito uma visita a Bombaim, na Índia, escassos três anos depois da invasão de Goa pela União Indiana. O então ministro dos Negócios Estrangeiros, Franco Nogueira, em outubro de 1964, chegou a qualificar presença de Paulo VI em Bombaim “um agravo gratuito, no duplo sentido de que é inútil e injusto para com um país católico”.

Portugal, no entanto, convidou Giovanni Montini para o 50.º aniversário das “aparições” e do 25.º aniversário da consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, por Pio XII e, segundo relatos do embaixador em Roma, António de Faria, o pontífice tardou a dar o “sim”.

O líder da Igreja Católica aterrou, debaixo de chuva miudinha, na Base de Monte Real num avião da TAP e fez, de automóvel, o caminho até Fátima. As notícias da época relatam o entusiasmo em torno da figura do Papa.

Passou por Leiria, num automóvel descapotável, acompanhado pelo então bispo de Leira, João Pereira Venâncio.

O reitor do seminário de Leiria, padre Joaquim Gaspar, lembrou, em declarações à Lusa, em 2010, que, em Leiria, o Papa foi “aclamado por uma multidão concentrada em frente ao paço episcopal e no jardim Luís de Camões, onde lhe foi entregue a chave da cidade”.

“Dali, continuou a sua viagem, sempre aplaudido pelas pessoas que se concentravam à beira da estrada. Eu vi-o passar em Leiria, depois peguei no meu carrito e tentei ultrapassar o cortejo, passar-lhe à frente na Loureira, mas era tanta gente que não consegui", acrescentou.

“Estava muita gente e foi uma grande emoção", descreveu o responsável pela paróquia de Aljubarrota, padre Ramiro Portela.

Já em Fátima, o Papa cumpriu o programa previsto, encontrou-se com o presidente Américo Tomás, o chefe do Governo António de Oliveira Salazar. Como peregrino, presidiu à missa, à procissão das velas e fez uma homília que, pelos relatos da altura, falou de paz num país já em guerra, a milhares de quilómetros dali, em África.

“Homens, sede homens. Homens, sede bons, sede cordatos, abri-vos à consideração do bem total do mundo (…) Homens, não penseis em projetos de destruição e de morte, de revolução e de violência; pensai em projetos de conforto comum e de colaboração solidária”, disse o Papa na homilia.

De regresso a Roma, Paulo VI viajou também num avião da TAP, um “Caravelle”, pilotado por um português e batizado com o nome “Diu”, um dos territórios invadidos pela Índia que o Papa visitara anos antes.

O Papa Paulo VI morreu em Castelgandolfo, em 1978, e foi beatificado em 2014 no Vaticano.

João Paulo II, o Papa de Fátima 

O Papa João Paulo II, canonizado em 2014, ficou conhecido pelas muitas viagens que realizou pelo mundo ao encontro dos fiéis e pela sua devoção mariana, mantendo uma ligação especial com Fátima, que visitou três vezes.

Karol Jozef Wojtyla, eleito papa a 16 de outubro de 1978, nasceu em Wadowice (Polónia), a 18 de maio de 1920, viveu a ocupação nazi da Polónia e morreu no Vaticano, a 02 de abril de 2005.

Depois de frequentar o seminário de Cracóvia até à sua ordenação como sacerdote, em 1946, seguiu para Roma, onde se doutorou em teologia e foi ordenado bispo a 28 de setembro de 1958 e, em 1964, arcebispo de Cracóvia.

Foi eleito papa, com o nome de João Paulo II, a 16 de outubro de 1978.

A biografia oficial de João Paulo II, preparada pelo Vaticano para a sua beatificação, destacava o “grave atentado" sofrido pelo papa polaco a 13 de maio de 1981, na Praça de São Pedro, sublinhando que Wojtyla “perdoou ao autor” do ataque.

A visita à Cova da Iria foi de 12 a 15 de maio de 1982 e foi marcada pelo agradecimento à “proteção maternal” de “Nossa Senhora”, que lhe “conservou a vida”.

O papa polaco, Karol Wojtyla, esteve na Cova da Iria para “agradecer à Divina Providência neste lugar que a mãe de Deus parece ter escolhido de modo tão particular”. O papa justificou a sua recuperação por ação de “Nossa Senhora de Fátima”.

Simbolicamente, a bala retirada do abdómen de João Paulo II, disparada por Ali Agca, foi oferecida pelo papa ao santuário e encastrada na coroa de diamantes da imagem que figura na imagem que está Capelinha das Aparições.

“Venho hoje aqui porque exatamente neste mesmo dia do mês, no ano passado, se dava, na Praça de São Pedro, em Roma, o atentado à vida do papa, que misteriosamente coincidia com o aniversário da primeira aparição em Fátima, a 13 de maio de 1917”, disse o papa, que reconheceu nesta coincidência “um chamamento especial” para estar em Fátima.

Nesta visita, registou-se uma nova tentativa de atentado. Desta vez, pelo padre Juan Khron, antigo discípulo espanhol do arcebispo ultraconservador francês Marcel Lefébvre, que atentou contra João Paulo II, acusando-o de trair a Igreja. Mais uma vez, escapou ileso.

Além de visitar Fátima, João Paulo II esteve também a Coimbra, Porto e Vila Viçosa, com honras de Estado, tendo sido recebido pelo então Presidente da República, Ramalho Eanes, no Palácio de Belém.

Em Fátima, ainda num mundo dividido pela Guerra Fria, entre os Estados Unidos e a União Soviética, o Papa pediu “à Senhora” que livre o Mundo “da fome, da guerra, da guerra nuclear” e, aos fiéis, fez um apelo “à penitência e à conversão”.

Nas ruas, segundo o DN, “uma multidão apoteótica seguiu-lhe cada passo” durante toda a visita. Em Vila Viçosa falou aos agricultores e em Lisboa celebrou uma missa, com milhares de pessoas, no Parque Eduardo VII.

Em 1991, está de volta a Fátima, para a segunda visita a Portugal. Além da Cova da Iria, esteve em Lisboa, Açores e Madeira, com uma mensagem eminentemente religiosa.

Mário Soares, o Presidente da República, chamou a atenção do Papa para a situação em Timor-Leste, então ainda a viver sob ocupação militar indonésia, desde 1975. E lembrou que o povo timorense é “vítima de grave violação das normas de direito internacional”.

Na viagem de avião para os Açores, e rompendo o seu silêncio sobre Timor, anotado pelo Público e DN, o Papa confessou que “todos os dias” reza pelos timorenses.

Mais uma vez, é recebido por milhares de pessoas. E com entusiasmo popular.

Os ecos da visita na imprensa foram grandes. “Papa leva Portugal no coração”, titulava o Correio da Manhã. O Público escolheu o título “João Paulo II apela à Europa Cristã” e o DN “Soares despede-se do Papa e recorda drama de Timor”. “Fervor”, escrevia, em letras garrafais, “A Capital”.

E numa altura de mudanças na Europa de Leste e “perestroika” na União Soviética, o Papa manifestou o desejo de construir “um mundo com rosto humano, uma sociedade fundada sobre o respeito de Deus e do próximo”.

De gestos simbólicos, some-se mais um: no dia em que João Paulo II chegava a Portugal, os jornais Público e Expresso e a rádio TSF noticiaram que as FP-25 de Abril entregaram material de guerra, para reivindicar uma amnistia ampla.

Em 2000 deu-se a terceira e derradeira visita de João Paulo II no seu pontifício. Estava doente e prestes a fazer 80 anos.

Com este regresso, foi grande a especulação sobre se iria ser revelado o terceiro segredo de Fátima, numa visita em que – isso era confirmado – Jacinta e Francisco foram beatificados. Lúcia sorriu, quando foi aclamada pela multidão.

A terceira parte do segredo de Fátima acabou por ofuscar a beatificação e foi anunciado pelo Cardeal Sodano, secretário de Estado do Vaticano, que antecipou a interpretação dada à “mensagem de Nossa Senhora”.

Nas palavras proferidas pelo cardeal Sodano, a proteção dada ao Papa “parece ter a ver também com a chamada terceira parte do segredo de Fátima”, referindo claramente o atentado sofrido por João Paulo II a 13 de maio de 1981 e “a mão materna” que permitiu que o papa agonizante se detivesse no limiar da morte.

Segundo o cardeal, foi uma visão profética aquela que as três crianças terão tido, a 13 de julho de 1917: um bispo de branco que reza por todos os crentes, caminhando, com dificuldade, para uma cruz rodeada de cadáveres. O bispo de branco cai depois por terra, sob tiros de uma arma de fogo.

João Paulo II morreu em Roma a 02 de abril de 2005 e foi beatificado a 01 de maio de 2011 pelo seu sucessor, Bento XVI.

Bento XVI, de teólogo a Papa 

Joseph Ratzinger tornou-se no primeiro alemão a chefiar a Igreja Católica em muitos séculos, a 19 de abril de 2005, para suceder a João Paulo II. E foi também o primeiro Papa em sete séculos a resignar.

Decano do conselho cardinalício, antes da morte de João Paulo II, Ratzinger dirigia a poderosa Congregação para a Doutrina da Fé, herdeira da Inquisição, e foi considerado um representante da linha mais dogmática da Igreja.

Na Alemanha, por exemplo, o seu nome aparece ligado ao “braço de ferro” que manteve com o cardeal Karl Lehmann, presidente da Conferência Episcopal alemã, em torno da questão do aborto.

Ratzinger nasceu em Marktl (Baviera), na diocese de Passau, numa família tradicional de camponeses, e participou como soldado do exército alemão nos últimos meses da Segunda Grande Guerra.

A partir de 1946, e durante cinco anos, estudou filosofia e teologia na universidade de Munique e, em 1951, foi ordenado sacerdote.

A dois meses de festejar oito anos de pontificado, Bento XVI renunciou ao cargo, marcado por uma postura mais dogmática da Igreja e iniciativas como a beatificação do seu antecessor, João Paulo II, em 2013.

Esteve em Portugal em 2010, e a sua ligação a Fátima não se fica pela visita.

Antes de ser papa, Ratzinger, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, fez uma interpretação ao chamado terceiro segredo de Fátima.

Para Ratzinger, os três segredos de Fátima significam, no seu conjunto, uma “exortação à oração como caminho para a salvação” e “o apelo à penitência e à conversão”.

Foi a primeira e única visita de Bento XVI a Fátima. O papa rezou uma missa na Praça do Comércio, em Lisboa, que juntou cerca de 500 mil pessoas, antes de rumar a Fátima.

O cardeal Joseph Ratzinger presidiu também à celebração de uma missa no Porto, na Praça da Liberdade.

Logo no voo de Roma para Lisboa, Bento XVI tinha a mensagem preparada e era para o interior da Igreja: “a maior perseguição à Igreja” não vem de “inimigos de fora, mas nasce do pecado da Igreja”.

Comentando os escândalos de pedofilia que têm afetado a imagem da hierarquia católica, o papa disse: “A Igreja tem uma profunda necessidade de reaprender a penitência, aceitar a purificação e implorar perdão”, disse, referindo-se também à "necessidade de justiça" neste processo.

Bento XVI renunciou ao pontificado a 28 de fevereiro de 2013.

Francisco e o Santuário de Fátima

O Papa Francisco é conhecido por ser devoto de Maria, não tanto como João Paulo II, mas recebeu uma imagem de Nossa Senhora de Fátima quando era bispo em Buenos Aires, em 1992.

Pouco depois de ser escolhido papa, a 17 de março de 2013, o bispo argentino sublinhou a “misericórdia” de Deus e lembrou a passagem, 20 anos antes, da imagem de Fátima por Buenos Aires, quando ainda era bispo.

“Lembro-me que tinha sido feito bispo há pouco, quando, no ano de 1992, chegou a Buenos Aires a imagem de Nossa Senhora de Fátima e organizou-se uma grande missa para os doentes”, recordou, na primeira oração do Angelus, a 17 de março de 2013.

Nesse dia, estava a fazer confissões e recordou a conversa com uma mulher, já idosa, que lhe disse que “Deus nunca se cansa de nos perdoar, nunca!” Daí, o apelo à “peregrinação espiritual que é a fé” e “seguir a Jesus”.

Na oração que fez, disse: “Querida Mãe: Benvinda a casa! Ensina-nos que Jesus está vivo, que o sintamos vivo no meio de nós. Ensina-nos a linguagem da ternura. Benvinda a casa, Mãe! Olha para a minha família, sabeis do que necessita.”

Nos anos que se seguiram, e segundo a agência Ecclesia, Francisco recordou diversas vezes a memória das “aparições” de Fátima, em 1917.

Uma das mais longas evocações foi a 12 de outubro de 2013, no dia em que a imagem de Nossa Senhora de Fátima, que habitualmente se encontra na capelinha das Aparições, na Cova da Iria, foi recebida pelo papa na entrada da Basílica de S. Pedro.

Francisco recolheu-se em oração, após ouvir-se o hino 'Ave Maria', como acontece no Santuário de Fátima, depositando aos pés da imagem um terço como oferta pessoal, como noticiou a agência Ecclesia.

E fez uma oração em nome da “Bem-aventurada virgem de Fátima”, como sublinhou o pedido de oração a 14 de maio de 2014.

Dois anos depois, a 11 de maio de 2016, dia de audiência geral no Vaticano e data das “aparições”, Francisco pediu aos fiéis para “multiplicar os gestos diários de veneração e imitação da Mãe de Deus” e recorda o Papa que esteve por três vezes na Cova da Iria para pedir que se reze pela “paz no Mundo”.

“A exemplo de São João Paulo II, grande devoto de Nossa Senhora de Fátima, coloquemo-nos atentamente à escuta da Mãe de Deus e imploremos a paz para o mundo”, afirmou.

Já este ano, numa mensagem para o Dia Mundial da Juventude, em março, o Papa convidou os jovens a “recordar dois aniversários importantes” em 2017: “Os 300 anos do achado da imagem de Nossa Senhora Aparecida, no Brasil, e o centenário das aparições de Fátima, em Portugal, onde, com a ajuda de Deus, irei em peregrinação no próximo mês de maio.”

E ainda há pouco mais de um mês, numa audiência geral, na Praça de São Pedro, a 15 de março, um grupo de fiéis chineses, com a bandeira vermelha da China, aproximou-se de Francisco para pedir que abençoasse uma imagem da Nossa Senhora de Fátima.

O Papa visita Fátima nos próximos dias 12 e 13 de maio para assinalar o centenário das “aparições” de 1917 e canonizar os pastorinhos Jacinta e Francisco.

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