O que fazem os seus pais?

Os meus pais são oriundos da mesma aldeia, no Ribatejo, migrantes rurais para Lisboa. A minha mãe aos 17 anos, para ser criada de servir. É a pessoa que politicamente mais me influenciou, porque era já na altura, à sua escala, uma fervorosa opositora da ditadura. Os patrões diziam-lhe: “Lucília, se tivesse educação já estava presa”. O que a salvava era ter só a terceira classe - ainda assim um dos irmãos esteve preso várias vezes, um tio que esteve agora em Peniche, nas cerimónias de inauguração do Museu da Resistência. O meu pai veio para Lisboa com um curso de torneiro mecânico. Depois foi motorista e começou a trabalhar assim no Crédito Predial Português, onde foi de caixa a prospector bancário (banco itinerante de província). A minha mãe tem 88 anos, o meu pai já não está vivo.

Quem são os seus amigos?

Tenho amigos da aldeia e tenho amigos do mundo. Fiz licenciatura e mestrado em Portugal e doutoramento em França, e depois disso já estive em universidades em quatro ou cinco países na Europa e na América. Tenho amigos destas duas fases da vida.

Quem foi o pior primeiro-ministro de todos os tempos?

Em Portugal não era um primeiro-ministro, era um presidente do Conselho: Salazar. É um entorse na história política de Portugal.

Qual o seu maior medo?

[Pensa] A perda de memória. Creio que estamos a viver um período de acentuada perda de memória e isso é grave, porque sabemos aquilo de que este continente e este mundo são capazes em determinadas fases. E penso que nos estamos a aproximar desse abismo.

Qual o seu maior defeito?

[Ri] O excesso de memória. Tenho uma boa memória, excepto a facial, o que me faz passar enormes vergonhas.

Quem é a pessoa que mais admira?

A nível privado, e pode ser uma resposta pirosa, a minha mãe. Do ponto de vista público, uma pessoa que se admirava lá em casa desde que eu era pequeno: José Manuel Tengarrinha.

A maior extravagância que alguma vez fez?

A minha maior extravagância são os livros. Não tenho lugar para pôr os livros, muitos estão enfiados em caixas lá na minha aldeia.

O seu filme de eleição?

Não sou enorme cinéfilo. Mas provavelmente os dois filmes de que mais gosto são “Fahrenheit 451”, de François Truffaut, e “História Imortal”, de Orson Welles.

A sua melhor qualidade?

É uma pergunta tão difícil… Leva-nos à imodéstia. O otimismo (que esconde uma angústia bastante profunda: se não puxarmos as pessoas para o otimismo, as piores tragédia acontecem).

Que traço de perfil tem de ter uma pessoa para trabalhar consigo?

Sentido de humor.

Uma virtude que seja sobrevalorizada?

A sisudez, no sentido da máscara séria que algumas pessoas têm.

Mente?

[Riso] Mentiria se dissesse que não.

Qual é para si o pior pecado?

A crueldade.

Quem não merece uma segunda oportunidade?

Os desonestos.

O que o faz perder a cabeça?

Talvez a falta de clareza estudada.

Se pudesse mudar alguma coisa na Europa imediatamente, o que seria?

Acabava com o circo móvel do Parlamento andar entre Bruxelas e Estrasburgo e fazia de Estrasburgo uma grande universidade europeia, onde pudessem estudar com bolsas estudantes de todo o mundo.

O que o faz feliz?

[Pensa tanto que brinco: ganhar as europeias] Vou contar-lhe uma coisa: no dia a seguir às europeias de 2009, quando fui inesperadamente eleito, fui aos restauradores comprar um jornal internacional. À noite fui à RTP, a um “Prós e Contras” de análise às eleições, e a primeira coisa que a Fátima Campos Ferreira diz é que me tinha visto nesse dia na rua e que se perguntou: “O que faz aqui aquele homem que acabou de ganhar as eleições e está com o ar mais triste do mundo?”. Não lhe disse todas as razões, porque boa parte eram pessoais, mas esse primeiro mandato foi um grande problema na minha vida. A felicidade não passa por aí. Diziam os antigos gregos que a felicidade é a liberdade e a liberdade é a coragem.

Qual a pior profissão do mundo?

Penso que é desempregado. Já perdi o emprego: a universidade privada onde eu dava aulas a recibos verdes há dois anos - supostamente no ano seguinte entraria para o quadro - chamou uma série de professores no verão, mês de Agosto, ao gabinete do director.  E enganaram-se no meu nome - em vez de Rui Tavares, chamaram-me Rui Travassos, ou coisa assim, e eu respondi: “Depende, é para quê?” Bom, era para sermos despedidos, ambos. Quando estava na praça onde ficava o instituto pensei: “Estou literalmente no olho da rua. E agora?” E depois chegar a casa e ter de dizer que estou no olho da rua…

Se fosse uma personagem de ficção, quem seria?

O Barão Trepador, de Italo Calvino. O rapaz que em criança trepava para cima das árvores e participou em tudo do século XVIII, o que mais gosto e o que estudo, e foi feliz e livre até ao fim da vida.

Como gostava de ser lembrado?

Como um aldeão do mundo. A certa altura ouvi dizer que alguém usava isso contra mim, uma espécie de preconceito social. Em Portugal são as elites que são provincianas e as massas são cosmopolitas.

O melhor presidente de sempre?

Jorge Sampaio, por quem fiz campanha.

Se fosse um animal, que animal seria?

Um gato. Tenho três gatos em casa - ou, aliás, há três gatos que têm a casa connosco: o Camões, o Leôncio e o Emílio. São os três da Arrifana e por isso chamo-lhes os arrifelinos.


Esta série de perguntas rápidas faz parte da entrevista ao cabeça de lista do LIVRE às Eleições Europeias, disponível aqui. Rui Tavares não foi o único, leia todas as conversas com os candidatos no especial Europa 2019 do SAPO24.

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