Fittipaldi nasceu numa família católica napolitana em 1974. Escreve para o ‘L’Espresso’ e para o ‘Corriere della Sera’, dois dos mais importantes jornais italianos. Batizou-se, por opção, quando ainda era criança. Depois, perdeu a fé. Tornou-se agnóstico e acabou, no final de 2016, sentado no banco dos réus do Tribunal do Vaticano.

A investigação para o livro Avareza, que reúne “os documentos que expõem a riqueza, os escândalos e os segredos da igreja do papa Francisco”, levou-o à justiça. Acusavam-no de ter publicado documentos reservados à Santa Sé. Acabou ilibado.

Lança agora Luxúria. Ao contrário do outro, este livro não anda à procura de quem trai por trinta moedas de prata. Antes, olha para a pedofilia no seio da Igreja Católica, para os padres, bispos e papa que encobrem ou auxiliam padres denunciados por abusos sexuais.

Para o futuro, revela, não estão mais livros sobre os pecados capitais. Antes, quer investigar as verdadeiras razões que levaram à saída de Bento XVI, “uma demissão histórica”, diz. Tem alguma teoria? “Só tenho teorias, faltam os factos. Sem os factos, não te as posso contar”, explica o jornalista.

Em entrevista ao SAPO24, em Lisboa, diz que é quase impossível não existirem casos de pedofilia nas igrejas portuguesas. Porém, um “muro de silêncio”, uma cultura conivente e uns media rendidos ao poder nada fazem para investigar e denunciar.

Porquê investigar a gigantesca Igreja Católica Romana?

A Igreja Católica é um poder como muitos outros, mas não detém só um poder temporal. Em Itália, como em Portugal e nos outros países latinos, detém um poder cultural enorme.

Para além disso, a Igreja Católica em Itália, por exemplo, é muito rica, quase todo o dinheiro que chega à Igreja Católica do Vaticano é o dinheiro dos católicos e fiéis do mundo inteiro, por isso, é justo que os fiéis saibam como é que este dinheiro é gasto.

Os jornalistas de investigação ocupam-se daquilo que o poder não conta - o poder político, o poder económico, o poder das multinacionais e, neste caso, o poder do Vaticano.

Moro em Roma, seria absurdo ocupar-me apenas dos escândalos políticos e económicos do meu país e não me ocupar também do poder mais forte que há em Itália - o do Vaticano.

Quais são as questões mais graves em Itália: as políticas ou as religiosas?

São duas completamente distintas, apesar de por vezes se entrelaçarem, porque a Igreja tenta gastar o seu problema cultural com os nossos políticos, por isso faz leis que podem ter a ver com os casais homossexuais, leis sobre a família, leis sobre a procriação assistida; faz pressões muito fortes sobre o parlamento para que a modernidade não ultrapasse a sua opinião sobre as leis.

Como é claro, o maior problema em Itália é a corrupção dos políticos, a corrupção dos políticos em Itália tem níveis que vocês em Portugal nem conseguem imaginar - apesar de ter visto que nestes dias houve este escândalo com José Sócrates.

Porém, o que acontece em Itália todos os dias é muito mais grave, o que é estranho é que em Avareza [o livro que o levou à barra dos tribunais do Vaticano], por exemplo, descobri que dinâmicas produtivas muito parecidas se desenvolvem também no interior da Santa Sé e isto é grave.

créditos: Pedro Soares Botelho | MadreMedia

A Igreja Católica ainda tem muito poder?

Sim, tem muito poder, em Itália seguramente, na América do Sul, em Espanha, talvez menos em Portugal, mas tem um poder cultural ainda muito forte.

Nos países anglo-saxónicos não é assim. Essa é uma das razões por que nesses países — como os Estados Unidos da América, na Irlanda, na Austrália — eclodiram escândalos de pedofilia muito graves, que atingiram os vértices das hierarquias eclesiásticas. E porque as vítimas tiveram de contar e o poder judiciário teve força para atacar, como é justo que seja, a criminalidade no seio da Igreja.

Isto não acontece nos países latinos. Há uma cultura de silêncio, que tem a ver sobretudo com os crimes de pedofilia. É difícil quebrar esse muro de silêncio.

É o jornalista quem decide de que assuntos se ocupar, não é o poder

Como é que chegou até estas histórias - ou como é que elas chegaram até si?

Muitos pensam que os jornalistas de investigação estão sentados no seu escritório à espera dos documentos e que de repente os documentos chegam à mesa de alguém.

Não é assim. É muito difícil conseguir a confiança das fontes, podem ser precisos meses ou anos para convencer uma fonte a dar documentos reservados, documentos tão delicados.

A primeira coisa que me move, que move o meu trabalho, é a curiosidade. Tentar perceber quais são as mentiras da propaganda do poder e ver se as promessas que fazem à opinião pública ou aos fiéis, quando estamos a falar em poder religioso, são, na realidade, respeitadas ou não.

Então, a curiosidade é a primeira coisa que impulsiona o nosso trabalho. É depois que começa o complicado trabalho de investigação, que está ligado a fontes abertas, ou seja, uma ligação a fontes que todos podemos verificar.

Informações para poder perceber as propriedades de uma pessoa.

Neste livro, o mais importante foi ter uma relação com algumas fontes no seio do Vaticano, que me deram documentos reservados e a relação com as famílias das vítimas, das crianças que foram violadas, que me permitiram ter documentos que não era possível pensar em publicar.

Tudo o que diz aqui no livro é verdade?

[Risos] Claro! Se não acabaria preso, arriscaria processos de milhões de euros. Tudo o que escrevo é verdade.

Obviamente os jornalistas podem cometer erros, mas nenhum facto, nem do Luxúria, nem do que escrevi no Avareza, foi contestado.

Fui atacado por outras razões, razões políticas; perguntam-me por que razão fiz livros deste género. Ora, não se faz uma pergunta destas a um jornalista; é o jornalista quem decide de que assuntos se ocupar, não é o poder.

créditos: Pedro Soares Botelho | MadreMedia

Pergunto isto porque, é palavra contra palavra. Como é que o jornalista - e a justiça - verifica que isto é verdade?

Esse é o tema essencial dos abusos sexuais. Ninguém viola uma criança à frente de uma centena de pessoas; ninguém se vai fotografar enquanto viola uma criança, a não ser que seja completamente louco.

Esta é uma das razões por que é preciso, sobretudo aos juízes civis, levar as palavras da criança a sério e analisar se as palavras são verdadeiras ou não.

Isto não pode ser feito por mim, não pode ser o jornalista. O que é preciso é que os jornalistas, quando contam estas histórias, se baseiem num trabalho judicial importante, por isso aquilo que fiz foi revelar uma série de investigações secretas, que aconteceram no interior do Vaticano, em particular na Congregação para a Doutrina da Fé, e em tribunais, nos países de meio mundo.

Por isso, utilizei aqueles papéis, cartas que levaram a uma série de investigações e que tiveram uma conclusão. É nessas sentenças que me baseio. Porque eu não tenho a possibilidade, como é óbvio, de emitir sentenças, a não ser que sejam sentenças morais, só para me enganar.

Como é claro, há uma documentação reservada onde estão cartas escritas por alguns cardeais e que mostram como estes cardeais tentaram comprar o silêncio das vítimas, como tentaram ajudar, a nível económico, os padres pedófilos que saíam da prisão, como acompanharam, como é o caso de George Pell, os padres pedófilos em tribunal, para lhes mostrarem o seu apoio.

Não estamos a falar de crimes, mas de comportamentos e oportunidades muito graves para qualquer pessoa e em particular para um padre.

Pouquíssimas pessoas me deram informações por causa de um sentimento de justiça universal.

Será que não há interesses a mover essas fontes?

É certo que têm, com certeza. As fontes do nosso trabalho têm sempre um interesse pessoal.

Conheci na minha curta vida, porque só faço isto há dez anos, pouquíssimas pessoas que me deram informações por causa de um sentimento de justiça universal.

As fontes deram-me estes documentos por vingança, porque querem destruir um grupo de poder para poderem substituí-lo por um grupo de poder próprio. Porque acham que algumas pessoas danificam um determinado sistema, porque são uns incapazes. Mesmo neste sentido, há o juízo individual destas pessoas.

Os jornalistas têm de perceber estas relações, mas não se devem interessar muito por elas. O jornalista tem de perceber se aquela fonte é um interlocutor de confiança, se a informação que lhe está a dar interessa à opinião pública e se aquela notícia é verdadeira.

Se isto se verificar, o jornalista tem o dever de publicar aquela informação; não tem apenas o direito de o fazer, mas o dever; porque se a esconder, arrisca tornar-se ele próprio num cúmplice.

Obviamente, para evitar aquilo que estavas a dizer, ser usado por alguém, o jornalista tem de procurar ter muitas fontes, com ideias distintas entre elas. No Luxúria falei com pessoas próximas [do papa] Francisco, com pessoas que, pelo contrário, são contrárias ao pontificado de Francisco. Com pessoas de muitos países diferentes e, como é claro, com um número muito elevado de vítimas.

Conto várias histórias, sempre com o benefício da dúvida. Isto é, nunca faço comentário ou dou opiniões, deixo os factos falar. É o leitor quem depois faz uma ideia daquilo que escrevo.

Estamos a falar da parte criminosa da Igreja. A parte sã são os restantes 90%.

Entremos, agora, no livro. Como é que uma instituição tão omnipotente, omnipresente e omnisciente permite que haja casos de pedofilia no seu interior?

Porque é uma organização feita de homens - e os homens pecam.

Eu vejo também o lado humano da Igreja. Há pessoas que podem errar, assim como acontece no mundo dos laicos - a pedofilia também tem a ver com as escolas, as famílias; não é só na Igreja.

É claro: a Igreja faz-nos impressão porque são os sacerdotes, os padres, as pessoas a quem entregamos os nossos filhos, achando que estão em mãos seguras. O que é estranho é que mesmo no seio da Igreja Católica haja uma falta de transparência perante este escândalo, que, acho, acaba por danificar a própria Igreja.

Porque, se houvesse uma maior transparência, contando imediatamente o que acontece e pedir perdão, através da punição a sério dos pedófilos e não através através do silêncio, seria muito mais difícil a eventualidade de novos escândalos eclodirem.

Pelo contrário, omitir tudo faz com que seja inevitável que de vez em quando ecludam escândalos que penalizam a parte melhor da Igreja.

Neste livro estamos a falar apenas da parte criminosa da Igreja. A parte sã são os restantes 90%. O que muitos me perguntam é porque é que não falo desta parte sã, falo só da parte negativa da Igreja.

Sou um jornalista de investigação. A Igreja goza, em Itália, em Portugal, em Espanha, de muito boa imprensa. Não precisa de outros jornalistas a contar as coisas que funcionam. Pelo contrário, é preciso ter jornalistas que contem as coisas que não funcionam, para tentar melhorá-las.

Os media estão bem a fazer parte desta cultura do silêncio

Porque é que os governos nacionais não conseguem - ou não querem - agir contra a Igreja?

Estás a falar dos governos latinos, presumo? Na América, na Austrália, na Irlanda, houve comissões governativas para agir. Isto não significa que os padres anglo-saxónicos sejam piores que os padres latinos. Mesmo do ponto de vista estatístico essa ideia seria ilógica.

O problema é que os governos latinos não têm a força e a coragem de fazer uma comissão portuguesa ou italiana sobre os crimes dos padres pedófilos. Aconteceria uma revolução, seria demasiado escandaloso.

Isto é também uma responsabilidade da opinião pública destes países, bem como dos media dos nossos países, que estão bem a fazer parte desta cultura do silêncio em vez de levantar o escândalo e mostrá-lo a toda a gente.

Para mim, esta é uma atitude cega que um dia ou outro vai mudar, porque há uma cada vez maior necessidade de as famílias e as vítimas obterem justiça.

créditos: Pedro Soares Botelho | MadreMedia

De todas as histórias que aqui conta, qual julga ser a mais importante - ou mais escandalosa?

Provavelmente a mais atual é a história que tem a ver com George Pell, que é o braço direito de Francisco, e que atualmente está ele próprio a ser acusado de abusos sexuais na Austrália e tem de ir a julgamento.

Estou à espera de que Pell seja considerado inocente em julgamento, são acusações muito antigas e difíceis de provar perante um juiz, porém, Pell, como conto no livro, é uma pessoa que no passado, quando era bispo de Sidney, ajudou de forma sistemática os padres pedófilos; é uma pessoa que tentou comprar o silêncio das vítimas, gastando pouco dinheiro, 30 mil euros e pouco mais; uma pessoa que acompanhou os carrascos.

É uma pessoa que de forma incrível teve um poder muito grande no Vaticano. Apesar de todas estas críticas, estas evidências, estas provas do seu silêncio, que durou décadas, Pell foi promovido pelo papa Francisco a chefe do secretariado da Economia e o seu nome foi posto no grupo dos cardeais mais poderosos da Igreja Católica, que aconselham o papa Francisco na gestão da Igreja universal.

Agora, Pell foi suspenso, mas já há três anos que eu e outros dois jornalistas vimos evidenciando todas as coisas negativas de Pell, através de documentos e provas que depois publicamos. Pelo contrário, o papa Francisco sempre defendeu o seu fidelíssimo até ao ponto em que teve de o deixar, porque chegou a ser acusado de pedofilia.

Isto demonstra a dificuldade do pontificado do Vaticano de mudar a mentalidade, de atitude em relação a este crime tão grave.

Ao proteger George Pell, o papa Francisco não acaba também por ser corresponsável?

O papa Francisco tem a responsabilidade de ter feito pouco ou nada em relação à batalha contra a pedofilia. Utilizou palavras muito importantes ao dizer que a pedofilia é como as missas negras, é como o demónio, mas é normal que um papa diga coisas deste tipo, imagina se dissesse o contrário...

O importante, pelo contrário, são os factos: é ter promovido demasiados cardeais, não apenas o Pell, outro que se chama [Óscar Rodríguez] Maradiaga, outro é [Francisco Javier] Errázuriz, que no passado ajudaram padres pedófilos; Francisco protegeu [Philippe] Barbarin, que é outro bispo muito importante e seu amigo pessoal, que agora está a ser julgado em França, por ter também protegido um padre pedófilo.

Hoje mesmo, enquanto tu e eu estamos aqui a falar, Francisco negou a extradição de um padre pedófilo que queriam prender no Canadá, chegou hoje a notícia de que, pelo contrário, o papa Francisco disse que vai ser processado no Vaticano e não no Canadá.

Nomeou há poucas semanas como chefe da Congregação da Doutrina da Fé uma pessoa que se chama [Luis Francisco] Ladaria, o bispo Ladaria, que é alguém que enviou cartas aos bispos a dizer que tinha mandado alguns padres pedófilos para fora da Igreja, mas explicava que estas informações não tinham de ser entregues a ninguém e o que aconteceu foi que depois estes padres pedófilos deixaram de ser padres, mas tornaram-se treinadores de equipas de futebol de crianças e o que aconteceu foi que violaram metade da equipa.

Tudo isto põe o papa Francisco numa condição de responsabilidade objetiva.

A pedofilia é demasiado tolerada no seio da Igreja

Ao ler o livro fiquei com a ideia de que a Igreja Católica se esforça mais para perseguir os padres homossexuais que para perseguir os padres pedófilos. Será assim?

Não, não é assim. A homossexualidade na Igreja é muito difundida, mas é também tolerada. É uma hipocrisia, porque a doutrina católica não permite um comportamento sexual ativo, nem dos heterossexuais, nem dos homossexuais.

A verdade é que a pedofilia é demasiado tolerada no seio da Igreja e muito frequentemente não conhecemos, não sabemos como acabam os julgamentos canónicos que se realizam no interior do Vaticano; muitas vezes estes pedófilos acabam apenas por ir para um convento, condenados a rezar para o resto da vida; outras vezes são mandados embora da Igreja, mas estas informações não são entregues à polícia dos países onde se encontram.

Sobre a questão da homossexualidade, o último capítulo do livro, "O Lobby Gay", sublinho não apenas isto que te estava a dizer, ou seja, a hipocrisia entre o que a doutrina católica ensina e os princípios da Igreja, que, pelo contrário, se comporta de uma forma muito distinta, muito diferente.

O que é facto é que houve e ainda há lobbies gay no seio do Vaticano - muito poderosos. Não sou eu quem o diz, disseram-no o papa Ratzinger [Bento XVI] e também o papa Francisco - lobbies que tanto destroem carreiras eclesiásticas, como podem fazer carreiras muito importantes a pessoas que têm a mesma orientação sexual.

Isto ainda acontece em Roma e é uma guerra muito difícil, que tanto o papa Ratzinger, como o papa Francisco tentaram combater.

créditos: Pedro Soares Botelho | MadreMedia

Na sua opinião, se a Igreja permitisse abertamente que os clérigos casassem, ter família, será que isso permitiria reduzir de alguma forma os casos de pedofilia?

Não sei. Eu acho que a pedofilia é uma doença. Para isso acontecer, os padres teriam de sentir atração sexual por pessoas da sua mesma idade. Não creio que alguma coisa mudasse.

Para além disso, não sou um teólogo, não sou um psicólogo, portanto, acho que é errado dar uma resposta a uma pergunta tão complicada. Tenho muito respeito pela doutrina católica e, digamos, o início de uma nova era em que os padres se casam seria revolucionário e, francamente, não é plausível nos tempos de hoje.

Seguramente, eu - mas isto é uma coisa que digo como agnóstico - acho que não é natural, é contranatura, os padres não terem nenhum tipo de relação sexual. Não teria nenhum problema, mesmo hoje em dia, se os padres tivessem relações homossexuais ou heterossexuais entre adultos conscientes.

Aquilo que é inaceitável é quando as intenções sexuais se concentram sobre crianças, meninas e meninos, através da violência, que transformam paixões sexuais em crimes horríveis.

Isto tem de ser parado, através de uma maior atenção e de uma maior transparência tanto da Igreja como, nos nossos países, da opinião pública e dos media. Para salvar as crianças, não pode haver nenhum tipo de piedade, nem por quem comete estes crimes, nem por quem os omite ou encobre.

É uma bela história dizer que em Roma são todos maus, exceto o papa Francisco

Objetivamente, o que é que o Papa Francisco já fez para punir e prevenir a pedofilia na Igreja?

Bem, ele criou uma comissão anti-pedofilia, a Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores, assim lhe chamou. Todavia, esta é uma comissão que não tem muito poder, não tem poder de investigação, não tem sequer as informações que a Congregação para a Doutrina da Fé lhe teria de dar, porque a Cúria Romana não entrega nenhuma informação sensível a esta comissão.

Tanto assim é que desta comissão se foram embora, no ano passado, os dois únicos membros que foram vítimas de padres pedófilos. Foram-se embora muito zangados, dizendo que a comissão era apenas uma operação de marketing, que servia para o Vaticano se limpar perante a imprensa de todo o mundo.

O papa Francisco mandou embora alguns bispos, quatro no total, que se considerava terem ajudado, de algum modo, padres pedófilos, que não eram amigos de Francisco. Pelo contrário, os amigos de Bergoglio [Jorge Mario Bergoglio, ou papa Francisco] na mesma posição, como te estava a dizer antes, foram promovidos.

Não há novas leis em relação às que já tinham sido feitas antes de Francisco. O tribunal dos bispos que encobrem estes crimes, que tinha sido anunciado em 2015, nunca foi realmente instituído.

Portanto, não te posso dizer que o papa Francisco tenha sido revolucionário deste ponto de vista.

Será que ele pode mudar alguma coisa? Será que quer? Será que alguém o não deixa?

É demasiado fácil dizer em todas as coisas que há alguém que não permite. É uma bela história dizer que em Roma são todos maus, exceto o papa Francisco. Não é assim.

Seguramente, a cúria de Roma não adora as reformas, não adora tornar-se mais transparente como o resto do mundo está a pedir. Por isso, há uma oposição em relação ao tema da pedofilia.

A questão é tão delicada que o papa Francisco se o quisesse realmente tinha de se impor com mais força. Não acho que seja uma prioridade para ele. As suas prioridades são pastorais; prioridades que têm a ver com a abertura às outras religiões. Neste sentido, tem uma linguagem e um ativismo político realmente revolucionários e é a razão por que todos o amamos.

Pelo contrário, a reforma do governo da Santa Sé, em relação às questões económicas, em relação aos escândalos de pedofilia, a revolução simplesmente não se realizou, porque nada até agora mudou.

créditos: Pedro Soares Botelho | MadreMedia

Nestas questões da sexualidade, existe alguma diferença visível entre os pontificados de Ratzinger e Bergoglio?

O papa Ratzinger fez reformas mais incisivas e relevantes: mandou embora da Igreja centenas de padres; mudou as leis do Vaticano, por isso a pedofilia é agora um crime penal no Vaticano, enquanto antes era só um crime contra a religião.

O papa Ratzinger alargou os tempos de prescrição do crime, duplicando-os de cinco para dez anos após o crime. Estas são coisas pequenas, porém, significativas.

O papa Francisco, pelo contrário, com a exclusão do que te disse antes, não fez praticamente nada.

O pontificado de Ratzinger é visto como um papado mais fechado, mais conservador. Será que ele deste ponto de vista foi mais aberto que Bergoglio?

Sim, concordo contigo. O papa Ratzinger teve uma péssima comunicação, uma péssima imprensa.

É certo que ele do ponto de vista doutrinário era um conservador - e neste ponto de vista não gostava dele, o discurso de Ratzinger era muito perigoso -, porém, foi muito criticado pela imprensa do mundo inteiro, acho eu, sobretudo porque não era um líder carismático, não tinha as capacidades dialéticas que o papa Francisco tem - e deste ponto de vista é realmente extraordinário, ainda mais que João Paulo II, que já era um líder carismático.

Porém, isto não deve fazer os jornalistas baixar a guarda sobre os factos. Temos de analisar os factos e tentar perceber, para além da propaganda política. E isto não é só no caso do poder eclesiástico, mas também perante os poderosos e políticos muito capazes do ponto de vista mediático.

Temos sempre de ver se para além das palavras há factos adequados. É este o nosso trabalho. O problema é que muitas vezes somos enganados pela simpatia das pessoas, ou às vezes pelo medo, pelo de temor de enfrentar estes poderes grandes que nos podem destruir.

A autocensura é uma das grandes doenças do jornalismo de hoje.

É a justiça terrena - não a divina - que tem de julgar crimes tão graves

Tivemos, em Portugal, a investigação à Casa Pia, que encontrou pedófilos entre políticos, estrelas de televisão, médicos, diplomatas. Não há nada ou quase nada sobre padres pedófilos. As igrejas portuguesas são mais seguras ou, antes, mais fechadas?

Do ponto de vista estatístico, é quase impossível pensar que os países latinos sejam imunes à pedofilia na Igreja Católica. Acho que - e não sou eu quem o diz, foi Scicluna, que foi um bispo, que foi durante muitos anos magistrado nos julgamentos contra os padres pedófilos na Congregação para a Doutrina da Fé - que Portugal, Espanha, Itália, Brasil são países onde há uma cultura do silêncio que tem a ver com todos: a Igreja, as famílias, que são muito católicas e muitas vezes acreditam mais no padre do que na criança que o está a denunciar, tem a ver também com os jornais, que não ousam atacar a Igreja Católica, mesmo que suspeitem de qualquer coisa.

Espero que um dia esta cultura do silêncio seja derrubada por uma cultura da verdade, de para que não apenas as vítimas do passado tenham justiça, mas também para que se protejam as crianças do futuro.

Se fosse papa por um dia, o que é que fazia?

[Risos] Faria logo uma de duas coisas: primeiro, entregaria todas as informações sobre os processos secretos e sobre todas as acusações de padres pedófilos à ONU, que os está a pedir há muitos anos e o Vaticano nunca entregou.

Depois, publicaria os nomes de todos os bispos e padres que têm informações sobre os padres pedófilos, não os denunciava ao Vaticano, mas às autoridades civis dos países em que vivem, porque porque são as autoridades civis e a justiça terrena - não a divina - que têm de julgar crimes tão graves.


Na sequência desta entrevista, ouvida pelo SAPO24, fonte da Nunciatura Apostólica em Lisboa, a embaixada da Santa Sé em Portugal, esclarece que a Igreja está a “fazer o humanamente possível” para travar os casos de pedofilia e reforça a política de “tolerância zero”.

Quanto à acusação de que a Santa Sé não denuncia estes casos à justiça civil, a mesma fonte explica que a primeira preocupação é acompanhar as vítimas e não a denúncia aos tribunais civis. Os bispos que tenham conhecimento de casos de pedofilia estão instruídos para os denunciar aos órgãos eclesiásticos, que depois agem conforme for decidido.

O objetivo da reserva dos processos é salvaguardar as identidades, quer das vítimas, quer dos alegados agressores, enquanto não estão esclarecidas todas as instâncias das denúncias. Sistema que encontra espelho no direito civil, na figura do segredo de justiça, por exemplo.

A mesma fonte admite que, na Igreja global, houve e talvez ainda haja “casos de padres que possam ter cometido atos ilícitos”. Todavia, assegura não ter conhecimento de quaisquer casos de pedofilia na Igreja portuguesa, pelo menos desde que o atual núncio apostólico, o italiano Rino Passigato, assumiu a posição, em janeiro de 2009.

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