A gravação da voz de Maria de Jesus Barroso declamando "Os dois sonetos de amor da Hora Triste", poema de Álvaro Feijó, foi um dos momentos marcantes das cerimónias fúnebres de Mário Soares.

“Quando eu morrer - e hei de morrer primeiro / Do que tu - não deixes de fechar-me os olhos / Meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos

E ver-te-ás de corpo inteiro....” / Como quando sorrias no meu colo. / E, ao veres que tenho toda a tua imagem / Dentro de mim, se, então, tiveres coragem, / Fecha-me os olhos com um beijo.

...escutou-se nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos entre os discursos emocionados dos filhos, João e Isabel Soares, que recordaram o passado político do pai e alguns episódios familiares de Mário Soares.

A cerimónia que decorreu no Mosteiro dos Jerónimos abriu com o Hino Nacional, tocado e cantado pelo Coro do Teatro Nacional de São Carlos e pela Orquestra Sinfónica portuguesa, e com um excerto do discurso que Mário Soares proferiu durante a cerimónia de assinatura do Tratado de Adesão à CEE, a 12 de junho de 1985, naquele exato local.

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Os convidados, personalidades públicas, portuguesas e estrangeiras, assim como familiares, cada qual agarrava na mão um caderno evocativo da cerimónia com uma foto de corpo inteiro de Mário Soares a caminhar na praia. Uma declaração escrita de Sophia de Mello Breyner – “naquele tempo... retrato” abria os outros “capítulos” do resto da história protocolar que se iria escrever nos Claustros do Mosteiro dos Jerónimos.

Escutou-se Wolfgang Amadeus Mozart, “Requiem – Lacrimosa” e Edward Elgar, “variações enigma nº9”, uma mensagem do primeiro-ministro, António Costa, foi reproduzida nos écrans, Eduardo Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República discursou relembrando o passado político de Soares e, por fim, Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da República, evocou a História e a portugalidade, citando Camões e Pessoa, recordando o papel de Mário Soares na história de Portugal e da Europa, e, como não poderia deixar de ser, também ele evocou Maria Barroso.

De novo o Hino de Portugal ecoado nos Claustros. Com a urna já colocada no armão, cá fora, escutou-se o som de seis aviões F16 que, em esquadria, sobrevoaram os Jerónimos e o calcorrear dos mais de 80 cavalos da GNR que seguiram em cortejo do Mosteiro até ao Cemitério dos Prazeres, com passagens pelo Palácio de Belém, Assembleia da República e Fundação Mário Soares. Debaixo de aplausos e de “Soares é Fixe”.

Na praça João Bosco, depois do som da Marcha Fúnebre dos três ramos das Forças Armadas, de três rajadas de G3 e da salva de tiros (21) de artilharia disparados da Corveta Jacinto Cândido, fundeada no Tejo (não audível nos Prazeres), os sinos assinalaram a entrada nas portas do Cemitério.

A urna, tapada pela bandeira portuguesa, foi transportada por oficiais dos três ramos das Forças Armadas e foi depositada perto de quatro coroas de flores, uma da família e as outras representativas da presidência da República, Assembleia da República e Governo.

Num momento em que a voz de Soares foi mais uma vez audível, excerto de um tempo de antena de janeiro de 1986, as Condecorações foram entregues aos netos. A bandeira foi dobrada, cumprindo o protocolo, passando de mão em mão, do Chefe Maior das Forças Armadas, ao Presidente da República e entregue a Isabel e João Soares.

Foi o fim das Cerimónias Oficiais Militares, a que se seguiu o momento reservado à família. A urna seguiu em ombros para o Jazigo da família Soares onde está sepultada Maria de Jesus Barroso.

“Assim, mente. E, se quiseres partir e o coração / To peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino / Talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino?”

Assim termina o poema de amor de Álvaro Feijó. Assim Mário Soares se junta a quem sempre esteve ao seu lado, Maria Barroso.

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