Apesar da representatividade das mulheres nos cargos de administração continuar a aumentar a nível mundial, o número permanece baixo quando se olha para os lugares de liderança. Portugal segue em linha com essa tendência, com apenas 6% dos Conselhos de Administração a serem presididos por profissionais do género feminino. E nas Comissões Executivas, o universo feminino não vai além dos 8% da composição.

Apesar das mulheres em Portugal estarem em maioria (58%) à saída das universidades e nos lugares de entrada nas empresas (58%), essa percentagem diminui abruptamente à medida que se escala a hierarquia organizacional, invertendo-se os papéis. Quanto mais alto o cargo que se ocupa, maior a percentagem de homens.

A conclusão faz parte do estudo “Women Matter: A Way Forward for Portugal” a que o SAPO24 teve acesso, uma iniciativa da Associação de Antigos Alunos do INSEAD (Portugal INSEAD Alumni Association) que se associou à consultora McKinsey. Tendo como objetivo promover o equilíbrio de género nas empresas portuguesas, o documento será apresentado hoje, às 17h30, na NOVA SBE, em Carcavelos.

Numa análise a 32 empresas (entre as quais 18 empresas do PSI-20) e a cerca de mil colaboradores, o estudo defende que apesar de Portugal progredir na “promoção da igualdade de género nos quadros de administração das empresas”, ainda faltam passos “para se aproximar dos países europeus que surgem na liderança”.

Será igualmente apresentado um índice “Leading Together”, elaborado pela McKinsey, que retrata a representação feminina e masculina em posições de liderança das empresas do PSI-20.

A Sonae Capital lidera, com duas mulheres (Ivone Pinho Teixeira e Maria Cláudia Azevedo) no Conselho de Administração (CA), órgão composto por sete elementos. Olhando para a composição, corresponde a uma percentagem de representação de género de 71% para 29%, com os homens em esmagadora maioria. Por outro lado, na Comissão Executiva (CE), com a composição de dois elementos, há uma igualdade de género e de ocupação, com Ivone Teixeira como CFO (Chief Financial Officer).

O pódio é ainda ocupado pelos CTT, com quatro mulheres em 13 elementos do Conselho de Administração e uma mulher nos cinco que compõem a Comissão Executiva, e a EDP, com seis mulheres no CA (num total de 29) e duas na Comissão Executiva (9 elementos).

Sonae Capital e CTT ocupam as mesmas posições desde o início do ranking, em 2013, tendo o terceiro posto sido ocupado já pela Mota-Engil (2013) e NOS (2014-17).

Vistos à lupa todos os assentos executivos das empresas do PSI-20, conclui-se que dos 78 administradores executivos, apenas seis são mulheres. E que nos últimos cinco anos, apenas cinco empresas tiveram sempre pelo menos uma mulher como administradora executiva. São elas a Sonae Capital, CTT, NOS, Millennium BCP. A EDP só o fez em 2018.

De registar ainda que entre 2013 e 2018 nota-se uma evolução positiva, mas ainda longe de um verdadeiro equilíbrio, tendo-se registado uma melhoria acentuada em 2018 relativamente ao número e percentagem de mulheres como administradoras (executivas e não executivas). A esse facto não é alheio a Lei 62/2017, publicada a 1 de agosto 2017, referente ao Regime da representação equilibrada entre mulheres e homens nos órgãos de administração (setor público empresarial e empresas cotadas em Bolsa). Enquanto que em 2013 nas empresas atuais do PSI-20 existiam 23 mulheres administradoras (10% do total), em 2018 nas empresas do PSI-20 o número sobe para 48 administradores do sexo feminino (21%).

“Uma mulher CEO pode trazer à economia o mesmo que um homem CEO”

Lançar uma iniciativa que desse “maior visibilidade” ao tema do “desequilíbrio de género na liderança nas empresas”, que permitisse um “debate saudável” sobre o que está a ser feito em algumas empresas e que pudesse “celebrar e premiar” as que “se esforçam” em “fomentar uma liderança mais equilibrada” esteve na base do estudo hoje apresentado, referem Catarina Soares, da Associação de Antigos Alunos do INSEAD e cofundadora da Leading Together, e Joana Freitas, cofundadora da Leading Together.

Quando comparado com alguns países europeus, no que toca à proporção de homens e mulheres na administração de grandes empresas, Portugal “está ligeiramente melhor (no sentido de maior equilíbrio) do que Espanha e Itália”, por exemplo, mas “pior do que França”, com o nosso país a ter “cerca de 20%” de mulheres (em cargos executivos e não executivos) enquanto “França tem cerca de 40%”, sublinha Joana Freitas.

As “questões culturais” têm, no entanto, “peso”, uma vez que “nos países do Sul”, mais ainda do que na Europa do Norte, as mulheres “tendem a acumular as suas obrigações profissionais com o essencial da responsabilidade pelos filhos e pela gestão doméstica”, adianta Catarina Soares. Por outro lado, no Sul da Europa o “papel da mulher profissional está menos enraizado do que por exemplo na Holanda ou na Suécia”, enfatiza.

À pergunta o que “uma mulher CEO pode trazer à economia”, Catarina Soares responde com “o que pode um homem CEO trazer à economia”. E conclui: “uma mulher CEO pode trazer à economia o mesmo que um homem CEO, dependendo apenas da pessoa em questão e não do seu género”. Joana Freitas questiona: “Porque é que sendo as mulheres metade da humanidade, são menos de 1% dos CEOs?”.

Para mudar o status quo “há três atores: as empresas; a sociedade civil; e os governos”, elenca Catarina Soares.

Em relação às empresas só “há evolução efetiva nesta matéria” quando o “CEO e a liderança executiva fazem do equilíbrio de género uma prioridade”, sustenta. Mas pode haver mais: “adicionalmente removendo os obstáculos à progressão das mulheres ao longo da pirâmide empresarial”, continua.

A sociedade civil (organizações ou coligações de empresas), “desempenha o papel de pressionar os decisores-chave, criar transparência e comprometimento, por exemplo através da criação de rankings nacionais, e partilhar melhores práticas das empresas e organizações”, dando passos substanciais no sentido de “maior equilíbrio de género”.

Já o Estado tem um papel importante “não só no apoio à vida familiar (serviços públicos, benefícios e incentivos)”, como com “iniciativas legislativas que encorajam um maior equilíbrio na representação dos géneros nos lugares de topo”, continuou.

A finalizar, Joana Freitas destacou ainda uma “uma correlação positiva entre o equilíbrio de género na liderança executiva de uma empresa", e o seu “desempenho financeiro”, e a “saúde organizacional, ligada à inovação e à satisfação dos colaboradores”.

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