Casos similares foram denunciados noutras empresas, como na Mercedes Benz, na Renault e na Fiat, mas até hoje apenas o caso da Ford avançou. Embora o processo judicial não acuse a empresa, os queixosos querem que fique demostrada a cumplicidade da empresa norte-americana com a ditadura.

A ditadura argentina, autodenominada Processo de Reorganização Nacional, esteve vigente de 1976 a 1983 e deixou 30.000 desaparecidos, segundo várias organizações de defesa dos direitos humanos.

"Sem a participação dos civis e destas empresas, este golpe não teria sido bem sucedido. Estas pessoas colaboraram, deram veículos, comida, combustíveis, deram as empresas para serem administradas como quisessem, e assim fomos sendo levados, um a um", afirmou Troiani à AFP.

Em General Pacheco, na periferia de Buenos Aires, onde ainda fica a fábrica da Ford, Propato reafirma essa ideia.

"Eles colaboraram. Os carros Falcon que usaram na repressão foram pintados por mim", garantindo, lembrando-se dos veículos que o regime usava para sequestrar opositores.

Os dois insistem que não eram militantes políticos e que a prisão e as torturas, deles e de outros colegas, se deveram ao ativismo sindical que faziam.

Conduzidos em algemas

Na fábrica da Ford, havia 100 delegados sindicais, dos quais 24 foram retirados dos seus postos de trabalho. Nesses dias, as brigadas militares instalaram-se no local e os soldados almoçaram na cantina da própria fábrica, segundo depoimentos dos operários.

"Eles exibiram-me algemado em toda a fábrica, como se dissessem: vejam o que pode acontecer a vocês. Os camaradas mandaram parafusos" para os militares, em protesto, recordou Troiani.

Propato aponta com o dedo para o "quincho", uma espécie de churrasqueira para atividades recreativas dos trabalhadores nas mesmas instalações da fábrica de montagem. Naquele lugar, diz ele, os militares torturaram-no e outros delegados durante horas.

Ele diz que a sua cabeça foi coberta por um saco plástico e que pensou que iria sufocar, mas Troiani conseguiu fazer-lhe um buraco e "salvou a minha vida". O seu companheiro esboça um sorriso tímido, não se lembrava daquele episódio.

Da fábrica, foram levados para uma esquadra de polícia em Tigre, nos arredores de Buenos Aires, onde foram detidos clandestinamente antes de serem transferidos para outros centros de prisão, onde passaram quase dois anos.

"Uma pessoa presa sem saber porquê sofre por duas vezes", reflete Troiani, que, como o Propato, já era pai à época.

Repressão laboral

A historiadora Victoria Basualdo garante que o ativismo operário e sindical, muito efervescente nos anos 1970 na Argentina, "era uma preocupação central, tanto para as forças armadas quanto para a direção das empresas".

Isso explica "o grau de repressão aplicada nos espaços de trabalho, da mobilização de efetivos armados numa grande quantidade de fábricas no próprio 24 de março (data do golpe), as prisões e sequestros de trabalhadores e sindicalistas", disse Basualdo à AFP.

Na América Latina, a Argentina foi o país que mais avançou no julgamento das violações de direitos humanos desse período. Centenas de militares foram condenados e vários integrantes das sucessivas juntas militares morreram na prisão.

"Quando começou a democracia, com Raúl Alfonsín (1983-89), e as juntas militares foram julgadas, começámos a reunirmo-nos e a perguntar "porquê, porque é que isso aconteceu connosco?. Ali vimos que era possível fazer justiça", lembra Troiani.

Criar jurisprudência

Após 42 anos, apenas 13 dos 24 delegados estão vivos.

Em dezembro de 2017, teve início a etapa oral do julgamento por violações de direitos humanos contra os ex-diretores da Ford, Héctor Sibilla e Pedro Muller. No processo, o militar Santiago Riveros também está entre os acusados.

Dezenas de testemunhas depuseram. Propato e Troiani assistem regularmente às audiências. Já Sibilla e Muller só apareceram na primeira. Estima-se que em novembro a fase de alegações possa começar e então a sentença será proferida.

Consultados pela AFP, os advogados de defesa dos ex-gerentes recusaram-se a fazer declarações.

"Eu e meus colegas lutámos para estar aqui. Para mim, o benefício que alcançámos é ter chegado ao julgamento", explicou Propato.

Troiani pede um pouco mais: "Queremos que eles sejam responsáveis e que este caso sirva de jurisprudência para outros camaradas que têm processos muito atrasados".


AFP/Nina Negron

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