O desperdício alimentar ameaça tornar-se um desafio cada vez mais complicado com o decorrer dos anos. Na mais extensa investigação realizada até hoje, a Agência das Nações Unidas para a Alimentação (FAO) publicou um relatório em 2011 onde estimou o desperdício alimentar mundial nos 1,3 mil milhões de toneladas por ano, um terço de toda a comida produzida no globo.

Contudo, não há dados concretos, uma vez que não se sabe ao certo quantas refeições são desperdiçadas ou quantas toneladas de alimentos não chegam a ser consumidas.

Nesse estudo há, porém, um dado alarmante. É que na cadeia onde seguem os alimentos até chegarem ao prato, há perdas que ocorrem na produção, na distribuição e no consumo. Contudo, é referido que em países industrializados na América do Norte, Oceania, Europa e parte da Ásia, 40% do desperdício é provocado no fim, ou seja, são os consumidores (e os espaços onde se degustam refeições) que deitam tanta comida para o lixo.

Em outubro do ano passado, em entrevista ao SAPO24, Iva Pires, professora associada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, doutorada em Geografia Humana e autora do ensaio “Desperdício Alimentar”, editado em 2018 pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, reforçou que, apesar dos números que apresenta no seu ensaio, “não se sabe [ao certo] a dimensão do problema porque não existem estatísticas sobre o desperdício, apenas estimativas e cálculos”, mas que de uma coisa tem a certeza: “estamos a desperdiçar demasiados alimentos que são adequados para o consumo humano, que foram produzidos para ser consumidos, mas que, por um conjunto de razões, acabam no lixo”.

O Movimento Zero Desperdício, que contribui para "agilizar procedimentos que antes eram bloqueios à doação de excedentes alimentares", tem conseguido evitar algum desperdício alimentar e, consequentemente, "contribuir para a redução da pegada ecológica do tecido empresarial português, através da recuperação de excedentes alimentares que de outra forma se transformariam em resíduos". Ao SAPO24, Paula Policarpo, Presidente da DARiACORDAR, conta que até dia 28 de janeiro "a Rede Zero Desperdício recuperou o equivalente a 11.165.382 de refeições, o que corresponde a cerca de 5.583 toneladas de resíduos alimentares evitados, 23.447 toneladas de CO2 evitadas e cerca de 28 milhões de valor económico gerado".

Este movimento é a prova de que ajudar o planeta pode começar por simples gestos — e de poucas pessoas para depois chegar a muitas. No início, em 2011, o projeto "partiu de nove cidadãos, cujo objetivo era contribuir para a redução do desperdício alimentar de produtos perecíveis e altamente perecíveis, numa altura em que não havia resposta a nível nacional para a doação de excedentes alimentares com estas características. Hotéis e restaurantes não tinham forma de doar excedentes alimentares confecionados, por barreiras relacionadas com a interpretação da legislação e com a higiene e segurança alimentar", começa por explicar.

Assim, "o Zero Desperdício é um projeto de economia circular e colaborativa que recupera, reutiliza e evita o resíduo num processo, para o qual se desenvolveu um modelo operacional que envolve o setor público, privado e cidadãos. É um modelo replicável, flexível e extensível a outros fluxos. Este modelo conecta de forma eficaz doadores e recetores; capacita quer os doadores quer os recetores, para que os alimentos sejam entregues e cheguem em condições de higiene e segurança aos beneficiários". E a rede já tem cerca de 700 parceiros.

Neste sentido, começam também a surgir alternativas por todo o mundo, recorrendo à tecnologia: existem já aplicações que permitem reduzir o desperdício de alimentos, ajudando restaurantes a vender a comida que acaba por não ser vendida e até mesmo os alimentos que, não estando capazes para consumo, servem para fazer compostagem.

Paula Policarpo refere que esta é uma boa opção, "como todas as iniciativas que de uma forma ou de outra evitam os resíduos alimentares".

"Quer seja no formato de uma app, um livro, um vídeo, um blog, uma entidade ou uma associação, o que interessa é que contribui para que os alimentos não terminem como resíduos. Foram gastos recursos materiais, humanos, temporais e financeiros na conceção dos produtos alimentares", reforça. "Se estes forem parar ao lixo, todos esses recursos foram gastos em vão. Não interessa apenas reduzir os impactos ambientais implícitos aos resíduos produzidos por um produto alimentar que não foi doado ou vendido. Interessa também a sustentabilidade", remata.

Reduzir o desperdício, pagar pouco por boa comida e apoiar empresas locais

Uma das aplicações em utilização para este fim em Portugal é a Too Good to Go. Madalena Rugeroni, Country Manager, explica ao SAPO24 como surgiu o projeto. "A Too Good To Go é uma empresa de impacto social que foi criada em 2016, na Dinamarca, por um grupo de empreendedores. Numa ida a um restaurante buffet aperceberam-se da quantidade de comida em ótimo estado que era deitada fora. A comida era simplesmente demasiado boa para ser assim desperdiçada e, por isso, ficou imediatamente claro que tinham de fazer algo".

Depois da descoberta, o primeiro passo foi "unir forças para criar uma solução simples que permitisse a todos tomar uma ação para reduzir o desperdício, adquirir comida deliciosa e apoiar as empresas locais",  contribuindo para um ambiente melhor.

Para isso, o processo é simples: os estabelecimentos (restaurantes, hotéis, supermercados, lojas com comida preparada) podem vender "através de uma app os seus excedentes alimentares, no final de cada turno ou do dia a preços mais acessíveis". E tudo o que dali sai é "comida de qualidade que simplesmente não foi vendida durante estes turnos". Com poucos cliques, os utilizadores podem adquirir Magic Boxes — nunca se sabe o que lá vem — e depois é só fazer a recolha no local.

"O fator surpresa é, por incrível que pareça, um dos maiores drivers para os nossos utilizadores usarem a app porque provoca curiosidade e entusiasmo. No entanto, existe porque é um pouco inevitável na medida em que não conseguimos prever que comida é que vai sobrar em cada estabelecimento. Além do mais, seria contraproducente se não o fosse, porque se vendêssemos com base na escolha do que está no menu, obrigaríamos o estabelecimento a produzir mais comida e não estaríamos a combater o desperdício alimentar", realça. "Ainda assim, para que os utilizadores tenham uma noção do que podem receber na Magic Box, na app está disponível uma breve descrição do tipo de produtos que são vendidos em cada um dos estabelecimentos".

Mas, para Madalena, não é isso o mais importante. "Mais do que estar a comprar comida de qualidade que seria desperdiçada, a Too Good To Go oferece uma experiência ao utilizador: cria um sentimento de antecipação e surpresa, associado ao de dever cumprido, por ter salvo uma refeição".

Em 2020, a Too Good To Go está presente em 15 países, 14 deles na Europa e ainda os EUA. A empresa chegou em setembro de 2019 a Portugal e está a dar já alguns passos. A nível global, os dados disponíveis mostram já o que se pode fazer com, aparentemente, tão pouco.

"Os dados mais recentes dizem-nos que, até à data e a nível global, já evitámos que 73.884 toneladas de CO2 fossem emitidas para a atmosfera, já salvámos quase 30 milhões de refeições. E contamos com 19 milhões de utilizadores registados e mais de 38.000 estabelecimentos parceiros", diz. Em Portugal, existem já 400 estabelecimentos, em Lisboa e no Porto, sendo que "o ano de 2020 será um ano de expansão, para distritos de Portugal continental".

Contudo, fica uma questão: poderá este negócio contribuir para a sustentabilidade mas, por outro lado, prejudicar vertente solidária que, em casos como a Refood, recolhe refeições para distribuir por pessoas que necessitam? Madalena tem resposta pronta.

"Uma vertente nunca eliminará ou anulará a outra. A Too Good To Go surge como uma solução complementar a instituições como a Refood. Ainda antes do lançamento oficial em Portugal, fez todo o sentido unir-nos à Refood, pois ambos lutamos pela mesma causa e queremos resolver o mesmo problema. Infelizmente, o desperdício alimentar é tanto que são precisas mais entidades para o resolver", começa por justificar.

Além disso, "a missão da Too Good To Go é combater o desperdício alimentar e sensibilizar os portugueses para que tenham um consumo consciente e sustentável e isso passa também por ajudar as associações e projetos que já o têm vindo a fazer em Portugal e motivar os nossos parceiros e utilizadores, também eles, a ajudar".

E a aplicação tem, por isso, esta vertente solidária em consideração. "Hoje trabalhamos com a Refood através da Too Good To Go, e na nossa app os utilizadores podem também doar diretamente dinheiro para a Refood. E, mais recentemente, celebrámos mais uma parceria social, desta vez com a instituição CASA, que também estará disponível para doações na Too Good To Go", refere.

Além da Too Good To Go existem já outras aplicações a funcionar em Portugal, como é o caso da Phenix — que aposta em cabazes anti-desperdício, compostos pelos excedentes diários de vários estabelecimentos, que podem ser comprados a metade do preço do que seria habitual — e da FairMeals, que une serviços de restauração e consumidores, possibilitando descontos de até 70% na aquisição de refeições de qualidade a preços reduzidos.

O que já não se pode comer não vai para o lixo

Não é só ao nível de refeições que se pode diminuir o desperdício alimentar. Carmen Lima, da Quercus, explica ao SAPO24 o que está a ser feito para que aquilo que já não serve para comer também não vá parar ao lixo. "O Plano Estratégico dos Resíduos Urbanos, publicado em 2019, vem introduzir a obrigatoriedade de dar um destino aos resíduos orgânicos (biorresíduos), nos quais estão incluídos o desperdício alimentar, tendo a cidade de Lisboa já iniciado um projeto piloto de recolha desta tipologia de resíduos, para diminuir a quantidade de biorresíduos que não são aproveitados para valorização", começa por explicar.

Além disso, a Quercus tem também uma aplicação — a Waste App — que pode ajudar nesta tarefa, através da compostagem. "Esta aplicação surgiu face à quantidade de pedidos de informação sobre dúvidas na separação de resíduos urbanos e sobre os destinos mais adequados a dar a estes resíduos que a Quercus recebe diariamente e para as quais muitas vezes repete as respostas. A ideia era disponibilizar à população em geral informação útil sobre a separação dos resíduos urbanos e sobre onde os entregar, indicando inclusive a localização no Google Maps, em apenas dois cliques".

A aplicação foi lançada a 2 de fevereiro de 2019 e teve, até à data, 50865 utilizadores, dos quais 23,5% são utilizadores assíduos.

Dos campos também não é preciso deitar nada fora

Mas não é só na cidade — ou  nos restaurantes e supermercados — que se gera desperdício alimentar. É isso que vem mostrar o projeto Fruta Feia, que já evitou, nos últimos seis anos, que duas mil toneladas de frutas e legumes fossem parar ao lixo somente devido à sua aparência, colocando nas mãos dos 235 agricultores parceiros cerca de um milhão de euros.

A fruta que não era aproveitada e ficava a apodrecer nos solos resultava em emissões de gases com efeito de estufa. Com este projeto é possível combater as alterações climáticas, bem como poupar os recursos naturais, como solos, água e até mão-de-obra.

Isabel Soares, mentora da cooperativa Fruta Feia, explicou em declarações à Lusa, que o projeto tem já 235 agricultores como parceiros. Feita as contas, é possível aproveitar cerca de um terço da fruta e vegetais que os supermercados desperdiçam por considerarem que não têm o aspeto perfeito que os consumidores procuram ou o calibre necessário.

Quando arrancou, em 2013, a Fruta Feia abastecia 120 consumidores e salvava do lixo, por semana, cerca de 400 quilos. Seis anos depois, fazem parte do projeto 235 agricultores, tira do lixo semanalmente 15 mil quilos, conta com 5.500 associados e tem uma lista de espera de 15 mil pessoas.

Neste momento, a Fruta Feia"é uma economia alternativa através da qual [os produtores] podem escoar o que não conseguem no mercado convencional”, adiantou Isabel.

De acordo com Isabel Soares, chegar às duas mil toneladas significou também “colocar praticamente a um milhão de euros nas mãos dos agricultores”, o que fez com que muitos pudessem comprar maquinaria ou contratar um trabalhador a tempo inteiro: “é uma rentabilidade extra muito importante”, frisou.

"Gente bonita come fruta feia" é o lema do projeto desde o primeiro dia, um projeto que pretende associar "bons ideais às pessoas que estão dispostas a comer" esta fruta não normalizada para evitar o desperdício alimentar, concluiu Isabel Soares.

A Fruta Feia distribui à segunda-feira os cabazes nos Anjos, Matosinhos e Telheiras, à terça-feira no Rato, Almada e Gaia, na quarta-feira na Amadora, Campo Santa Clara e Porto e à quinta-feira na Parede e em Braga.

As cestas de fruta feia podem ser pequenas, com 3/4kg e cinco a sete variedades, pelo custo de três euros e meio, ou grandes, com 6/8kg e sete a nove variedades, com o custo de sete euros. São compostas por frutas e hortaliças, que variam semana a semana conforme a altura do ano.

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