Um ataque com faca ocorrido esta quinta-feira fez pelo menos três mortos em Nice. Duas pessoas, um homem e uma mulher, foram mortas na igreja de Notre-Dame, onde ocorreu o ataque, e uma terceira vítima, gravemente ferida, morreu num bar perto da igreja, onde se tinha refugiado. Fonte policial adiantou à agência Reuters que uma mulher terá sido decapitada.

O atacante foi neutralizado e transportado para o hospital uma vez que foi atingido por armas de fogo da polícia, de acordo com o Le Figaro. O homem gritou “Allah Akbar (Deus é grande em árabe) enquanto executava o ato, segundo uma fonte próxima da investigação. O ataque ocorreu por volta das 09:00 locais (08:00 em Lisboa).

Segundo o mesmo jornal francês, já se sabe que o atacante é um tunisiano de 21 anos chamado Brahim Aoussaoui que chegou ao território francês vindo de Lampedusa no final de setembro. O ataque terá sido perpetrado a solo.

No Twitter, Christian Estrosi, presidente da Câmara de Nice, confirmou a detenção do autor e a adiantou ainda que das três vítimas mortais, duas morreram no interior da Basílica. O autarca disse ainda que "já chega" e pediu ao país para "se exonerar das leis da paz para erradicar definitivamente o islamofascismo" da França.

O Conselho Francês da Fé Muçulmana, de acordo com a Reuters, já terá condenado o ataque e pediu a "todos os muçulmanos em França" para cancelarem as celebrações do nascimento do profeta Maomé.

As autoridades locais já alertaram a população que está em curso uma operação policial e pede para respeitarem o cordão de segurança montado à volta da basílica, mas pede à população para "evitar" o pânico uma vez a que "situação está sob controlo".

O tráfego dos elétricos foi interrompido nesta área movimentada.

"As detonações que ouvem são causadas pela operação de desminagem", acrescentou a porta-voz da polícia Florence Gavello.

Confirmando-se a informação de que uma das vítimas terá sido decapitada, trata-se do segundo caso ocorrido em França. Há duas semanas, Samuel Paty, professor de 47 anos que lecionava as disciplinas de História e de Geografia em Conflans-Sainte-Honorine na região parisiense, foi decapitado por Abdullakh Anzorov, refugiado de origem russa chechena de 18 anos, por ter mostrado caricaturas do profeta Maomé no início de outubro em duas aulas sobre a liberdade de expressão.

Nice esteve igualmente enlutada em 2016 depois de um ataque que deixou 86 mortos na famosa avenida Promenade des Anglais, em 14 de julho, em pleno feriado nacional.

De Avignon a Jeddah, os outros ataques que se sucederam

Os homicídios de Nice, porém, não foram hoje os únicos ataques a darem-se em França ou atingir instituições francesas.

Também durante a manhã, um homem armado com uma branca tentou esfaquear polícias, mas acabou por ser abatido pelos agentes em Avignon

O incidente decorreu pouco depois do ataque em Nice, cerca das 10h15, hora de Lisboa. e aconteceu no centro de Avignon, quando um jovem, munido de uma arma de fogo, ameaçou pessoas na rua enquanto gritava "Alá, é Grande", escreve a Reuters. O atacante foi abatido antes de concretizar qualquer tipo de ataque.

Já em Lyon, um afegão foi preso quando tentava entrar num elétrico armado com uma faca.  O suspeito de 20 anos, que usava um traje tradicional afegão, já havia sido identificado pelos serviços de inteligência franceses, disse uma fonte próxima à investigação. 

"Ele carregava uma faca de 30 centímetros e parecia pronto para seguir em frente", disse à AFP Pierre Oliver, prefeito do segundo distrito de Lyon, onde fica a estação. 

O suspeito está a ser interrogado e provavelmente passará por um exame psicológico, acrescentou a fonte próxima à investigação.  O incidente, por ter ocorrido após o ataque em Nice, está a ser levado "a sério", disse a mesma fonte.

Os ataques a envolver a França, contudo, não se deram apenas em território francês. Na cidade de Jeddah, na Arábia Saudita, as forças de segurança sauditas detiveram hoje um cidadão que atacou um guarda do consulado francês com um objeto pontiagudo, deixando-o com ferimentos ligeiros, informou a agência oficial saudita SPA.

A polícia da região de Meca “deteve um cidadão que atacou um guarda do consulado francês com um objeto pontiagudo, [tendo este ficado] ligeiramente ferido”, noticia a SPA sem mais pormenores.

A embaixada da França em Riade condenou veementemente o ataque e instou os cidadãos franceses na Arábia Saudita a exercerem "máxima vigilância".

“O agressor foi imediatamente preso pelas forças de segurança sauditas após o ataque e o segurança levado para o hospital”, informou a embaixada francesa, em comunicado, garantindo que a vida do guarda não está em perigo.

As medidas de segurança foram reforçadas em torno do consulado de Jeddah, constatou um fotógrafo da AFP, que viu vários veículos a conduzir ações de patrulha perto do edifício. 

Em Riade, duas carrinhas da polícia estão estacionadas em frente à embaixada da França, localizada no distrito diplomático, de acordo com um correspondente da AFP que também viu a polícia saudita proibir transeuntes de tirar fotos.

“A França está sob ataque”. Governo francês eleva nível de segurança após incidentes

Não se sabe se qualquer um destes incidentes estará ligado com os outros nem se todos eles terão motivações terroristas islâmicas, mas a sua ocorrência dá-se numa fase em que se têm multiplicado reações do mundo muçulmano contra a França e o seu Presidente, depois de Emmanuel Macron ter declarado, durante uma homenagem nacional a Samuel Paty, que continuaria a defender a liberdade de expressão, incluindo a publicação de caricaturas.

No local dos homicídios em Nice, Macron caracterizou o incidente como sendo um "ataque terrorista islâmico" e disse que "a França se encontra sob ataque".

"Não cederemos" os valores franceses, disse o presidente à imprensa, que se deslocou a esta cidade da Riviera Francesa após o atentado para expressar seu apoio aos católicos e para divulgar uma mensagem de união nacional.

"Se nos atacam, é pelos nossos valores, pelo nosso gosto pela liberdade, pela capacidade no nosso território de ter liberdade de credo", disse Macron, que fez um apelo à "união" e a não ceder ao "terror".

Além disso, Macron anunciou o aumento de 3.000 para 7.000 dos soldados destinados a operação militar de vigilância antiterrorista "Sentinela" para proteger principalmente os locais de culto em vésperas da festa católica de Todos os Santos no domingo.

Antes, o primeiro-ministro francês, Jean Castex, já tinha elevado o nível de alerta terrorista em todo o país. A segurança de edifícios, transportes e locais públicos vai ser elevada para o nível "emergência atentado".

Castex, que anunciou a medida na Assembleia Nacional, qualificou o ataque em Nice como "ignóbil, bárbaro e abjeto" e prometeu uma resposta "firme, implacável e imediata".

O primeiro-ministro anunciou também uma reunião do Conselho de Defesa Nacional de França para sexta-feira.

O Ministro do Interior, Gérald Darmanin, anunciou na rede social Twitter a realização de uma "reunião de crise" em Paris, enquanto a Assembleia Nacional decidiu guardar um minuto de silêncio em solidariedade com as vítimas e os seus parentes.

A França sofre com atentados terroristas de alto impacto desde 2015, quando um ataque extremista em 7 de janeiro contra o semanário satírico Charlie Hebdo deixou 12 mortos. No dia 13 de novembro do mesmo ano, um comando jihadista executou ataques coordenados em Paris que mataram 130 pessoas, e no ano seguinte ocorreu o atentado acima mencionado em Nice que vitimou 86 pessoas.

O julgamento pelo violento atentado contra o Charlie Hebdo, no qual morreram alguns dos cartoonistas mais famosos da França, está neste momento em curso em Paris. Coincidindo com a abertura do julgamento, a revista voltou a publicar caricaturas de Maomé que a transformaram em alvo dos jihadistas, o que provocou críticas no mundo muçulmano.

*com agências

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