Os líderes sindicais "comprometem-se [esta quinta-feira] a suspender a greve por 15 dias, altura em que terá lugar uma nova reunião com o governo", anunciou Eliseu Padilha, chefe da Casa Civil de Temer.

O governo, por sua vez, comprometeu-se a suprimir pelo menos menos um imposto sobre o diesel e a implementar um sistema de subvenções para manter a redução de 10% no preço do diesel anunciada pela Petrobras, que excepcionalmente congelou este valor durante os próximos 15 dias.

O anúncio da trégua foi feito conjuntamente por sindicalistas e ministros no Palácio de Planalto após mais de sete horas de reuniões à porta fechada.

Apesar do acordo alcançado, Michel Temer acionou esta sexta-feira as "forças federais de segurança" para libertar as estradas bloqueadas há cinco dias pelos camionistas, justificando a decisão com a radicalização de alguns grevistas.

"Muitos camionistas estão a fazer a sua parte, mas, infelizmente, uma minoria radical tem bloqueado estradas, impedindo que muitos camionistas levem adiante o seu desejo de servir a população", afirmou o presidente num breve comunicado no Palácio do Planalto.

Os camionistas protestam contra o aumento do preço do diesel, que desde 2016 acompanha as flutuações do mercado internacional e, nos últimos meses, passou por fortes reajustes diários.

São Paulo em estado de emergência

São Paulo, a cidade mais rica e populosa do Brasil, decretou hoje o estado de emergência devido ao “excesso de protestos” causados pela greve dos camionistas contra os elevados preços dos combustíveis.

A câmara municipal advertiu, num comunicado, que caso a greve se prolongue, poderá ser declarado um dia de feriado nacional devido à falta de abastecimento e precisou que o “estado de emergência pode evoluir para um estado de calamidade pública”. A autarquia também afirmou que continua a trabalhar, com o “apoio da polícia militarizada”, para que os grevistas suspendam ações que impedem o “abastecimento de combustível aos serviços essenciais”.

O autarca de São Paulo, Bruno Covas, determinou também a criação de uma comissão para avaliar e tomar “as medidas necessárias”. Neste quinto dia de paralisação, que afeta os 27 Estados brasileiros, a frota de autocarros na cidade de São Paulo circula a 60% da capacidade e dezenas de postos estão sem combustível.

Além dos camionistas, esta sexta-feira os condutores de transportes escolares aderiram à greve e realizam manifestações em vários pontos de São Paulo, de acordo com fontes sindicais. Pelo menos outras cidades do interior do Estado de São Paulo também decretaram o estado de emergência. A declaração de estado de emergência permite ao município fazer compras sem licitação ou apreender bens privados, como o combustível armazenado nos postos de abastecimento.

Produção de carros paralisada no Brasil 

Todas as linhas de montagem de automóveis do Brasil foram obrigadas a interromper as suas atividades, informou a Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

A entidade já havia alertado esta quinta-feira que a partir de hoje todas as produtoras automóveis teriam as linhas de produção paradas, o que foi confirmado durante a manhã, apesar do acordo anunciado entre o governo e os camionistas, e que não foi acatado até o momento de modo visível pelos grevistas.

"A greve dos camionistas afetará significativamente os nossos resultados, tanto em vendas, como na fabricação e exportação", advertiu a Anfavea. A indústria automóvel produz em média 12.600 carros por dia e gera impostos diários de 250 milhões de reais, segundo dados da entidade.

No caso de normalização do transporte rodoviário, o setor tem "uma grande capacidade de recuperação" e, em caso de necessidade, trabalhará no fim de semana, afirmou à AFP uma fonte da Anfavea.

Mas até o momento, os camionistas que protestam contra o aumento do preço do diesel mantêm os bloqueios em pelo menos 24 estados do país. O movimento provocou escassez e disparada nos preços dos combustíveis e de alimentos.

Aeroporto de Brasília cancela voos por falta de combustível

O aeroporto de Brasília viu-se obrigado a cancelar voos esta sexta-feira depois de se esgotaram as reservas de combustível devido à greve dos camionistas.

"As reservas de Querosene de Aviação (QAV) no aeroporto de Brasília esgotaram-se esta manhã", informou a Inframérica, gestora do aeroporto da capital, que funciona como um "hub" de ligações domésticas na cidade.

"Os aviões que aterrarem neste aeroporto e que precisarem de abastecer permanecerão em terra até que seja regularizado o fornecimento (de combustível)", acrescentou.

Nos últimos cinco dias, apenas 10 camiões de combustível entraram no aeroporto, com escolta policial, enquanto numa situação normal o fluxo médio é de 20 camiões por dia.

Brasil paralisado

Filas em frente aos postos de gasolina, aeroportos com reservas de combustível em níveis mínimos, dispararam os preços dos combustíveis e dos alimentos, foi interrompida a produção em fábricas de automóveis, milhares de litros de leite derramados pela impossibilidade de chegar aos locais de produção e encerramento de escolas. Estas foram algumas das consequências da greve.

As ações da Petrobras caíram cerca de 14% na Bolsa de São Paulo, um dia depois de a companhia ter aceitado reduzir em 10% o valor do diesel por duas semanas para facilitar o diálogo.

A Fiat suspendeu a sua produção e distribuição de veículos nas fábricas de Minas Gerais e Pernambuco, informou a companhia.

Em Minas Gerais, mil litros de leite foram deitados fora diariamente por causa dos problemas nos transportes, segundo o Sindicato da Indústria Láctea.

O porto de Santos, o maior da América Latina, praticamente não registou entradas e saídas de camiões nos últimos três dias, mas as operações de carga e descarga de navios permaneciam normais", informou a administração.

Em Brasília, as autoridades decretaram feriado escolar esta sexta-feira.

O medo de desabastecimento gerou longas filas nos postos de gasolina, e muitos deles ficaram sem combustível ao longo do dia. Onde ainda havia gasolina, o litro ultrapassava os 5 reais (cerca de 1,4 dólares), bem acima dos 4,215 do final de abril. Em alguns casos chegou a 7 reais.

O brasileiro comum sente o impacto nos aumentos de preços de todos os tipos de produtos.

A Agência Nacional do Petróleo (ANP) anunciou medidas para facilitar a distribuição de combustíveis e combater os preços abusivos.

A população também sentiu o impacto no aumento dos preços de outros produtos, como frutas e hortaliças. Ainda assim o movimento contou com certo apoio popular.

"Acho que isso acontece por uma má gestão do governo federal, uma má gestão com todos esses casos de corrupção", disse Ana María Lobo, de 54 anos, citada pela AFP, enquanto aguardava a sua vez num posto de gasolina de São Paulo.

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