Perante esta constatação, João Semedo, fundador e presidente da Academia do Johnson, uma organização que promove o desenvolvimento humano e bem-estar, através do acompanhamento a crianças e jovens oriundos de meios familiares e sociais fragilizados, bem como às suas famílias, lançou um apelo para ter meios para ajudar os lares, cada vez mais carenciados.

Em declarações à Lusa, João Semedo afirmou que a academia apoia 168 crianças e jovens, dos quais 60 estão diariamente nas instalações ou a realizar atividades desta organização, como o apoio ao estudo, futsal ou dança.

Com o encerramento das escolas, como medida preventiva contra a covid-19, estas crianças foram para casa, sobrecarregando as famílias ao nível da alimentação e precisando de um acompanhamento para os trabalhos escolares, que nem sempre os pais têm possibilidade de proporcionar.

“Manter as crianças em casa é muito difícil. Até os adultos têm essa dificuldade, continuando a andar pelas ruas, apesar da polícia passar frequentemente e recomendar que fiquem dentro de casa”, contou.

As condições de muitas das habitações também não convidam ao confinamento, mas neste momento as maiores preocupações de João Semedo são com a perda de rendimento que já se sente nos bolsos de alguns agregados familiares.

“Fizemos um apelo e estamos a dar cabazes às famílias que estão connosco e outras famílias que a academia identificou, porque as conhecemos por estarmos no terreno”, disse.

Diariamente, e como resultado de um acordo com uma unidade hoteleira, a academia entrega 30 refeições a famílias localizadas nos bairros da Cova da Moura, do Zambujal e na Ajuda.

Um trabalho que João faz acompanhado do filho mais velho, devidamente protegidos por máscaras, luvas e desinfetante. E não consegue conter as lágrimas quando recorda algumas das situações com que se depara quando entra nestas residências.

“Isto custa-me, entristece-me, revolta-me. As pessoas estão sozinhas, não têm recursos de alimentação”, desabafou.

E as perspetivas não são animadoras, a começar pela muito própria forma do bairro viver. “Vai haver despejos. O Governo bem pode dizer que não pode haver, mas quando as pessoas deixarem de pagar porque não recebem, porque não trabalham, o senhorio não se vai lembrar do que o Governo aprovou”.

Ao medo do dia a dia, esta população começa a sentir o medo do amanhã. Conscientes da precariedade de muitos dos seus trabalhos.

“Esta pandemia veio parar as pessoas. Está tudo parado, mesmo emocionalmente. E há o dia de amanhã, que assusta, porque basta fazer contas à vida para perceber que dentro de uma semana, um mês, não vai haver forma de continuar”, alertou.

“Para quem já vive na corda bamba, vai ser uma desgraça”, frisou.

Por isso o apelo que João Semedo lançou na página da rede social Facebook da Academia do Johnson, ao mesmo tempo que agradeceu a quem continua a permitir a ajuda.

Enquanto isso, nas ruas da Cova da Moura continuam a ser visíveis algumas crianças a brincar. Junto às casas, adultos fazem o mesmo.

João Semedo não acredita que as pessoas estejam nas ruas porque não têm medo. “Têm medo e sabem que é perigoso, mas é uma forma de viver que não muda de um dia para o outro. A malta é da rua”, vincou.

E mesmo em ambiente de pandemia, o humor não falta aos moradores deste bairro que, garantiu João Semedo, afirmam convictos: “O coronavírus não entra na Cova da Moura. Ele não quer nada connosco”.

Para já, não são conhecidos casos de infeção em moradores neste bairro do concelho da Amadora.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, já infetou mais de 1,2 milhões de pessoas em todo o mundo, das quais morreram mais de 70 mil.

Dos casos de infeção, mais de 240 mil são considerados curados.

Depois de surgir na China, em dezembro, o surto espalhou-se por todo o mundo, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar uma situação de pandemia.

Em Portugal, segundo o balanço feito hoje pela Direção-Geral da Saúde, registaram-se 311 mortes, e 11.730 casos de infeções confirmadas.

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