“É como se a gente fosse extraterrestre, delinquente. Muitos ajudam-nos mas outros olham-nos com desconfiança, com medo, com desprezo”, contou à Lusa o técnico de informática Luís Ríos, 41 anos, que vive em Bogotá há três meses.

Na sua cidade natal, Caracas, vivia com a família e trabalhava na sua própria oficina, a arranjar computadores.

A crise económica diminuiu a clientela e obrigou-a a fechar as portas da empresa. A filha, atualmente com 18 anos, motivou-o a procurar uma oportunidade no país vizinho.

“Muitos vêm à Bogotá à procura da esperança de um ‘sonho americano’. Mas não encontrei nenhuma oportunidade e, pela primeira vez na minha vida, durmo na rua”, afirmou.

Atualmente, Luís anda à procura de trabalho temporário para conseguir comprar a passagem de volta a casa. “O pior é voltar sem nada, não mandar nada para a minha filha. Aqui estou a passar fome”, acrescentou, com lágrimas nos olhos.

O regresso a Caracas, no entanto, não é fácil. O trajeto em autocarro até a fronteira, em Cúcuta, leva 15 horas e custa 90 mil pesos colombianos. De lá até à capital venezuelana, Luís estima precisar de outros 90 mil.

Sem poder pagar as passagens fixou-se num parque em frente ao terminal de autocarros, com a mochila e a mala de viagem. Na tarde da última sexta-feira, convivia com outros sete venezuelanos, também sentados nos bancos daquele espaço, entre eles uma mulher grávida.

“O maior problema aqui é a polícia, que é muito violenta”, contou um dos companheiros de Luís.

Os imigrantes, provenientes de diversos lugares, como Merida, Cunamá, Caracas e Yaracuy, conheceram-se na Colômbia, no bairro Ciudad Salitre, de classe média-alta.

Nas imediações, famílias venezuelanas vendem doces nos semáforos, pedem moedas, oferecem “tinto” (como se chama ao café em Bogotá) e cigarros, e colaboram em pequenos estabelecimentos comerciais.

Há tensão com os moradores e funcionários dos edifícios do bairro, que afirmam que o número de roubos subiu e pedem mais controlo às autoridades.

“Trabalho aqui há dois anos e antigamente não havia tanta falta de segurança. Era um setor muito bom. Já roubaram a barbearia, de noite fica muito perigoso”, disse a manicure Milena Salazar, de 28 anos.

“Sabemos que muitos vêm para trabalhar e conseguir melhores condições, mas outros têm maldade”, acrescentou a colombiana

De acordo com os imigrantes, os moradores tiram-lhes fotos com os telemóveis e enviam para a polícia nas imediações, que realiza em seguida o desalojamento.

“Não deixam ficar no parque, nem debaixo da ponte. Porque para a gente não têm ajuda humanitária?”, questionou Maria Gamboa, 40 anos.

A técnica em segurança industrial Keila, 30 anos, tinha um trabalho fixo na Venezuela, como caixa num supermercado, mas não se arrepende da mudança.

“Lá o salário mínimo não compra uma cesta básica e aqui, mesmo sem uma casa, consigo a Carbamacepina para mandar para a minha mãe”, acrescentou, referindo-se ao medicamento que controla convulsões e que falta na Venezuela.

Assim como Keila, Maria quer continuar a tentar a sorte em Bogotá.

“Aqui os preços são mais nivelados, com a venda das balas [rebuçados] conseguimos pelo menos comer”, contou.

Por outro lado, outros quatro venezuelanos do mesmo grupo querem juntar dinheiro para comprar a passagem de retorno. Entre eles uma mulher grávida, que quer reencontrar a filha de dois anos que deixou sob o cuidado da avó, e o técnico de informática Luís Rios.

“Sinto falta da época em que viajava para passear. Era rico e não sabia”, afirmou, mostrando o passaporte carimbado por países como Brasil e Cuba.

A foto do documento mostra um rosto redondo, com 15 quilos a mais e marcas de expressão a menos ao redor dos olhos.

“Esta foi a minha dieta de Maduro. Em Bogotá eu aprendi a ser mais humilde, a ser melhor pessoa. Mas já foi o suficiente”, concluiu.

Porque o seu tempo é precioso.

Subscreva a newsletter do SAPO 24.

Porque as notícias não escolhem hora.

Ative as notificações do SAPO 24.

Saiba sempre do que se fala.

Siga o SAPO 24 nas redes sociais. Use a #SAPO24 nas suas publicações.