"As cinzas vêm com a água e vão para as barragens. Como são nutrientes, provocam um crescimento acentuado das algas e, se [houver] bactérias, não se pode beber água", disse hoje à agência Lusa Eugénio Sequeira, um dos coordenadores do parecer do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (CNADS) sobre a proposta de reforma da floresta preparada pelo Governo.

"A água corre porque tem um declive direito", mas se se fizerem valas isso já não acontece, vai-se infiltrando no terreno, explicou, falando depois da conferência de imprensa de apresentação do parecer, publicado em março.

"O grande problema é quando começar a chuva. Agora até à chuva não há nada" sobre este tema da influência na qualidade da água, apontou, questionado pela Lusa.

Eugénio Sequeira, especialista em solos que também foi presidente da Liga para a Proteção da Natureza (LPN), disse, durante a conferência de imprensa, que "os fogos vão ter consequências dramáticas para todos, não só para os proprietários que não cuidaram da floresta" ou para quem toma decisões.

E lembrou a falta de investimento na investigação, fazendo com que não haja parcelas de terreno do Estado para fazer experiências, e não haja alunos interessados neste setor, além da cortiça e da celulose.

O especialista apontou a existência de soluções técnicas para enfrentar o problema das cinzas resultantes dos incêndios, mas "dá trabalho" e exige que todos os vizinhos também o façam.

Para Eugénio Sequeira, devia ser realizado um estudo abrangente para responder a um conjunto de perguntas e ficar a perceber melhor o que se passa com a floresta portuguesa, nomeadamente "porque fazem os portugueses dez vezes mais ignições que outros países".

Mas também, "porque, em regiões com barragens, há três vezes mais ignições do que no resto do país, porque no sul há menos ignições do que no resto do país, apesar de ser mais quente" ou porque Portugal tem dos melhores bombeiros do mundo mas muitos hectares ardidos.

O presidente do CNADS, Filipe Duarte Santos, citou dados apresentados no parecer, segundo os quais entre 1990 e 2015, entre cinco países europeus da Bacia do Mediterrâneo, Portugal foi o único que registou uma descida da área florestal, com menos 7,4%, enquanto Espanha liderou os crescimentos, com 33,4%, seguida de Itália, onde a área florestal subiu 22,5%, Grécia (18,3%) e França (17,7%).

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